sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Múrmurios e Canções



Do diário de viagens de Megan Iolair, historiadora da Biblioteca de Rosetta.
Aridez Sombria de Al-Gober, 17 de Beltane.

Grande parte do território da nação de Al-Gober é coberta por um deserto de areias cinzentas e negras, conhecido pelo nome de Aridez Sombria. Um indivíduo que se encontre neste lugar pode olhar para todas as direções e enxergar apenas dunas e dunas de areias negras sob um céu quase sempre tão escuro quanto elas. É como encarar a pintura de um mar sombrio, com ondas congeladas pelo tempo, exceto pelos momentos em que a estranha brisa as faz ondular quase imperceptivelmente. E então, em uma questão de segundos, tudo pode estar completamente diferente....

Os olhos de Megan se estreitaram de leve para o deserto. Lugares como aquele eram sempre traiçoeiros para os viajantes – um indivíduo poderia se perder, sair do rumo, e encontrar coisas que eram no mínimo incômodas sob as areias sombrias – mas o deserto das dunas negras tinha algo a mais sob suas ondas escuras.

Alguma coisa cantava nas sombras e cinzas dos pés que haviam pisado naquelas dunas centenas de anos antes. Era uma música estranha e abafada, mas que falava de um tema apenas.

Uma canção de medo.

- Megan?

Os ombros da jovem cigana se retraíram inevitavelmente – não importava que o nome e a voz lhe fossem familiares àquela altura, pertencentes a alguém em quem ela confiava sua própria vida em batalha – aquele lugar interferia nas reações das pessoas. Ela mirou o vulto que se aproximava, um soldado jovem de porte considerável que ainda assim caminhava com uma parcela de silêncio através do acampamento adormecido. Megan lhe fez um aceno com a cabeça, a longa trança de cabelos loiros escorregando para fora da capa com que se cobria, e ele se acomodou ao seu lado, olhos como os de um falcão conferindo o perímetro mesmo quando murmurou:

- Não creio que seja seu turno de guarda, senhorita cronista.

Os lábios dela se repuxaram de leve ao ouvir aquilo. Títulos, todos os homens precisavam de títulos. Aquele era recente ainda, e de certa forma, não muito diferente do que ela fazia antes de recebê-lo: ouvir histórias, viver histórias, contar histórias. Mas se queriam um título, ela usaria um título; se queriam histórias, lhes daria histórias. Estava ganhando algo em troca, afinal, e aquilo era o que interessava.

- Não tenho sono. – respondeu ao cavaleiro, a voz suave como a brisa não parecia capaz de ser, por mais que o tentasse. – Algumas noites, penso que essa terra o roubou de mim.

As palavras soaram sombrias em seus próprios ouvidos, e ela se ajeitou no local em que estava sentada, puxando a capa para mais perto. O cavaleiro lhe concedeu um breve olhar, sem desviar a atenção de sua tarefa.

- É um lugar um tanto inquietante, eu admito. – ele falou. – Mas precisamos de todo descanso que pudermos conseguir antes de alcançar nosso destino. Não sabemos o que podemos encontrar naquele lugar.

‘Aquele lugar’. O lugar misterioso marcado num mapa roubado e que era seu destino agora, talvez o final da missão que os levara àquela terra em primeiro lugar. Eles chegariam lá talvez na manhã ou noite seguinte, se seu guia não errasse o caminho. O lugar que não parecia existir fora das histórias.

As Torres do Mar Primordial.

- Eu compreendo, major. – murmurou Megan, permitindo-se apoiar o queixo sobre os joelhos cobertos, num hábito de infância de que nunca conseguira se livrar por completo. – Não deixa de ser uma tarefa difícil, ainda assim, conseguir descanso numa terra como essa...

- Se você pode parar por um momento, faz bem em buscar repouso e prontidão para a próxima batalha. – o cavaleiro recitou o dito militar com precisão formal, porque era o que era esperado dele, mas voltou a desviar a atenção da vigília por um instante para encará-la. – O que tem essa terra, Megan?

Por alguns segundos, a jovem cigana guardou seu silêncio e deixou o olhar se perder na areia que se espalhava diante de seus pés, em todas as direções. Areia negra, negra, como sombras e cinzas, em todo lugar. Seus olhos se permitiram fechar, confiando nos olhos atentos do companheiro, e ela inspirou profundamente o ar do deserto, antes de murmurar lentamente as palavras:

- Essa terra... – e, se havia uma mágoa amarga, um desgosto incontrolável na voz controlada, nenhum deles iria admitir ou lembrar quando viesse a manhã. – Como qualquer outra terra... Canta... Tão baixo que poucos ouvidos se dão ao trabalho de ouvi-la... Ainda assim, ela canta sempre, sem nunca parar em momento algum... – seus olhos escuros se abriram de novo, e, se estavam ainda mais escuros naquela noite, ninguém seria capaz de dizer. – Uma canção apenas... Uma mesma canção...

- Qual? – o cavaleiro indagou, porque no diálogo habitual que eles haviam criado, era esse o seu papel.

Megan olhou para o alto, então, para o céu que, sobre aquele lugar, parecia ter estrelas opacas, distantes e pálidas demais para servir de consolo.

- ...Medo. – ela respondeu por fim, e a palavra os cobriu como cobria a todo o deserto, como um cobertor de sombras.

Que noite escura aquela estava sendo.

- Medo. – repetiu o outro, com uma calma que a palavra desmerecia ou espantava, e seu olhar foi atraído por ela. – E você não sentiu isso antes, senhorita cronista? Não ouviu essa canção no caminho que fizemos até aqui?

Os lábios da violinista se estreitaram ligeiramente.

- Existe medo em todo homem, mulher ou criança. Não importa a raça, a cor, o caminho... Todos dividimos esse mesmo terror... – ela tentou sorrir de novo com os cantos dos lábios, mas a expressão empalideceu diante das palavras. – Talvez nós vivamos nossas vidas inteiras tentando escapar da memória desse horror, major.

A expressão do cavaleiro era uma muralha de neutralidade, ainda assim, quando ele a encarou.

- E ainda assim, você não caminhou até aqui conosco? Não lutou como nós lutamos, e gargalhou quando sua vida estava em risco?

As sobrancelhas da cigana se ergueram ligeiramente, sua expressão tomando um surpreso ar de diversão.

- Eu? Tem certeza disso, major?

Ele se ergueu de onde havia sentado, permitindo-se um ligeiro dar de ombros enquanto seus olhos voltavam a correr pelos arredores.

- Eu não sei, senhorita cronista. Não é você que decide como contar as histórias?

Um som que quase pareceu um riso escapou de Megan, e ele se despediu com um aceno, voltando ao ponto de onde mantinha seu turno de guarda. A jovem balançou a cabeça, e encarou o deserto negro ao seu redor mais uma vez, permitindo-se pensar nas palavras ditas e não ditas.

Francamente.

Não era como se ela mesma não compusesse canções ou contasse histórias, era? Todo artista sabe que fazer as coisas muito fáceis é o caminho para a falha.

Megan deu um sorriso que talvez não pudesse ser chamado assim para a aridez sombria, e sussurrou suavemente com raiva, humor, desprezo, conformidade e rebeldia se misturando em cada palavra:

- Os finais são todos iguais mesmo... Ao menos assim, nós nos livramos do tédio, hm?

Ela apanhou de novo a pena e tinta, e o manuscrito interrompido.

... Estudiosos afirmaram que algumas das primeiras civilizações humanas podem ter surgido nesta nação, e o sussurro das areias escuras deste deserto parece ratificar este fato. Existe algo de sombrio como os próprios Áridos na história deste lugar. Esse conto se manifesta na canção dos ventos do deserto, para aqueles que podem ouvi-la.
Caminhando por estas terras numa missão da qual não haverá retorno sem sucesso, quem sabe eu e meus companheiros desvendemos os acordes de Verdade para uma canção muito mais antiga que nós mesmos.

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O texto acima se passa no universo Crônicas do Mar de Prata, criado por Marco Fischer. Dos personagens presentes, apenas a Megan é criação minha, o cavaleiro pertence ao amigo escritor e jogador, Uiberon Araújo. Para maior compreensão do conto, é aconselhável leitura do background da nação Al Gober no Mar de Prata. Fotografia de autoria própria, como todas as outras no blog (excetuando as devidamente creditadas).

2 comentários:

  1. Owwwnn... Que texto foda =D
    Atem likes it.
    Precisa fazer mais textos do RPG, sis. Eles ficam awesome. Mas esse está perfeito. Ótima escrita e boa história. Adorei sua interpretação do Atem. =)

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  2. Uia.... rolou uma parceria fraterna. xD

    é a primeira de muitas?

    seu irmão criará uma personagem baseada em vc? xD

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