quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Coisas Inúteis


(Foto original: Seira Yamamoto)

Introdução

O mundo está repleto de coisas inúteis. É o estigma de nossa existência como seres pensantes viver classificando cada objeto de acordo com a possível utilidade que ele trará para nós. Nos agarramos a essa definição, a definição de útil contraposta a inútil, e nos julgamos aptos a decidir o que é um e o que é outro. Nós somos prepotentes e arrogantes, mas todos já sabemos disso. O mundo se afoga em coisas inúteis. E, mesmo sabendo de tudo isso, todos nós amamos e odiamos algumas coisas inúteis a despeito de sua classificação. Coisas inúteis nos trazem um tipo de alegria difícil de classificar. Nos trazem prazeres secretos. E não há nada de errado nisso. Mas às vezes também nos trazem raiva, o tal do veneno por qual nos apaixonamos. Frustração, desprezo, tudo isso vem com as coisas inúteis. Sem falar numa melancolia, numa tristeza quase saudosa que se associa a elas quase como uma aura Benjaminana. Algo de inexplicável.
Que possamos todos, então, brindar às coisas inúteis.

A estante

Uma, duas, três, quatro prateleiras. As duas primeiras estão repletas de volumes de cores variadas, com letras em toda sorte de formatação tentando dar uma dica do que se esconde nas páginas prensadas. As duas últimas também exibem seus volumes com o mesmo orgulho, apesar de terem sido impressos com uma qualidade inegavelmente inferior, de suas histórias serem uma mistura de letras e imagens, de que a maior parte das pessoas desprezaria seu conteúdo num piscar de olhos em comparação ao conteúdo das prateleiras de cima.

Eles são muitos. A maioria já foi lida ao menos uma vez e podem contar com orgulho a maneira como conduziram um alguém por universos distantes, por lugares, pessoas, situações imagináveis. É seu mérito, no fim das contas. Seu objetivo. Sua razão de ser.

E, ainda assim, há quem diga que todos estão fadados ao esquecimento. Que todos estão ultrapassados, que logo desaparecerá sua necessidade.

Logo ninguém precisará deles.

Mas permanecem na estante enquanto uma mão corre quase numa carícia por cada lombada, num gesto saudoso e cheio de uma cumplicidade que apenas o recolhimento dos olhos e das palavras pode encontrar.

As carteiras

“Disseram que a gente precisa ir lá no bloco e pegar a nossa até sábado.”

“Hmm?”

“Você sabe... A carteirinha de identificação.”

“Identificação de quem?”

“Você nunca escuta nada, não é? Quando eles botarem as catracas pra funcionar...”

“Aquelas juntando poeira na entrada?”

“Exatamente. Quando elas tiverem funcionando, a gente vai precisar das carteirinhas pra entrar.”

“E quando isso vai ser?”

“Quem sabe? Você sabe que as coisas nunca são como devem ser nesse lugar...”

“Aham. Então... Essas carteirinhas...”

“Hm?”

“Elas vão estar nos identificando como ‘Os que quase acreditam que isso tem utilidade’ ou coisa do tipo...?”

O voto

Eles dizem que você tem o direito de escolher, mas na verdade as opções já estão escolhidas. Eles dizem que você tem o direito de decidir, mas na verdade, você é subjugado pelo desejo da maioria. Eles dizem que você tem o direito de saber o que eles pretendem fazer se nós os escolhermos, mas na verdade você é obrigado a ouvi-los falando meias-verdades e promessas furadas por uma hora e quarenta minutos diários enquanto se pergunta onde foi parar o seu direito de escolher não ouvir.

Eles dizem que são o melhor e que vão trazer o melhor para a vida de todos, mas todos sabem que eles vão guardar o melhor para eles. Eles dizem que os outros são o errado e que eles são o certo, mas nós devíamos saber que é errado sermos tratados como animais arrebanhados a cada quatro anos. Eles dizem que tudo vai melhorar. Nós devíamos saber que com eles não vai.

Eles dizem para a gente acreditar. Tem gente que acredita, porque não tem muito mais em que acreditar, afinal. Eles dizem que mudaram para melhor. Mais de nós deviam simplesmente ir pela cartilha de que as pessoas não mudam. Eles dizem que querem tirar os corruptos do poder e ficar com o poder para eles para fazer as coisas melhores para nós. Nós devíamos ter aprendido, a essa altura, que o poder corrompe e que nenhum deles se importa conosco.

Eles dizem que nós devíamos ter consciência política. Dizem que o voto é importante. Dizem que se ausentar, se negar a fazer uma escolha, é atrasar o progresso do estado e do país.

Nós devíamos ter consciência de que, se formos pelo que eles dizem, nosso voto é só uma coisa inútil. Devíamos saber separar o joio do trigo – se é que há um trigo. Devíamos saber que quase todos eles são iguais e que os poucos que não são, são exatamente isso: poucos. Nós devíamos saber que estamos pouco a pouco nos tornando uma multidão de coisas inúteis, a cada vez que fazemos uma nova (ou repetida) escolha errada.

E, com as coisas inúteis, todos nós sabemos que ninguém se importa.


Comentários finais: Coisas inúteis é uma referência ao livro de histórias curtas genial do Neil Gaiman, Coisas Frágeis, que eu estou a três contos de terminar. O título veio no meio de uma conversa com a Cecil sobre as carteirinhas de identificação que a Ufal preparou para os alunos para serem usadas num sistema que – quem sabe – pode até estar funcionando antes da maioria de nós se formar e que é, em linhas gerais, bastante inútil. A primeira parte surgiu do nada quando eu estava contemplando minha estante e me lembrando de uma resenha maravilhosa que eu li no blog da Lulu, o Coruja em Teto de Zinco Quente. Tenho que procurar esse livro depois, Sobre a história da leitura. A terceira e última parte é só um desabafo diante do momento atual e, eu espero, não passa de uma sucessão de observações baseadas em fatos. As três partes não têm nenhuma relação entre si, além do fato de discorrerem sobre algumas coisas inúteis. Eu comecei a escrever tudo isso sem pensar, mas fui ganhando algum ritmo pelo final. Espero que vocês gostem, ou ao menos reflitam a respeito. Não é como se custasse muito além de uma pequena fração do seu tempo.

(Originalmente postado no Vegetando em 16/9/2010)

Um comentário:

  1. Sobre a introdução: é melhor canalizarmos nosso ódio em coisas inúteis para não acumularmos rancor;

    sobre a estante: acho que todos ali são úteis. xD os que nela habitam podem entreter nos num outro momento e a estante pode abrigar outros moderadores que não eles. ^^;

    Sobre as carteirinhas: tô com a minha há dois anos, (re)entrou reitora, ela tá saindo e até agora, NADA!;

    Sobre o voto: INÚTIL!

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