quinta-feira, 20 de outubro de 2011

The Man with the Hat



Pegar o trem pela manhã era sempre uma batalha contra o sono. Quando se acrescentava uma madrugada na frente do computador, a situação ficava absolutamente insuportável. Mas ela sempre odiara dormir em trens ou quaisquer outros meios de transporte público e, naquela manhã, a regra continuava valendo ao menos para a sua força de vontade.

Isso não impedia, claro, que seu corpo reagisse de forma oposta e foi num dos inúmeros momentos em que seus olhos se abriam depois de a cabeça pender para a frente ao sabor do cansaço que ela o viu.

Ele estava no outro vagão, o que ficava em frente ao seu, a duas portas de vidro e seu próprio reflexo de distância. De pé, apesar de todos os lugares vagos a sua volta, ele se apoiava numa cadeira e lia o jornal com o ar de quem o fazia todos os dias e, ainda assim, não deixava de pôr interesse no ato.

Mas havia algo... Estranho.
‘What Day of the month is it?’ (p.88)

Piscando com confusão, ela ainda se perguntou por um momento de onde viera aquele pensamento. Era um cara lendo o jornal. O que havia de estranho? O que poderia chamar a atenção?

Mas, desobedientes, seus olhos permaneceram naquele ponto mesmo quando o movimento do trem o fez, por alguns segundos, sumir de seu campo de visão. Ela esperou até que ambos os vagões estivessem de novo alinhados e, então, sem qualquer razão aparente, eu repito, procurou de novo enxergá-lo por trás dos reflexos, da luz e o próprio no vidro, e das pessoas ao redor. E buscou apreender cada detalhe possível de sua pessoa.
“Twinkle, twinkle, little bat!
How I Wonder what you’re at!” (p. 91)
Lá estava ele. Um casaco preto longo cobria seu corpo e ele usava luvas de couro da mesma cor em ambas as mãos, era possível vê-las contra o papel do jornal. Ao redor do pescoço, se enrolava com elegância um cachecol vermelho. Barba curta no rosto e cabelos cacheados – castanhos, escuros, talvez? – caindo quase à altura da nuca aqui e ali. Mas do rosto, nada mais.

Porque ele usava um chapéu.
‘The Dormouse is asleep again.’ (p.90)

Não havia nada de especial sobre essa peça – também em preto -, que não a maneira como ele a usava. As abas haviam sido posicionadas de uma tal maneira cuidadosamente desleixada que conseguiam curiosamente esconder boa parte de seu rosto.

Ou, mais especificamente, seus olhos.

Era estranho como ter os olhos ocultos podia encobrir tão bem as intenções de uma pessoa, ela pensou contendo um bocejo tão teimosamente que sentiu os próprios olhos lacrimejarem, ainda fixos na figura do vagão seguinte. E se perguntou enquanto o trem balançava, se haveria alguma razão por trás daquilo.
‘Have you guessed the riddle yet?’ (p. 90)

Talvez você só não queira deixar ninguém entrar, passou por sua mente sonolenta de uma forma que ficou entre desafio ou insolência teimosa, e ela piscou as lágrimas para longe dos olhos quando, outra vez, o vagão se moveu para a esquerda, movendo o homem do chapéu com ele devagar...

E naquele pequeno segundo antes de ele desaparecer de novo, ela pôde jurar vê-lo desviar a atenção do jornal para mirar algo diretamente a frente...

E sorrir.
‘Who’s making personal remarks now?’ (p.94)

Sem perceber, seus olhos se abriram de forma larga para as portas de vidro, e um fôlego surpreso foi puxado para dentro, um ruído abafado no som do trem se movendo mais lentamente, pouco a pouco. Um aviso eletrônico informou que ele se aproximava da estação, mas ela estava ocupada demais esperando ele reaparecer.

E então, após outro momento infinito, lá estava ele, dobrando o jornal calmamente e o guardando no longo casaco. Com o sorriso nunca parecendo deixar os lábios, uma mão enluvada ajeitou o chapéu, e ele a mirou outra vez, e levou um dedo aos lábios.

E então, virou-se para a porta e, com poucos passos, apesar de o trem ainda estar nos últimos resquícios de movimento antes de parar e as pessoas, se erguendo, sumiu de sua vista.
‘Have you guessed the riddle yet?’

Ao redor, todos se levantavam e esperavam as portas se abrirem para desembarcar. Ela ofegou e agarrou a bolsa e as luvas, se erguendo e também seguindo para a porta mais próxima, a mente tentando processar o que acontecera. Ainda se passou mais um minuto inteiro antes que as portas finalmente se abrissem e ela pisasse na estação para poder olhar em volta, respiração visível como um vapor naquela manhã de inverno.
‘Have you guessed the riddle yet?’

Dezenas de pessoas caminhavam apressadas para a saída, nenhuma delas usando um chapéu preto de abas. Uma mãe tentava acalmar um bebê que chorava e um senhor seguia lentamente com sua bengala, sendo ultrapassado por adolescentes aos risos.

Mas nem sinal do homem do chapéu.

Talvez ele só tenha sumido no meio das pessoas, pensou enquanto se forçava a caminhar alguns passos. Talvez tudo tenha sido um truque da mente exausta. Talvez ela devesse ter dormido mais na noite anterior. Talvez nada daquilo acontecera.

Talvez ela nunca houvesse visto os olhos do estranho sob o chapéu.

Uma risada baixa soou ao pé de seu ouvido, e fez um calafrio subir por seu pescoço, logo antes de a voz sussurrar:

- Talvez não... Ou talvez sim... – seus olhos estavam arregalados e ela sentia o pulso acelerar de tal maneira que era uma surpresa que (dane-se o clichê) seu coração ainda não havia escapado garganta acima. – Nos vemos depois, senhorita... Quem sabe você resolve a charada.

E é claro que, no momento em que ela olhou para trás, não havia ninguém para se ver.

FIM


Essa história foi baseada em acontecimentos reais, ajustados de forma devidamente exagerada para a construção de uma boa peça de ficção, com pequenas adições feitas a torto e a direito por uma autora que não possui a menor pretensão de fazer sentido, principalmente de certos encontros com fantasmas no transporte público londrino. Esse, por exemplo, tocava até violoncelo :D Todas as pequenas citações são do mesmo capítulo do livro Alice's Adventures in Wonderland and Through the Looking-Glass, do senhor Lewis Carroll (Edição de 2001, da Bloomsbury Publishing Plc, London UK), e se encontram nas páginas indicadas. Espero que vocês se divirtam com a história do Homem do Chapéu. E, quem sabe... Eu sempre posso encontrar pessoas interessantes no trem...

(Originalmente postado no Vegetando em 26/1/2011.)

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