segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Teorias sob chuva e sol


para Bibiana Onuki


Ayane sentou-se num dos degraus da escadaria que conduzia a uma passarela – a expressão em seu rosto sinalizava para quem quisesse ver o instante em que sua paciência se esgotou.

- Ok. – ela declarou enquanto puxava os waribashi para soltar a tampa de alumínio do macarrão instantâneo, até então presa pelos palitos de madeira contra o copo. – Já basta de caminhar.

- Uhm... – Solo, de pé em um degrau abaixo dela, apoiou as costas contra o corrimão e olhou ao redor. – Não tem problema a gente comer aqui? É passagem...

Ayane levou uma porção de macarrão à boca e gesticulou com os talheres de madeira na direção oposta enquanto engolia.

- Tem espaço o bastante pra duas pessoas passarem aqui, Sol. – ela estreitou os olhos para a rua iluminada pelo sol forte. – E, com alguma sorte, ninguém vai passar e a gente consegue fazer uma refeição em paz pra variar...

Solo fez uma ligeira careta ao se lembrar de como algumas pessoas os haviam seguido com olhos curiosos no dia anterior enquanto os dois se aventuravam pela cidade, conversando, como era usual sempre que se encontravam pessoalmente, em vozes altas e em português.

Ayane, muito parecida com a mãe no cabelo escuro e liso e olhos puxados, provavelmente não havia se destacado tanto nos meses que já passara morando na cidade. Solo, por outro lado, nunca se sentira tão consciente de seus cabelos cacheados antes.

Era uma experiência e tanto, ser um estranho entre pessoas tão parecidas umas com as outras. Meneando a cabeça, ele optou por não se demorar no assunto e abriu o próprio copo de macarrão enquanto apontava:

- Se sua mãe te ouvisse chamando macarrão instantâneo de refeição, você tava tão ferrada...

Ayane fez um grunhido de frustração após engolir mais uma porção.

- Nem me fale, toda vez que eu falo com ela, é pra ouvir um você tá comendo direito? Não vai se encher de porcaria, menina... – ela balançou a cabeça enquanto ajustava os óculos no rosto e partia o ovo cozido em seu macarrão ao meio. – Eu me pergunto se ela tem noção de quão cara comida é aqui...

Solo abafou uma risada e continuou a lutar com seus waribashi por uma porção de macarrão enquanto ela falava. Não importava quanto tempo passasse, o relacionamento de Ayane com a mãe permanecia o mesmo – cheio de discussões e vozes alteradas num momento, para se tornar risos e demonstrações de afeto em outro.

De fato, se for ser sincero consigo mesmo, a mulher que ele crescera chamando de ‘tia’ provavelmente havia sido uma das razões para ele passar tanto tempo na casa da amiga durante a adolescência.

Aqueles dias pareciam extremamente distantes quando ele olhava para Ayane agora. Na superfície, ela continuava sendo a gamer viciada escondida por trás de um par de óculos com quem ele crescera, mas bastava uma conversa para sentir os anos que haviam passado.

Era uma sensação... Diferente.

- Que foi? – Ayane perguntou, e Solo se deu conta de que havia parado de comer para observá-la. – Me diga que não tem molho na minha cara.

O rapaz riu pelo nariz e negou com a cabeça.

- Nada... Gostei do seu cabelo assim.

Ayane abriu um sorriso com o elogio ao corte que ele sabia ser o mais curto que ela já usara em anos e começou a compartilhar seus planos para pintar os fios de uma cor a decidir. Solo concordou e ofereceu suas próprias opiniões sobre o plano, mas não pôde evitar ouvir a voz que sussurrava constantemente uma pergunta no fundo de sua mente.

O que eu ‘tô fazendo aqui?

O sentimento de quem olha ao redor e percebe que está ficando para trás é difícil de se colocar em palavras e por isso Solo nunca tentava. Não foi diferente dessa vez. Ele terminou de comer o macarrão e conversou com Ayane, ouvindo, opinando e sentindo enquanto ignorava a pergunta novamente. Eles estavam ali para se divertir e distrair, afinal.

Não houve uma primeira gota de chuva – o banho os pegou de surpresa e de uma única vez. Solo ouviu Ayane praguejar e pular do degrau em que se sentara para correr escada abaixo com o rapaz em seus calcanhares. As lembranças de todas as vezes em que os dois haviam corrido daquele jeito debaixo de sol ou chuva atingiu Solo em cheio enquanto eles disparavam para baixo da passarela e logo os dois estavam sem fôlego de tanto rir sob a proteção da própria escadaria sobre a qual descansavam momentos antes.

- Deus...! – ofegou Ayane, olhando para a chuva súbita e as calçadas ainda iluminadas ao redor. – Sol e chuva...

- Casamento de viúva. – completou Solo e os dois gargalharam de novo sem razão. – Como a gente sai daqui? – ele perguntou quando conseguiu respirar.

- Não faço ideia! – exclamou a garota, ainda abafando risadas. – Talvez a gente tenha que esperar passar...

Solo balançou a cabeça para afastar os cachos molhados dos olhos e suspirou antes de virar o copo para beber o que restava do caldo de seu macarrão. Seus olhos automaticamente procuraram por uma lixeira próxima, mas ao encontrar uma no início de um beco, se distraíram ao enxergar alguma coisa na saída do mesmo.

- Que é aquilo, Ane? – sua voz perguntou, mas os olhos permaneceram nas silhuetas distantes.

A garota seguiu seu olhar e estreitou ligeiramente os olhos por trás das lentes dos óculos.

- Parece um desfile... Mas nessa chuva? – os olhares dos dois se encontraram. – Quer investigar?

Solo riu outra vez, ainda distraído pela sensação de nostalgia.

- Pensei que você nunca fosse perguntar...

Novamente, eles correram debaixo da chuva se dividindo entre pragas contra o temporal e risadas sem fôlego até alcançar o beco. Solo diminuiu o passo para jogar o copo de macarrão vazio no lixo e quando virou-se novamente para a outra entrada do beco, se deparou com uma cena saída de um sonho.

Dezenas de pessoas caminhavam em duas filas pela ruazinha em que o beco desembocava, todas vestindo quimonos e chapéus e xales que lhe cobriam as cabeças. Seus rostos eram escondidos por máscaras com algo de animalesco no desenho e seus passos seguiam o ritmo da música tocada por alguns membros do desfile – uma combinação de instrumentos de corda, flautas e percussão que soava estranha aos ouvidos de Solo.

Devagar, ele caminhou até parar ao lado de Ayane, que estava de pé a apenas alguns passos do final da sombra do beco, assistindo com a mesma fascinação que eles. Aparentemente, os dois não haviam sido notados ainda.

- Olha. – Solo a ouviu sussurrar e sentiu sua mão segurar-lhe o braço. – É um casamento.

Ele olhou na direção em que ela apontava e se deu conta de que duas únicas figuras na estranha procissão se diferenciavam das outras – suas máscaras e o elaborado quimono de uma delas eram completamente brancos. Uma ao lado da outra, elas caminhavam – ou seria dançavam? – em vestes feitas com tecidos elegantes, que pareciam intocadas pela chuva.

Impressionado pelos detalhes do quimono branco, Solo demorou alguns instantes para se dar conta de que havia algo estranho à altura dos pés da figura que ele supunha ser a noiva, que calçava sandálias de madeira altas.

- Ane... – ele chamou em voz baixa quando sua mente finalmente processou a imagem que confundia os olhos. – Aquilo é uma cauda ou é impressão minha?

- Quê?

- Shh!

O sibilar veio acompanhado por um par de mãos os puxando pelos ombros para dentro do beco. Ayane fez um som estrangulado de susto e Solo quase a imitou ao girar no lugar para encarar a pessoa às suas costas.

- Quem...? – lhe escapou em português, mas a garota levou um dedo aos lábios, interrompendo-o com outro chiado:

- Shh! Eles vão ouvir!

Solo sentiu o próprio queixo cair.

- Qu... Você fala português? – Ayane balbuciou com os olhos arregalados. A garota fez outro chiado pedindo silêncio. – Quer parar de chiar desse jeito e se explicar?

A adolescente balançou a cabeça e agarrou os dois amigos pelas mãos, arrastando-os para dentro do beco e para longe da procissão de casamento.

- Elas não gostam de gente vendo! – ela sussurrou por cima do ombro, empurrando-os para uma das esquinas do lado do beco por onde haviam entrado. – Se veem você... – balançou a cabeça enfaticamente. – Kyoubun!

Quando ela finalmente os soltou, Solo analisou sua aparência novamente. Era uma adolescente de cabelos muito escuros e longos sob o que parecia ser um boné de baseball. Ela tinha a pele ligeiramente morena, estava usando uma camisa de mangas longas, uma saia laranja e um par de tênis marrons. Sua aparência era asiática, no mínimo.

Mas ela havia falado com eles em português, e ainda que muitos brasileiros morassem no país, o sotaque não mentia.

- Quem é você? – Solo perguntou, porque não havia muito mais que ele pudesse fazer no momento.

A garota piscou os olhos puxados para ele e soltou uma exclamação de compreensão por baixo do fôlego.

- Setsuko! – ela informou, parecendo triunfante. – Eu sou Setsuko.

- Ookay... – Ayane alongou a palavra e trocou um olhar de estranheza com ele. – E você sabe português porque...?

- Família. – explicou Setsuko com um sorriso sem jeito. – No Brasil.

- Certo. – a garota mais velha acenou com a cabeça. – E o que é aquilo ali?

Ela apontou para a procissão que quase desaparecia no outro lado do beco e a expressão de Setsuko se tornou mais sóbria. Ela se inclinou para perto deles e falou num sussurro:

- Kitsune no yomeiri.

Solo olhou para Ayane e ergueu as mãos para sinalizar incompreensão enquanto ela tentava traduzir o termo.

- ‘Raposa’... ‘A raposa recebe a noiva’? – murmurou a garota de óculos, balançando a cabeça. – Algo como ‘o casamento da raposa’?

- Isso não é o nome de uma música? – Solo franziu a testa e olhou para dentro do beco mais uma vez. – Eles todos são... Raposas?

- Kitsune. – confirmou Setsuko acenando com a cabeça. Ela apontou para o céu ensolarado e a chuva que ainda caia. – Chuva e sol... Casamento de raposa. – voltando a encará-los, ela levantou a aba do boné e continuou. – Não gostam de ninguém vendo. Por isso na chuva ou de noite. Hoje em dia... Quase nunca saem assim.

- Hontouni? – Ayane perguntou erguendo as sobrancelhas, e Setsuko abriu um sorriso e disparou algumas palavras em resposta enquanto confirmava.

Solo observou as duas conversarem em outro idioma por alguns segundos, percebendo que a garota mais nova parecia bem mais confortável com a linguagem que com o português e arriscou mais um olhar para dentro do beco.

Ele podia ver o final da procissão agora. As últimas figuras desapareciam pela rua e, de onde estava, Solo não podia ter certeza de que enxergava caudas ou qualquer outro sinal de que não fossem humanos. Mas era difícil não imaginar agora. A última figura do grupo era pequena, uma criança num quimono cor de rosa, talvez. Ela pulava no final das filas, ligeiramente fora de ritmo, mas sua felicidade parecia mais honesta que todos os outros de onde Solo observava.

Ele sorriu consigo mesmo e subitamente, a criança mascarada virou a cabeça na sua direção e parou.

Uh-oh. Solo recuou um pouco, mas continuou a observar enquanto ela inclinava a cabeça e lançava um olhar rápido na direção da procissão antes de voltar-se para o beco novamente, com decisão, e avançar alguns passos. Sua mão apanhou algo no quimono e estendeu na sua direção, e Solo não tinha nenhuma dúvida de que era a ele que ela se dirigia.

Ele lançou um olhar para Setsuko e Ayane, que ainda estavam envolvidas numa conversa que ele não podia entender, antes de respirar fundo e caminhar novamente para dentro do beco, até parar diante da criança.

Os olhos da máscara o encararam e a mão ergueu um objeto de tecido bordado para ele. Solo, sem saber bem como responder, aceitou o presente com as duas mãos e inclinou a cabeça, murmurando um agradecimento tentativamente. Uma risada infantil o respondeu e a criança lançou um olhar para a rua de onde viera. Ela voltou-se para ele, levou um dedo enluvado aos lábios e correu naquela direção com um aceno energético antes de desaparecer.

- Sol! – uma voz sibilou e Solo sentiu seu braço ser agarrado antes de ser puxado de volta para fora do beco. – O que ‘cê ‘tá fazendo?

- Uhm... – ele ergueu o pacote fino de tecido bordado com imagens que poderiam ser raposas pendurado num barbante. – Er... Eu ganhei isso?

Setsuko olhou do pacote para ele com os olhos bastante abertos.

- Omamori! – ela sussurrou impressionada. – É boa sorte, boa sorte!

- Tem certeza? – Ayane perguntou, nervosa. – Não é perigoso?

A outra garota negou com a cabeça, voltando a falar rapidamente em japonês e Solo analisou o objeto que ela chamara de omamori novamente, sorrindo ao ver as imagens de raposas correndo. Boa sorte, é?

- Solo? – uma voz chamou seu nome, puxando o ‘l’ como se fosse um ‘r’, e ele virou-se para Setsuko, que inclinava a cabeça em sua direção com um sorriso. – Eu vou embora agora. Muito prazer em conhecer você.

Solo sorriu em resposta.

- Foi um prazer te conhecer também, Setsuko. Até logo.

- Até! – a garota se despediu com um sorriso radiante. – Aproveite o sol!

Ela acenou e se afastou pela calçada, uma mochila estampada balançando nas costas. Ayane e Solo a observaram partir juntos em silêncio por alguns momentos, até que a garota observou:

- Isso foi esquisito.

- Muito esquisito.

- Ela disse que ia me procurar no Facebook.

- Legal.

- Acho que ela tava dando em cima de mim, mas pode ser impressão.

Solo ergueu as sobrancelhas.

- Wow.

- Pois é. Crianças de hoje, cada vez mais precoces... – Ayane o ouviu fazer um murmúrio pensativo. – O que?

Ele devolveu seu olhar com um sorriso.

- Eu tenho uma teoria.

- Nem vem, Sol.

- Não sobre isso! – riu o rapaz, olhando para o amuleto uma última vez e sorrindo antes de guarda-lo no bolso. – Uma teoria sobre a gente, Ane... Quer ouvir?

Ayane suspirou exageradamente.

- Vá. Diga.

Solo riu outra vez e a envolveu com um braço.

- Eu acho que a amizade da gente não acaba tão cedo... E que as coisas vão dar certo pra nós dois. Que tal?

Ela sorriu com o canto dos lábios em resposta.

- Sabe de uma coisa? Essa não é tão ruim assim.

E rindo novamente, eles caminharam juntos sob o sol e a chuva que parava de cair.

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Título: Teorias sob chuva e sol

Referências: Trecho do filme "Dreams", de Akira Kurosawa, especificamente o curta "Sunshine through the rain"
Música "O Casamento da Raposa", de Gerson Filho, na versão por Nicolas Krassik e Cordestinos
Música "O Casamento da Raposa com o Rouxinol", de Alceu Valença

Mais informações sobre "Kitsune no Yomeiri" aqui.

Glossário rápido e sujeito a erros: Waribashi: Palitos de madeira usados como talheres (hashi) em vários países da Ásia. Waribashi refere-se especificamente aos hashi descartáveis de madeira utilizados em restaurantes, que devem ser separados um do outro.
Kyoubun: "Más notícias" (tradução Denshi Jisho)
Kitsune no yomeiri: “Casamento de Raposas”, o termo é aplicado a dois fenômenos no Japão; à chuva que cai quando está fazendo sol e às luzes que podem ser vistas durante a noite, principalmente em cemitérios. Para mais informações, consultar o link acima.
Kitsune: Literalmente, “raposa”, mas aqui refere-se às criaturas mitológicas capazes de viver por muitos anos e se disfarçar de humanos, além de realizar vários outros truques. Para mais informações, consultar Wikipédia ou o blog Hyakumonogatari Kaidankai (em inglês).
Hontouni: "Mesmo?", "É verdade?" (tradução Denshi Jisho)
Omamori: Amuletos ou talismãs japoneses geralmente vendidos em templos com o propósito de oferecer boa sorte ou proteção. Mais informações, Wikipédia.

Então. Esse conto é parte de um conjunto que estou chamando tentativamente de Presentes Passados. Originalmente, foram escritas sete histórias para sete amigos que deveriam ter sido preparadas e entregues no Natal de... 2012, se não me engano. Obviamente, as duas últimas histórias só foram escritas e entregues como presentes de aniversário esse ano 8D

O conto acima é meio que um "spin-off" com os personagens do conto que foi escrito para a srta. Bibiana Onuki e dedicado à mesma, que está fazendo aniversário hoje :D (Ela também me deixou pensar por uma semana que o aniversário dela foi semana passada e eu tinha esquecido completamente D: mas isso não é relevante). Feliz aniversário, luv, espero que você goste e vamos aproveitar o sol hoje e sempre ;)

domingo, 6 de abril de 2014

Por este momento



Fim de noite e o restaurante estava fechando. As cadeiras e mesas foram empilhadas num canto, o balcão era limpo por um funcionário que hora ou outra bocejava. Num canto, porém, o pianista da noite e o dono discutiam acalorados sobre o pagamento do couvert. Não era uma discussão nova para nenhum dos lados.

- Eu vou parar de tocar aqui, juro que paro... Onde já se viu, quatro horas de trabalho e você me vem com um negócio desses?

- Esse é o acordo, o couvert depende da casa encher ou não, eu já te disse milhares de vezes...

- Eu toco aqui quase toda noite! Toda semana, e você me vem com essa... Por que não acertar um valor fixo de uma vez?

- Mas o couvert acaba rendendo muito mais que o fixo! Quando tem casa cheia...

- Quando! Quando tem casa cheia! Por que não acertamos um fixo e a casa fica com o couvert?

- E isso lá compensa pra mim? E se a casa não enche?

O pianista jogou os braços para o alto em frustração e olhou feio para o dono enquanto ele se virava para dar atenção a um funcionário. Nesse momento, uma mão hesitante tocou seu ombro. Ele virou-se ainda aborrecido para a moça de olhos grandes, recém-contratada, e suspirou pesadamente diante da insegurança.

- Diga, menina.

- Desculpe, senhor, eu me esqueci de entregar antes... – a novata sussurrou nervosamente, lhe estendendo um papel. – Foi uma cliente que pediu pra entregar ao senhor mais cedo, mas tinha tanto que fazer...

O pianista fez um gesto para que ela sossegasse.

- Não se preocupe, agora já foi, eu não aceito pedidos mesmo...

- Ah... Não é um pedido não, senhor, é um cartão... A cliente me disse que não tinha pressa, que entregasse quando desse, aqui...

O pianista franziu a testa e aceitou o cartão que cabia em sua palma, com apenas a imagem de uma tartaruga em verde e dourado na frente. Ele o abriu para ler a mensagem escrita em caneta preta e suas sobrancelhas se ergueram.

- Foi uma cliente que mandou, você disse? – perguntou a menina que já se afastava.

- Ah...! Sim... – confirmou a novata, virando-se para acenar com a cabeça. – Foi uma moça que estava sentada lá atrás. Tinha o cabelo pintado de azul bem escuro...

O pianista fez um murmúrio de compreensão, voltando a ler o cartão. Um sorriso devagar surgiu em seu rosto e se tornou uma risada. Ele apanhou suas coisas e caminhou para a porta, mal se virando quando o dono chamou:

- Ei! E o pagamento?

O pianista ergueu a mão que segurava o cartão e respondeu em tom jovial:
- Já recebi em dobro, colega!

A última vez em que sorri ao ouvir
Por Una Cabeza no piano foi alguns anos atrás
quando meu pai ainda estava vivo.
Obrigada por este momento.

As senhoras, ao passar pela rua, olhavam para a jovem de pé ao lado da mochila cheia de latas de tinta spray e cochichavam umas com as outras. A garota as ignorava em favor de se concentrar em terminar a imagem na qual já estava trabalhando há dias – um rosto moreno andrógino que dormia serenamente enquanto palavras e criaturas fantásticas escapavam de seu cabelo trançado – mas era cada vez mais difícil se convencer da própria surdez.

- ... coisa horrível, uma moça tão nova fazendo esses vandalismos... – um dos sussurros carregados a seus ouvidos finalmente a fez perder a paciência.

- Minha senhora, - ela chamou, virando-se e fazendo boa parte da rua olhar em sua direção. – eu tenho permissão pra fazer isso aqui, ok? Isso é um trabalho remunerado, não tem nada de ilegal acontecendo.

A mulher lhe deu um olhar de desprezo.

- Trabalho remunerado? Eu chamo de perda de tempo! – retrucou sua voz afiada e alta o suficiente para qualquer um escutar. – Você devia tomar jeito e arrumar um emprego de verdade, minha filha.

A jovem fez um som de impaciência e jogou sua lata de spray no chão.

- Primeiro... eu não sou filha da senhora e não pedi a sua opinião. – avisou com as mãos se fechando em punhos. – Segundo, esse é o meu trabalho, e se a senhora não pode respeitar, pelo menos faça-me o favor de não me atrapalhar quando estou trabalhando.

Algumas pessoas riram e seguiram em frente. A mulher lançou um olhar venenoso para a jovem e se afastou, murmurando:

- Falta de respeito... Nunca vi uma coisa dessas, garota perdida...

Fumegando de raiva, a moça virou-se de volta para a arte inacabada, tentando se concentrar novamente no detalhe que estava fazendo antes da interrupção. Não era a primeira vez que alguém desmerecia seu trabalho e nem seria a última, ela não podia deixar cada comentário atrasá-la daquele jeito, mas...

Será que o mundo não podia dar um tempo de vez em quando?

- Aqui. – uma voz chamou e a jovem grafiteira quase pulou de susto ao sentir uma mão tomando a sua. – Você deixou cair.

Uma jovem de cabelos tingidos sorriu, colocando a lata de tinta caída em sua mão.

- Ah... Obrigada. – gaguejou a artista, e a estranha acenou e seguiu seu caminho.

A grafiteira suspirou e voltou a olhar para o trabalho interrompido. Um segundo depois, notou que havia um papel entre seus dedos e a lata. Era um cartão com a imagem de uma coruja colorida com flores no lugar dos olhos na frente. Olhando em volta, ela não viu nem sinal da moça de cabelo azul-escuro, então abriu o cartão para ler a mensagem.

Sentindo os lábios se repuxarem num sorriso, a jovem encarou o trabalho que a aguardava e balançou a lata de tinta para voltar a pintar.

Espero ansiosa pela finalização da obra
para que sua arte passe a colorir meus dias.
Obrigada por estes momentos.

A garota de cabelo trançado passou mais uma página de seu encadernado e inspirou um fôlego cheio de fascínio com a história fantástica da graphic novel. Segurando o livro com uma mão, ela estendeu outra para a xícara de chá, que levou aos lábios para um gole antes de se ajustar em sua cadeira com a satisfação sonolenta de alguém que encontra tempo para si mesma no meio do dia.

- Senhora? Me desculpe interromper, me pediram para lhe entregar isso.

A jovem de trança abaixou o encadernado e piscou algumas vezes, retornando ao presente. Um funcionário do café lhe estendia um papel com um sorriso sem jeito e ela precisou de mais um segundo para murmurar:

- Ah. – e estender uma mão para apanhar o cartão. – Desculpe, isso é...?

- A moça que estava sentada ali me pediu que te entregasse. – explicou o rapaz, apontando uma mesa próxima. – Ela já foi, era a moça de cabelo tingido.

- Oh... – a moça de trança piscou mais algumas vezes, olhando da mesa vazia para o cartão com o desenho de uma máquina fotográfica na frente. – Er, obrigada.

O funcionário anuiu, ainda sorrindo com simpatia antes de deixa-la. A jovem abriu o cartão para ler a mensagem escrita à caneta.

V de Vingança é uma das minhas histórias favoritas.
Hoje é um dia ruim, mas te ver lendo me fez sorrir.
Obrigada por este momento.

A estação de metrô estava lotada. A moça de cabelo azul-escuro suspirou e passou uma música do aparelho de mp3, olhos procurando por sinal do trem. Trocando o peso dos pés a fechando o casaco, ela se perguntou com frustração quando o frio do último mês daria uma folga.

Alguém parou ao seu lado e uma mão colocou algo no bolso de seu casaco, fazendo a jovem de cabelos tingidos olhar com surpresa para a esquerda.

A moça de trança lhe deu um sorriso tímido e ergueu os olhos para conferir o painel dos trens que ainda iam chegar. Devagar, a outra puxou um cartão do bolso. Na frente havia a silhueta azul de um pássaro.

Um sorriso formou-se em seu rosto. Duas mãos se encontraram.

Estou com alguns momentos sobrando.

Vamos dividir?

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Há muito, muito tempo atrás, uma escritora talentosa (Rhuana Caldas) desafiou certa escritora preguiçosa (essa que vos fala) a escrever uma história de romance entre duas mulheres. Como nunca escrevi nada do tipo antes: Rhu, é com você, vale ou não?

Quem puder, confira esta versão de
Por Una Cabeza. É uma das coisas mais lindas que eu já ouvi.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Foi a saudade que me trouxe pelo braço



“Aqui estamos de novo!”

O anúncio do Palhaço indica o início do espetáculo transformado e ela prepara o sorriso, caminhando nas pontas dos pés calçados em sapatilhas negras para o centro do palco. É nesse momento em que ela admite que sentiu falta de tudo aquilo, das piruetas e acrobacias, das perseguições e truques de mágica, da confusão, da loucura, do teatro duvidoso ao som da música tocada por uma orquestra desenfreada.

O palco governa os atores e seus amores, rivalidades, vidas e mortes. Eles vão representar a mesma história noite após noite, de cidade em cidade, e alguns chamariam de prisão, mas a verdade é que não é nada mais do que a vida para todos eles.

Se fora do palco ela deixa de ser a jovem apaixonada e casta que dança apenas para seu amado, se do lado de fora ela troca de máscaras e pisa no chão não como quem flutua, mas como quem sabe bem para onde vai e o que quer, se ao dar um passo para longe do teatro ela é seguida pelos sussurros, se tudo isso acontece fora do palco, ninguém na plateia precisa saber.

A plateia só necessita do teatro, das piruetas, da dança e da mágica. E por eles ela veste de novo os losangos pretos e brancos, pinta o rosto ao invés de pôr as máscaras, e sorri como quem tem sonhos e é capaz da mais pura felicidade.


Ela realmente sentiu falta de tudo aquilo.

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Então... Existiu um desafio que me foi feito no carnaval passado, por uma Chapeuzinho Vermelho e uma Colombina, se não muito me engano. No fim das contas, não consegui fazer o desafio inteiro num texto só, então vou ver se faço em mais de um. Com um ano de atraso. Não me julguem. E acho que muita gente já sabe de onde vem o título, mas caso não saibam...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Vidas perigosas (O Jogo)



Lembro-me que certa vez um jovem que já viajara por meio mundo questionou-me de que valiam minhas histórias quando eu jamais me propusera a enfrentar os dragões de que falava. Não seria melhor ouvir da boca de verdadeiros aventureiros sobre os perigos pelos quais eles haviam passado? Não seria mais legítimo? Mais honesto, verdadeiro?

Eu lhe contei então a história de Phillipa Montez.


Phillipa Montez era uma viúva que vivia sozinha num casebre aos pés da montanha em que vivia um dragão. Quase todos os dias, Phillipa assistia a bravos aventureiros subirem a montanha a fim de enfrentar a fera, e falharem.

Seus corpos eram jogados do topo, já sem carne nos ossos carbonizados. Os com mais sorte desciam a montanha aos berros, muitas vezes com menos membros do que ao chegar, e decididos a jamais enfrentar outro dragão na vida.

Phillipa assistia com seus olhos míopes, e voltava a lavar sua velha frigideira de ferro.

Certa manhã, Phillipa viu passar pela estrada um novo candidato a matador, solene e determinado como todos os outros.

Horas depois, o jovem reaparecia correndo montanha abaixo, mas com uma pequena diferença.

Logo atrás dele, rugindo e cuspindo fogo, vinha o dragão.

Um jato de chamas bem colocado e uma patada jogaram o rapaz contra o paredão de pedra ao lado do qual se erguia a casa de Phillipa. O jovem ainda chegou a tentar fugir, mas o dragão o encurralou. O animal abriu a boca cheia de dentes, pronto para devorar o herói que falhara em poucas dentadas...

E foi atingido em cheio por uma frigideira no lado da cabeça.

O dragão guinchou, e Phillipa o atingiu de novo, de cima para baixo, atirando-lhe a cabeça na direção do chão. Segurando a frigideira com ambas as mãos como uma maça, ela continuou a bater até esmagar o crânio da besta.

Em seguida, deu as costas ao dragão morto e ao herói, e voltou para casa.


O rapaz lhe comprou uma frigideira nova e ganhou fama como um corajoso matador de dragões e Phillipa Montez viveu o resto de sua vida sem que seu nome fosse conhecido e lembrado por qualquer um.

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Postagens com uma semana de diferença... Talvez o exército deva ser avisado :p Achei alguns textos velhos do Jogo, esse tinha sido feito a partir da palavra 'perigos', escolhida aleatoriamente no livro Psicanálise dos contos de fadas. Tempo: 19 minutos. Opiniões sobre A História de Phillipa Montez (além de que talvez Vidas perigosas não faça jus a esta crônica heroica e épica)?

Ah, e por sinal, descobrir que fonte eu tinha usado naquelas imagens demorou mais tempo do que eu previa...

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Retrato do artista que morre jovem



Do começo: “Eu poderia dizer que a gente começou do mesmo jeito que todos os outros, mas aí me pergunto: foi mesmo? Porque nós não acabamos como mais uma banda fogo-de-palha, nós fomos além, mas me fica a dúvida... por acaso a gente começou como as bandas de verdade também? Meus heróis morreram mesmo de overdose? Minha música atravessou o mundo como palavra semi-divina? Meu amor virou bandeira de paz, enfrentou a guerra? Talvez a gente tenha começado com a dúvida ou talvez exista uma loteria, um bilhete premiado de esses daqui vão fazer sucesso e a gente ganhou sem nem mesmo saber...”

Da música: “Às vezes eu me pergunto se precisava ter sido a música. Uma letra de música não é tão distante de uma poesia ou mesmo um conto ou um romance, é? E palavras não são o único jeito de, sei lá. Expressar sentimento. Contar história. Eu poderia ter escrito, pintado, esculpido... feito história em quadrinho! Eu poderia ter feito muita coisa, mas me ocorreu de fazer música e aprender a fazer bem... eu podia ter escolhido fazer cinema bem, e talvez tivesse dado certo. Ou talvez eu acabasse debaixo da ponte, vai saber!”

Da família: “Minha mãe que dizia esse negócio de quer ser músico? Vai acabar debaixo da ponte! Brincando, claro.”

Da banda: “Às vezes você tem que estar com um grupo de pessoas pr’as coisas darem certo, sabe? Naquele momento, quando você sabe que está tudo no lugar certo... e aí eles tão lá. Até que você não esteja mais. Porque, se você vai embora, pra conseguir mais ou pra perder tudo que ganhou, eles não têm que te acompanhar, sabe? Só tem que estar lá no momento exato.”

Da banda, novamente: “Não, não temos muito desentendimento... a gente é uma máquina quando quer. Não quer dizer que a gente sempre quer, né?”

Do futuro: “Eu quero mais. A gente sempre quer mais, né verdade?”

Da morte: “Acho que todo artista sempre morre jovem demais. É, é bem assim, I hope I die before I get old, mesmo. Mas é verdade. Todo artista morre jovem, morre cedo. Todo mundo vai embora, seja por causa... das drogas, da bebida, do estresse, da doença ou da vida mesmo... e só o que fica é aquela herança inacabada, aquela obra sem fim, sem conclusão. E aí vem outro jovem e pega de onde ele parou, e vai na direção oposta. E morre jovem, também.”

Do futuro, novamente: “Não, não penso em parar, não.”


- fim da entrevista.


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It's alive! Post scriptums (isso tá escrito certo?) rápidos: texto escrito numa madrugada enquanto passava na televisão um especial sobre Cazuza (o que não quer dizer que seja necessariamente sobre Cazuza). Foto tirada com celular no esquema de ficar na frente da tv (no escuro) vendo um canal de música até aparecer alguém tocando guitarra. Foram necessárias umas dez tentativas. A foto também foi tirada com celular por motivo de preguiça (de carregar a bateria da câmera).

É, eu sei, meu processo criativo me surpreende as vezes...

terça-feira, 11 de junho de 2013

Do not resuscitate



Enterrem meu amor, na curva do rio ou na raiz da árvore, não me importa. Cubram-no com uma mortalha velha e ponham pregos em seu caixão, cimentem o túmulo. Meu amor morreu noite passada, não volta mais. Quero para ele um funeral de silêncio, sem luto ou lágrimas.

Não me diga que meu amor ainda respira, eu não posso ouvir. Não me interessa se ele agoniza aos meus pés, fecho os olhos, pronto, não o vejo mais. Meu amor pode chorar, arrepender-se de seus pecados diante dos deuses se assim quiser, e nada disso balança meu coração.

Não me interessa mais o que deseja meu amor, pois meu peito está seguro contra tais abusos. Ao redor de mim se ergue uma muralha de realidade, sobre a qual repousam gárgulas chamadas Razão e Decepção, prontas para atacar as mentiras e as promessas de doce e viciante felicidade que outrora saíram da boca de meu amor.

Não tentem colocá-lo de pé, fazer seu sangue voltar a correr. Não quero respiração boca-a-boca, massagem cardíaca, pílulas ou curativos. Não quero cuidados paliativos nem missa para meu amor.

Para esse sentimento decadente em meu peito quero apenas uma cova funda onde seja enterrado sob ordens de jamais ressuscitar e outra vez fazer minha alma desejar morrer.

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Curtinho, pensando sobre a expressão 'Do not resuscitate' (Não ressuscitar), que é a decisão legal de proibir que alguém preste socorro caso seu coração pare de bater, e inspirado pelos blogs da dona Ludmila Monteiro e dona Rhuana Caldas :p Espero que tenham gostado.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Prosa/Poesia: Curtíssima Mensagem Sobre a Saudade



A saudade transforma o resto de mim em jardim.
Tocar a grama é como afagar teus cachos e pelos.
Raízes enroscam minhas mãos como se fossem teus dedos.
O campo deixa teu cheiro no vento.
E os pássaros cantam o som do teu riso.
Fecho os olhos.
Permaneço deitada e imóvel,
Pois dezenas de joaninhas percorrem meu corpo.
Não quero esmaga-las mas
Temo que entrem pelos meus ouvidos, boca e narinas.
Causam-me cócegas e angústia.
As vezes penso que possa ser amor,
Talvez seja algo mais a ver  -
Com florescer.
Rhuana Caldas – Breve Ensaio Sobre a Saudade


- Sabia que a saudade floresceu em mim hoje? Sabia que fechei os olhos e ouvi tua voz, e de repente eu caminhava sobre a grama do teu cabelo e enroscava meus dedos nas suas raízes, e nada mais me importava, porque podia sentir teu cheiro? Teu cheiro, teu cheiro no meio das flores, no campo, no vento, não quero nunca mais perder o sabor que trouxe o teu cheiro pra minha boca, não quero nunca mais deixar de ouvir teu riso, teu riso é a música mais linda que já me tocou, beijou os ouvidos, ‘tá me ouvindo? Quero fazer minha voz te beijar como a sua me beijou, quero enroscar seu riso no meu, mas eu fico, eu fico aqui, parada, deixada para trás, coberta pelas patas e asas da minha angústia e do meu medo, queria abrir os olhos e correr por esse jardim e te ver, queria te ver, queria te ver, você vem? ‘tá me ouvindo? Você pode vir, pode me ver? Queria correr, queria te ver, te ouvir, sinto saudade no fundo das minhas raízes e penso que você devia estar aqui comigo, nesse lugar, nesse jardim, mas o medo tateia e passeia por mim, consegue me ouvir? Por que você não vem? Por que você não vem? Não ouviu que a saudade já está em flor, que hoje já é primavera? Vem, vem, me escuta, escuta o pássaro do meu riso encontrar o seu, escuta o sol nascendo e despertando a vida nesse jardim, escuta que eu já te escutei e não quero me enterrar no meu medo, como você se enterrou no seu... – click.

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Após imensa enrolação, texto do Desafio Interblogs, inspirado/resposta/relacionado ao aqui reproduzido poema Breve Ensaio Sobre a Saudade da talentosa Rhuana Caldas, do Memórias Meio Sóbrias (confiram o blog dela ;p) Acho que acabei enrolando no próprio texto. E roubando uma ideia antiga da Ludmila Monteiro 8D Well, é a vida. Críticas, elogios, sugestões, pensamentos e sensações?