quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Young Blood



- Então, qual é a diferença entre um lago e uma lagoa?

- Uma lagoa é um corpo de água com pouco fluxo, mas geralmente sem água estagnada, podendo ser natural ou artificial. – informou a garota com os olhos na tela do pequeno computador portátil. – Geralmente, ela é menor que um lago, que é uma depressão natural na superfície da terra, contendo permanentemente uma quantidade variável de água, proveniente da chuva, de uma nascente local ou curso de água.

- Ahh... Entendi.

- Porém, - continuou a garota, ajeitando os óculos escuros no rosto. – apesar de as pessoas chamarem isso de lagoa, na verdade é uma laguna.

- Laguna? Qual é a diferença entre as duas?

- Uma laguna é uma depressão formada por água salobra ou salgada, localizada numa borda litorânea e se comunicando com o mar através de um canal. – ela olhou em volta enquanto arrumava o cabelo cacheado atrás de uma orelha sem muito êxito. – Seria um quase-lago.

- Hmm, entendi. – uma pausa pensativa. – Acho que é um bom lugar pra essas coisas acontecerem, de qualquer forma.

- Água sempre vem associada com afogamento. – observou a garota alcançando um leque de papel e se abanando ainda olhando para a tela do computador. – E a vegetação local cresceu um bocado por aqui, eu suponho que ajuda a esconder quando isso acontece...

- Uhum. Lugar perfeito pra se livrar de coisas desnecessárias. Ou pessoas. Na verdade, isso aqui é meio perigoso, não é?

- Taxas de criminalidade são bem altas nessa região, eu devo admitir.

- Hã... E você está sentada aqui, sozinha. Com um computador.

Aquilo fez a garota fazer uma pausa e desviar os olhos do computador.

- De fato. – ela admitiu. – Eu seria uma boa vítima, hm?

- Err... Talvez fosse uma boa ideia adiantar as coisas então?

- Hmm... Suponho que sim, não é? – a garota coçou a cabeça com o leque improvisado. – Mas vai ser difícil tirar isso daqui sem chamar muita atenção...

- ‘Isso’?

- Você mesmo acabou de comparar com ‘coisas desnecessárias’.

- Foi uma metáfora... E eu suponho que tenho um pouco mais de direito a isso que você, considerando-se as circunstâncias...

- Ah, qual é... Você vai ser um dos clientes ‘sensíveis’ agora? Nós já não tínhamos nos entendido na relação comercial no caminho pra cá?

- Me desculpe, eu acho que é uma questão sensível, não importa como você olhe pra isso...

- Sabe, é por isso que eu não gosto de trabalhar com universitários, eles fazem um drama sobre tudo...

- Nem todos os universitários são assim. E pelo que eu sei você é uma universitária também, não é?

- Eu só estou tentando ser prática aqui...

- Ei! – a terceira voz na conversa fez a garota parar e olhar por cima do ombro. – O que você tá fazendo aí embaixo falando sozinha, se não se importa que eu pergunte?

A garota ergueu um pouco as sobrancelhas e depois, levantou os óculos escuros. Um pouco acima do declive que levava à beira da lagoa (laguna, na verdade) estava um rapaz com seus vinte e poucos anos a mirando com curiosidade e certa desconfiança. Ele tinha cabelos compridos num rabo-de-cavalo e carregava uma mochila apenas num dos ombros que parecia bastante carregada.

Um sorriso entortou seus lábios.

- Você é um universitário por acaso? – ela perguntou em um tom simpático, uma ideia se formando na mente.

Aquilo pegou o rapaz desprevenido.

- Uh... Sou, sim. Por quê? – ele respondeu.

O sorriso da garota se alargou e ela se levantou. Não era lá muito alta e tinha os cabelos curtos e muito cacheados em um tom combinando com a pele negra. Ela fechou o computador e olhou-o nos olhos.

- Qual a sua opinião sobre crenças e religiões alternativas que envolvem fantasmas, se não se importa que eu pergunte?

Ele estava começando a achar aquilo muito estranho.

- Eu... Acho... Ok? – ele experimentou cada vez mais confuso.

- Ótimo! – aprovou a garota, guardando o computador na mochila. – Então, que tal ganhar uma carona para casa sob a condição de me ajudar com um serviço e dividir o pagamento?

- Hã? Como assim, serviço? – ele estava olhando para ela com muita estranheza agora. – Que tipo de serviço...?

A garota riu e pendurou os óculos escuros na gola da camiseta, chamando-o com a mão.

- Só levar uma cliente até o local que ela deseja ir. – explicou. – Venha cá que eu te explico, nós vamos receber uns cem cada, não é uma boa?

Cem. Era um número bastante interessante, especialmente para uma carona, ele não podia negar, e se viu descendo até onde ela estava apesar da desconfiança e perguntando:

- Quem é a cliente? E pra onde ela quer ir?

A garota sorriu um riso cheio de dentes brancos e pisou na vegetação alta com um pé calçado em botas de cano alto o bastante pra incomodar no calor, mas muito adequadas para uma caminhada longa.

- Essa aqui. E ela gostaria de ser levada até a casa do ex-namorado, se possível, ainda hoje... Você quer me dar uma mão?

Atrás do mato alto e flutuando na água da lagoa (ou laguna) estava uma jovem de cabelos compridos e loiros. A cabeça dela estava voltada para o alto e os olhos fechados, e seu corpo estava inchado e coberto de marcas de espancamento.

E, o detalhe mais importante, ela estava morta.

- Mas que...! – um palavrão engasgou na garganta e ele olhou para a garota negra, pálido e aterrorizado. – O que você tá fazendo?

Ela sorriu e cruzou os braços.

- Estou trabalhando, colega, e te convidando pra fazer uma sociedade. – acenou com a cabeça para a esquerda. – A cliente já aprovou então, se você quiser ganhar um dinheiro fácil... É só dizer sim.

Ele olhou para onde ela apontava e sentiu o sangue gelar ainda mais. Porque, sorrindo para ele logo ao lado do corpo, estava a mesma garota loira em um estado visivelmente mais conservado e, ainda assim, com uma aparência claramente não-natural.

- Olá! – o fantasma cumprimentou com animação. – Você vai me ajudar também? Eu juro que pago direitinho.

Às vezes, foi o que ele pensou quando se viu ajudando a garota chamada Korto a colocar o corpo num saco preto que depois iria para uma bolsa com zíper (e ele não sabia onde ela havia arranjado espaço para tudo aquilo na mochila) antes de ser levado ao carro, um universitário faz trabalhos muito estranhos pra ganhar um dinheiro extra.

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Okay, esse conto surgiu de um desafio enviado por email por um amigo e de um fim de semana lendo o manga Kurosagi Corpse Delivery Service (ou Delivery Service of Corpses no Brasil, se eu não me engano). Eu não consigo encontrar nada além do volume 6 na net, estou frustrada e com vontade de aloprar um pouco :P Victor, acho que você não estava esperando que isso saísse da música que você me mandou, mas... Bom, eu também não estava esperando, simplesmente aconteceu xD Qualquer coisa, eu posso tentar escrever outro texto. Ou talvez eu transforme isso aqui numa série, quem sabe. Eu gostei da falta de noção desse textinho, espero que alguém mais goste, apesar dos cadáveres, fantasmas e ausência do senso comum. Minha desculpa é que são quase uma da manhã e eu não funciono muito bem nesses horários. Críticas, sugestões, elogios ou esculhambações, comentem, ok? See ya.
(Originalmente postado no Vegetando em 18/4/2011).

2 comentários:

  1. Acho que é uma boa transformar numa série caso os contos venham a ser publicados periodicamente.

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  2. eu achei que tava maceió até a hora q li o nome korto. :P

    gostei muito do texto e dessa moça morena. teve uma hora que a parada embaralhou minha mente, mas quando eu reli, fez sentido ^^

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