sexta-feira, 20 de julho de 2012

A arte no ócio: Especial do Dia do Amigo




- Macarrão -


Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

Yuri jogou os pedaços de queijo branco no molho do macarrão e ouviu risos vindos da sala. Natália estava mostrando algumas fotos da viagem para Levi, Cássia e Marília. Ele podia ouvir a voz da amiga de colégio dali, no tom familiar de quem conta uma história e fascina com as palavras.

Natália sempre havia tido jeito para contar histórias, falando e principalmente escrevendo. E ele, Levi e Cássia, principalmente, haviam passado anos aturando as consequências desse talento – que envolviam ser acordados de madrugada por telefonemas perguntando o que pensavam de sátiros que ouviam blues e aturar um sem número de humores estranhos induzidos por bloqueio criativo e overdose de açúcar.

Yuri riu consigo mesmo ao lembrar do tipo de coisa em que Nat o havia metido. Sua mãe nunca deixara de suspeitar da história de se trancar numa sala de artes da educação infantil para zerar jogos de Final Fantasy, mesmo mais de três anos depois.

Também tinha o fato de que ele ainda não havia encostado no último jogo da série, que fora lançado em abril daquele ano, apesar de já estarem a poucas semanas do Natal. A ideia de zerar todos os jogos de Final Fantasy havia sido de Natália, afinal.

Ele se perguntou se ela ainda se lembrava daquilo. Já haviam se passado três anos, afinal.

- Tá pronto! – avisou Yuri, levando a comida para a mesa, e lançando o aviso familiar: - Acho bom vocês deixarem pra mim!

Ele esperou que Levi ou Cássia gritassem a resposta usual para aquela piada que haviam começado anos antes, na primeira vez em que ele cozinhara alguma coisa para os amigos. Ao invés disso, Natália encontrou seu olhar e deu um sorriso maligno muito familiar antes de anunciar:

- Alguém amarra o cozinheiro!

Yuri gargalhou, e fingiu levar o macarrão de volta para a cozinha.

Três anos não haviam sido absolutamente nada.

- Perda -

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Cássia estava deitada no sofá de casa, olhando pela janela. Estava chovendo. Havia começado pouco depois de ela atender ao telefone, e ainda não parara, mesmo que já fizesse mais ou menos meia hora desde que ela recebera a ligação do tio.

Ele estava tentando encontrar seu pai, naturalmente, mas tanto ele como a mãe de Cássia já haviam saído para trabalhar. Então ela fora a primeira da casa a receber a notícia da morte da avó.

Cássia havia tentado ligar para algum dos dois, mas eles não haviam atendido ao telefone – provavelmente, por conta de reuniões. Então ela teria que esperar mais um pouco. Em casa, sozinha. E estava chovendo.

Eu pensava que isso era um recurso narrativo super utilizado, pensou Cássia, observando a chuva. A coisa de chover em funerais.

Um soluço veio de seu peito, e ela cobriu a cabeça com uma almofada.

Foi então que a porta do apartamento se abriu.

- Cássia?

Cássia olhou para a porta um segundo antes de o grupo entrar e caminhar até ela. Ela nunca se dava ao trabalho de trancar a porta de casa quando estava esperando pelos amigos, porque não ouvia a campainha tocar mesmo. Natália sentou de um lado e Levi do outro, ambos a abraçando e falando em voz baixa enquanto Yuri e Marília se acomodavam na frente do sofá.

E mesmo que por um segundo, Cássia sentiu alívio.

Ela não estava sozinha. E dor que se divide com os amigos é uma dor dividida ao meio.


- Música -

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

Levi se despediu de Alice e voltou pelo caminho por entre alguns coqueiros para a parte da praia em que havia deixado os amigos. Era o aniversário de Marcelo e, por algum motivo, eles haviam acabado na praia durante a noite, com seu violão (e possivelmente algumas garrafas de bebida alcóolica). Como já era madrugada, a maior parte dos convidados já estava indo embora, como Alice.

Ele, Yuri, Natália, Cássia e Marília, porém, tinham obrigações como a praga particular do mestre de RPG dos tempos de colégio.

- Nesta noite o amor chegou... Chegou para ficar! E tudo está em harmonia e paz... Romance está no ar!

Uma careta formou-se no rosto de Levi ao ouvir o coro acompanhado por notas extremamente desafinadas de violão que o receberam ao retornar ao ponto em que deixara os amigos. Aparentemente, Yuri havia conspirado outra vez para tirar onda da sua cara, as gargalhadas do grupo provando que fora vitorioso. Ele caminhou até o amigo e tomou o instrumento que deixara com ele de suas mãos.

- Você é péssimo. – declarou sem piedade.

- E você vai deixar de ser nosso músico particular por um rabo de saia qualquer dia desses. – retrucou Yuri, sem um pingo de vergonha.

- Um ‘rabo de saia’? – repetiu Levi. – Sério, Yuri?

- Eu mantenho minha afirmação!

- Você tem problemas sérios.

- Você vai mesmo, hein, Levi? – perguntou Marília, chutando areia na sua direção. – Vai parar de tocar nas nossas festas instantâneas por causa de mulher?

Levi sorriu torto, e respondeu puxando uma música:

- Hakuna Matata! É lindo dizer!

Em segundos, o grupo inteiro estava cantando – ou gritando em alguns casos:

- Os seus problemas, você deve esquecer... Isso é viver! É aprender! Hakuna Matata!

- Carta -

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

Natália mordeu a tampa da caneta e parou um segundo depois, repreendendo a si mesma pelo mau hábito. Ela estava quase no fim do texto do cartão que ia enviar para os amigos mais próximos naquele 20 de julho. Só precisava de mais alguma coisa, algo que expressasse tudo que sentia com relação a eles.

Por um momento, ela pensou nos amigos. Em Yuri, que conhecia desde criança e frequentemente atormentava com suas ideias e esquemas estranhos, nos quais ele a acompanhava lealmente e porque, mesmo que negasse, também estava se divertindo. Em Cássia, que passava mais tempo desenhando ou dormindo que qualquer outra coisa, mas que sempre estava pronta para receber a todos a qualquer hora. Em Levi, que sofria as brincadeiras de todo mundo sabendo bem o que eles estavam dizendo por baixo das palavras – tanto que continuava com eles até hoje. Em Marília, em Marcelo, Alice e Sammi, e tantos outros...

Natália sorriu, e escreveu: O que me importa é que tive amigos, e os tendo tido uma vez, os terei sempre. Pois ficará comigo a memória de seus sorrisos e lágrimas, de seu canto e riso, de seu carinho e palavras. E se me for permitida mais uma bênção além de manter tudo que eles me presentearam, a memória do meu amor por eles também ficará com todos, hoje e sempre, e isso será mais que o bastante para manter viva nossa amizade.

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Texto especial do Dia do Amigo, para todas as pessoas que riem e choram comigo, que já muito riram de mim, e que estão sempre por perto quando eu preciso - mesmo que não literalmente. Os trechos são parte do Soneto do Amigo, de Vinícius de Moraes. Os personagens utilizados são parte de uma série que futuramente será apresentada aos que a desconhecem, chamada A arte no ócio. Espero que todos tenham gostado e feliz dia do amigo!

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Você sabe que é raridade comentar seus posts (apesar da pentelhice), mas esse texto tornou o meu dia muito mais alegre, de verdade.

    Vamos continuar presentes, cantando musica ruim, abraçando quando for necessário... Tamires, Yuri, Natália (...) também, não importa quem sejam. Feliz dia do amigo e parabéns pelo post genial.

    Hakuna Matata =D

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  3. Profundamente emocionante.

    Sabe, vou me permitir falar coisas que geralmente não falo, um pouco de prolixidade não vai matar.

    Quando vejo fotos, recrio os momentos em minha cabeça, quase como se estivesse vivendo aquilo com as pessoas que estão visíveis. Não sei se é empatia ou algo do gênero, mas ler isso foi uma sensação muito profunda, tal qual a das fotos. Uma "catarse" bastante esquisita...

    Está muito bem escrito, muito sincero, e se meu julgamento estiver proselitista é por causa do apelo emocional que me empenou dessa forma.
    (:

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  4. São obras como essa que mostram que para um escritor mesmo a vida cotidiana é algo especial ^^ Utilizar a alquimia das palavras para transformar memórias em uma homenagem aos momentos passados com os amigos e então em histórias como essa são o que tornam escrever mais do que uma simples atividade. Uma das melhores coisas de escrever é isso, transmutar a própria vida em uma fonte infinita de histórias, ainda que estas sejam refinadas pela imaginação.

    Textos muito bonitos e comoventes, espero que venham muito mais lembranças como essas em sua vida =D E feliz dia do amigo também (ainda que atrasado xD)

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