sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O pescador e o mar (O Jogo - Primeira Rodada)

(Mais informações sobre O Jogo no final do texto)



Na noite de ontem, junto à fogueira, me pediu um jovem marinheiro que eu contasse uma história. Não um conto qualquer, é claro, mas algo que fosse para os ouvidos como é a aguardente para o corpo que passa frio.
Uma história para aquecer os ouvidos de um marinheiro deve ser uma história do mar, pensei, e contei o seguinte caso.

Havia no mar do norte uma ilha de pedra, sobre a qual se erguia uma única casa, na qual vivia um único homem. Este era um pescador, como fora seu pai, e seu avô antes dele. Nenhum dos três chegara a pôr os pés fora da ilha durante toda sua vida, até onde ele sabia.
Ele acordava ao nascer do sol todos os dias e descia até a praia da pequena ilha, a fim de jogar sua rede ao mar e conseguir seu sustento – os peixes que trocava com os barcos dos mercantes que por ali costumavam passar, pelo que comer, beber ou vestir conforme lhe era necessário.
Durante o dia inteiro o pescador jogava sua rede, parando apenas ao avistar uma embarcação à distância, quando corria para acender seu pequeno farol e sinalizar para que se aproximassem. Mesmo que não aportassem para um bom negócio, ao menos poderiam dividir com ele um copo de bebida e algumas histórias de terras além da ilha.
Se o pescador não poderia ele mesmo navegar para outros lugares, você se pergunta? Mas como ele o faria sem possuir um barco?
Por que ele não tinha um barco, você pergunta?
À noite, o pescador sentava-se junto ao seu farol com uma garrafa de rum a lhe fazer companhia, e observava o mar. Embora houvesse sido criado ao lado dele durante toda a vida, ele não se julgava conhecedor das águas que o cercavam. De dia o mar que conhecia brilhava com o sol que batia na espuma das ondas, mas à noite sua face era outra, de águas cobertas por sombras.
Não, aquele pescador não conhecia o mar. E sem um barco, ele jamais o conheceria. E podendo pescar tão bem da margem, para que lhe serviria um barco?
Certa manhã, ao caminhar para a praia, o pescador ouviu risos por trás de algumas pedras, e se aproximou curioso para investigar, acabando por presenciar algo extraordinário.
Um pequeno grupo de focas saltava da água para a margem e graciosamente retiravam as peles uma a uma, deixando-as sobre as pedras para mergulhar nuas entre as ondas e, em corpos belos de mulher, celebrar o quão bom era nadar despidas no calor. Cada uma delas, em suas peles alvas cheias de curvas bem desenhadas, era de uma beleza com que o pescador jamais sonhara se deparar na vida.
Tão fascinado ficou ele com a imagem que teve uma ideia audaciosa. A passos leves, se aproximou das peles estendidas, decidido a roubá-las para que jamais aquelas visões fossem ser ocultas sob a forma de animais outra vez.
Mal suas mãos tocaram uma das peles, e gritos soaram da água. As focas se lançaram de imediato para a terra, agarrando suas peles e fugindo, todas logo retomando a forma de animais para encará-lo à distância.
Todas, exceto uma.
“Devolve-me a pele, pescador,” pediu a jovem foca, de forma angustiada. “pois não posso viver no mar sem ela!”
Fascinado com sua beleza, respondeu o pescador: “Se não pode viver no mar, por que não viver na terra? Venha comigo e te farei minha esposa!”
A foca o encarou intensamente, e havia uma sombra em seu olhar.
“Me pede o mesmo que pediram seu pai e o pai de seu pai às minhas irmãs mais velhas, pescador,” disse ela. “Eles as fizeram viver em tristeza por amor até o dia em que não mais suportaram e os afogaram durante a noite para pegarem de volta suas peles e retornarem ao mar. Você será como eles, pescador?”
“Suas irmãs mataram meu pai e meu avô?” exclamou o pescador, furioso. “Por que eu deveria então devolver essa pele a você, demônio?”
“Minhas irmãs amaram seu pai e avô, pescador, mas ao manterem-nas prisioneiras, eles tornaram amor em ódio,” retrucou a foca. “Se as amassem de verdade, eles teriam deixado minhas irmãs livres no mar a que pertenciam e que tanto amavam. E você, pescador? Qual será a sua escolha?”
O pescador ficou em silêncio por alguns instantes, então, antes de finalmente estender a pele para ela. A jovem foca estendeu as mãos para aceita-la de volta com o mais belo sorriso, e lhe falou:
“Se olhar para o mar, pescador, saiba que eu estarei lá. Só o que precisa fazer, é me procurar.”
Dizem que, no dia seguinte, ele começou a construir um barco.
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Palavra: 'espuma' (escolhida aleatoriamente do Livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges)
Tempo: 36 min (em 15 out 2012)

Olá a todos, e bem vindos ao Jogo! Aos interessados, essa loucura começou a algumas madrugadas atrás, numa combinação de insônia e tédio. Funciona da seguinte maneira: todos os textos do conjunto/série/jogo serão escritos a partir de uma única palavra. Os primeiros utilizaram palavras escolhidas aleatoriamente de livros variados, mas para os próximos, o sistema será diferente. As palavras sorteadas virão dos comentários de cada texto (a seleção será feita com um programa online e um pouco de matemática. Eu acho), então, quanto mais palavras interessantes, maiores as chances de eu produzir coisas interessantes (ou simplesmente dar TILT tentando :p). Quem vai querer jogar?

P.S.: Aceito sugestões para o nome do
Jogo. Também posso aceitar sugestões de livros para sortear mais palavras no futuro, desde que tenha acesso a eles u.u

11 comentários:

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  2. O nome do jogo pode ser monotext, only word ou "o jogo"!!!
    Se os textos forem curtos eu leio!
    Esse eu nem li, mas quando vi o: "Mais informações sobre O Jogo no final do texto" pulei pro fim e li as regras show de bola!
    To aqui de support forever!
    E sempre sugerirei a palavra inhame!

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  3. Tá a ideia da pele ficou meio nojenta na minha imaginação. Mas ficou engraçada, isso eu não posso mentir.
    Um pescador sem barco, pena e risos.
    Espero que vire uma coisa divertida para minhas noites de insônia, pode contar comigo pra isso tô 100% dentro.

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  4. Bacana.

    Sugestões: Cunilíngua, cunete, minete, pindocar, bolagato, à facaia e patolar.

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  5. Maldito GDX! Argh. Fez o comentário pós-moderno que eu ia fazer. Enfim, esse conto me lembrou um conto meu de uma menina que ficava presa em uma ilha também por não ter um barco e por ter esquizofrenia, daí ela via monstros na água mas eles eram só fruto da insegurança dela. Também tinha algo relacionado a um bardo e a um tesouro, não me recordo. Enfim...

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  6. Bonito conto, parece uma fábula de alguma tribo ou nação do ártico. Simples e bem contruído, como um antigo conto de fadas.

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  7. Eu ia falar o que o Bardo disse... Sim, esse conto tem um ar de fábula, de conto-de-fadas. Me lembrou um pouco a história de uma princesa e seus irmãos cisnes e uma túnica de urtigas que ela tinha que jogar sobre eles pra eles voltarem a ser humanos... Enfim =p viajei, mas eu gostei muito desse conto. Me lembrou as coisas que eu lia durante a infância e isso é bom!

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  8. Sempre quando vejo um texto da Inhame, me lembro de uma pobre fan fic esquecida no canto de uma sala de aula... um momento de silêncio for our fallen brothers!
    Anyway, escreves mui biene, inhames! Go for it and never look back!

    Vou cantar uma música: "Era uma vez e a história assim vai começar; e todos vocês nesse mundo encantado vão sonhar; é só escutar com atenção e viajar nas asas da imaginação que legria vai tornar seu coração!"

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    1. Historia emocionante!
      Ate chorei!

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  9. Sobre o jogo: Migalhas de João e Maria e Fio de Ariadne
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