sábado, 27 de outubro de 2012

Desejo e Arbítrio (O Jogo - Primeira Rodada)




Foi uma jovem de olhos perdidos quem me pediu, certa noite, uma história sobre reencontro. Mesmo hoje não sei quem ela desejava tão ardentemente rever – ou talvez encontrar pela primeira vez – sob a quietude de seus gestos. Mas foi essa a história que lhe contei.

Havia um rapaz e uma moça numa naquela vila num vale entre montanhas que tocavam o céu, e todos diziam que eles se amavam. Talvez fosse verdade, ou talvez fosse apenas a repetição constante o que convenceu o rapaz a declarar à jovem que por ela tinha sentimentos maiores do que poderia sonhar em descrever, mas o que importa é que, um dia, ele o fez.

“Você diz me amar,” a moça lhe respondeu. “Mas o que é esse amor?”

Confuso, o rapaz atropelou-se nas palavras, e a jovem sorriu. “Quando souber me dizer,” ela propôs. “Eu lhe darei uma resposta, então. Vamos primeiro viver antes de nos encontrar de novo.”

Ele concordou, e os dois viveram. O rapaz partiu em viagem para conhecer mais sobre o mundo e tentar entender aos outros e a si mesmo, e a moça, sem sair da vila, também buscou entender, através de histórias, de pessoas, de canções. De tudo aquilo que podia alcançar e conhecer.

Veio o dia em que o rapaz retornaria, por fim, e ele caminhou confiante de volta à vila em que nascera, certo de que entendia o sentimento que possuía agora, o sentimento que o levava a sorrir com o sorriso da moça.

Ele foi até sua casa, bateu em sua porta, ansiou por dizer seu nome e falar sobre todas as coisas que havia visto, e por saber também o que ela vira naquele meio tempo.

Encontrou a moça na cama, entre as cobertas como um anjo adormecido. Mas não haveria despertar ou riso para aquele anjo em particular. A jovem estava morta.

“A doença a levou.” Disseram os parentes com tristeza. “Sua alma subiu a montanha para as nuvens, para o céu e para as mãos dos deuses. Não há mais volta para ela.”

Mas não poderia ser. Não poderia ser assim, porque era o dia. O dia do reencontro, o momento pelo qual ambos haviam esperado por todo aquele tempo...

Aquele não podia ser o final. Aquela história não poderia ter terminado, ter sido interrompida tão rudemente.

Ainda era noite quando ele deixou a vila com o corpo da moça nos braços. Ninguém o viu seguir a trilha, subir a montanha na direção do céu.

Se a alma da moça estava com os deuses, ele só precisava pedir que a devolvessem. Somente, e os dois ficariam juntos, e trocariam suas histórias e sorrisos como haviam prometido.

Ele só precisava pedir a alma de volta, e tudo ficaria bem.

O rapaz caminhou e escalou por duas noites e um dia, sofrendo com o frio, fome e sede que pareciam intermináveis, mas nunca parando e nunca largando o preso pálido que trazia nos braços. Foi somente no amanhecer do segundo dia que ele alcançou o topo, o estranho precipício no meio das nuvens.

O jovem cambaleou pelo caminho até cair sobre os joelhos no fim da linha, à beira de um abismo sem fundo. O peso do corpo da moça já não o incomodava, assim como há muito não o incomodava dor, fome e sede. Seu corpo estava dormente com o frio e a exaustão. O único som em seus ouvidos era o uivo interminável do vento, como o uivo de uma coisa viva e enorme, furiosa e incontrolável...

Ele ergueu a cabeça para o alto, para o céu que era a única coisa ao seu redor. E seus olhos, que já mal podiam distinguir qualquer coisa, enxergaram naquele momento, uma forma surgir entre as nuvens. Uma criatura imensa e terrível, quase tão grande quanto o próprio mundo. Ela era apenas luz e forma, e braços e asas, mais do que se poderia contar ou entender. Ela era vento e fúria numa dança maravilhosa e aterrorizante, e uma gigantesca face de olhos cegos que, ainda assim, pareciam considera-lo e perguntar no silêncio...

Qual é o seu desejo?

Ele o falou.

Não há, entre os que contam a história, um consenso sobre o que houve depois. Só se sabe que o desejo foi concedido.

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Palavra: 'quando' (sorteada do comentário de Carol - 23 out 2012)
Tempo: 30 min (em 26 out 2012)

E o primeiro conto sorteado! Como podem ver, a palavra sorteada foi algo bem estranho... Eu me limitei mais ou menos a substantivos e verbos na hora de sortear as palavras, mas coloquei uma ou outra coisa estranha só pra subir o nível de desafio caso saíssem... Não esperava que alguma delas fosse realmente ser sorteada. O texto foi ligeiramente inspirado numa imagem que eu achei na internet aleatoriamente no dia que escrevi. E pode ou não ter sido influenciado por uma música também, embora eu mesma ainda não enxergue muito bem a relação. E alguém falou que lembra Shadow of Colossus (embora eu nunca tenha jogado, pra ser sincera).

De qualquer forma, cá está o conto, e eu apreciaria muito ouvir suas opiniões sobre ele, sobre o processo, e o resultado do sorteio! Eu pretendo publicar um texto pronto talvez no meio da semana e estou em dúvida se sorteio só os comentários desse ou do próximo para a próxima palavra, se faço dois sorteios ou se sorteio só uma palavra dos comentários de ambos... Aceito sugestões para resolver o problema. Até breve!

5 comentários:

  1. A "missão" do garoto em levar o corpo para a montanha e lá encontrar um Ser, do tamanho do mundo, é Shadow of Colossus puro. Sem enrolação, ou tramas complexas, só a vontade, o desejo e a esperança.

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  2. Muito legal que você tenha descoberto a magia dos contos curtos. A história não parecia grande coisa no início, mas o fim foi surpreendente, o que deixou ainda mais incrível. E a comparação com Shadow of Colossus foi inevitável.

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  3. Sou noob em Shadow of Colossus, então não me liguei na relação, mas o conto é belo e abre porta pra uma continuação interessante

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  4. Estranho, eu comentei aqui ontem mas não apareceu. Eu gosto muito de contos curtos, me senti particularmente interessada pela brincadeira depois de ler esse último, aliás. E sim, me lembra Shadow of the Colossus.

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  5. Sagrado Servidor devorador de comentários, peço que me poupe desta vez, obrigada. Gostei do conto e esse conceito que os reencontros podem ser relativos. Gostaria de saber o que o rapaz fez todo tempo em que ficou fora e seria interessante pensar que um único passo diferente em sua vida poderia ter mudado tudo isso.

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