sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Para aqueles que tecem sonhos...

“Eu vou te contar uma história. É uma história mais velha que eu mesmo, e o tempo de que eu me lembro já não pode ser medido por qualquer homem na terra, pois é o tempo dos sonhos, que existem enquanto forem sonhados, e, portanto, existem enquanto houver homens, mulheres e crianças no mundo. Por isso, mais velha ainda seria uma história dos sonhos, que existiram desde quando existiu o mundo, e certamente só deixarão de existir quando a existência do mesmo se acabar.

Mas nada disso importa. O que importa é a história.

Dizem que, no raiar do primeiro dos primeiros dias da terra, no instante em que o sol começava a surgir no horizonte, alguém se sentou diante do primeiro dos teares. Essa pessoa, como se sentisse a luz se aproximando, escolheu as linhas mais claras e teceu a alvorada pouco a pouco no céu, iluminando toda a terra. Essa pessoa teceu as águas dos rios menores e maiores e teceu os mares, em todas as suas cores e forças. Teceu também o chão, o verde da relva, e todas as plantas, pequenas ou enormes, que cobrem o mundo. E por fim, teceu todos os animais que viviam em mar, terra ou água, e as pessoas do mundo inteiro, uma por vez.

Isso te soa familiar? Lhe parece que já ouviu essa história antes? Não se preocupe. Eu sei que sim.

Esse primeiro Tecelão ou Tecelã teceu tudo que havia no mundo dos homens. Mas não apenas isso. Certo dia, ele dormiu, e teve um sonho. Ele sonhou com coisas que nunca vira, coisas incríveis, fantásticas. E, ao acordar, desejou de alguma maneira agarrar as imagens que testemunhara, e registrar sua visão maravilhosa.
Ele teceu então as criaturas, pessoas e lugares que pertenciam antes ao mundo dos sonhos, e teceu como ele lembrava-se deles, e os achou tão belos que decidiu mostrar o que tecera aos outros ao seu redor.

O que você acha que aconteceu então, quando as pessoas viram aqueles tecidos de sonhos, todas as coisas maravilhosas e inacreditáveis nascidas da mente do Tecelão?

Dentre elas, algumas, pouco a pouco, criaram seus próprios teares. E também teceram, e mostraram para outros mais. Teares e teares tecendo sonhos... Cada um, uma mente, e, ao mesmo tempo, permitindo que todas as mentes sonhassem os mesmo sonhos. Até que crescesse o sonho na imaginação de milhões e milhões... Um sonho em que linhas se entrelaçavam, entremeavam, sem permitir quaisquer pontas soltas.

E tudo regido por cada um dos Tecelões de Sonhos que continuam a criar mais e mais partes do maior sonho de todos para que o mundo possa sonhar sempre.”

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Texto originalmente publicado no blog Vegetando em 25/7/2011 como uma homenagem ao dia dos escritores. Adaptado de um trecho de um romance sobre histórias e sonhos que um dia quem sabe virá a público (a participação no prêmio Lego foi adiada\cancelada até segunda ordem), e inspirado pelo conto A Moça Tecelã, de Marina Colasanti (entre outras inúmeras histórias).
Esse é para marcar o início da Melodia do Martelo de Tinta.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Pô... tudo a ver com o dia do escritor esse texto, porém, acho que ele não se limita somente aos escritores que brindam nos com suas obras, o texto vale também para outras formas de entretenimento, tais como cinema, teatro, mangá, RpG. xD

    Ps.: você leu a mente de quantas pessoas ao postar a seguinte frase "Isso te soa familiar? Lhe parece que já ouviu essa história antes? Não se preocupe. Eu sei que sim." ?

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  3. Perfeito... Realmente a palavra texto não podia ter uma simbologia diferente dessa, desse verbo tecer, dessa arte de ir colocando devagar palavra por palavra até criar algo que tenha vida, sentimento, que desperte sensações.
    Amei seu texto. Meus parabéns, minha amiga.
    bjs
    Sadie

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  4. Desculpa a demora para responder XP
    Agradeço muito o comentário que você deixou no meu blog! Fico feliz que tenha gostado!

    Sobre esse conto, eu já tinha lido no Vegetando há um tempo, mas ainda assim foi um prazer de relê-lo. A ideia de sonhos sendo feitos dessa maneira artesanal sempre me encantou. Além disso, esse conto da Marina Colasanti fez parte da minha infância e é interessante vê-lo abordado dessa forma.

    Meus parabéns :D

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