sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Prosa/Poesia: O rio e o espelho


O tempo é como o rio
Onde banhei o cabelo
Da minha amada
Água limpa
Que não volta
Como não volta aquela antiga
madrugada.
Edu Lobo e Capinam

A canoa cortava o rio, acompanhada pelo silêncio morno da noite. Mesmo ao mover o remo contra a água, o canoeiro era cauteloso, evitando a todo custo fazer mais barulho do que era necessário. Sentada um pouco atrás do homem que remava, a mulher segurava o jarro junto a si e olhava para o céu coberto de estrelas para evitar olhar para a água.

Ela havia feito a jornada várias vezes antes, é claro. Mas o rio nunca era o mesmo. Da mesma forma que mudava o rio, mudavam o canoeiro, ela mesma – a carregadora do jarro – e a própria embarcação.

Mas era tão mais fácil notar a água. Fosse a água somente, já seria ela uma imensidão de significados, mas além da água do rio, havia o espelho que ela criava.

O espelho era o maior problema.

Ela assistiu as estrelas compenetrada de seu lugar na canoa, determinada a seguir as regras enquanto no céu houvesse estrelas, nuvens e imensidão. Só não olhe para a água e tudo fica bem.

Só não olhe.

A copa das árvores surgiu tão de repente que a sobressaltou. Seus olhos escorregaram para as margens e para os troncos escuros – as árvores tinham que ser fortes para sobreviver naquele lugar – e ela se deu conta de estavam se aproximando do destino. Só mais alguns minutos agora.

Então, se eram apenas alguns minutos... Talvez não fizesse mal, certo? Seus olhos escorregaram, devagar, quase contra sua vontade, das árvores para a margem e da margem para o rio. Era só um olhar, só um instante...

Só...

Um...

Instante...

Na água, o céu refletido se revelava aos poucos com as folhas das árvores rastejando para longe como coisa viva. No fundo escuro da noite, estrelas piscavam como se num pulso, um ritmo de respiração feito de luz à distância de mais quilômetros do que um homem poderia contar. Uma respiração, e duas estrelas pareciam maiores que antes, ou era impressão sua? Duas respirações, e as estrelas pareciam faróis agora, de tão perto que estavam chegando, crescendo, brilhando contra a copa das árvores... Três respirações.

Ela prendeu o próprio fôlego e assistiu enquanto a enorme criatura descendia da noite, nadando com membros poderosos no ar como se numa dança e encarando algo que parecia distante demais da realidade com enormes olhos brilhantes. Lentamente, sua cabeça se aproximou da copa das árvores e mergulhou por entre as folhas, enormes guelras se abrindo de cada lado e agitando os galhos ao respirar e, nesse segundo, toda a mata se agitou.

Ao que o corpo do animal gigantesco tocou as folhas, centenas de milhares de vagalumes se elevaram para longe das árvores numa agitação estonteante. Só que não eram vagalumes, mas minúsculas criaturas com corpos humanoides sob uma cabeça coberta de pelos negros cobrindo tudo exceto um par de presas que clicavam sem parar, em sincronia com as garras escuras em seus pés, que batiam umas nas outras enquanto voavam batendo as asas brilhantes tão rápido que mal se podia enxergar.

Assim que se viram longe das árvores, as criaturas lançaram-se em algo como uma dança frenética, que se tornava uma batalha selvagem apenas para de novo voltar a ser uma dança, até o ponto em que tudo evoluía para uma confusão brilhante e impossível de se distinguir ao redor da mata cujas folhas se agitavam com seus gritos de guerra e êxtase.

Alguns desinteressados da batalha ou do jogo se afastaram do centro da confusão, descendo para os pés das árvores e para a margem do rio, planando sobre a superfície da água e parecendo examinar a canoa curiosamente enquanto clicavam as presas tão rápido que ela quase podia ouvir...

- Suha.

O chamado veio junto com o encontro suave da canoa com a terra e a mulher ergueu a cabeça com um ofegar abafado. Ao seu redor, tudo era de novo o silêncio, exceto pelo sussurro da água que alcançava seus ouvidos. Muito perto. De pé na margem diante da canoa, o condutor da embarcação lhe oferecia a mão, uma pergunta muda nos olhos. Ela estendeu a própria mão e aceitou sua ajuda para desembarcar.

Eles caminharam juntos por entre as árvores, apenas alguns passos, mas continuando a manter o silêncio que lhes fizera companhia até então. A fonte os aguardava, jorrando continuamente entre duas pedras. Com cuidado e recebendo apenas o mínimo de ajuda de seu companheiro, a mulher se aproximou e ajoelhou, levando a boca do jarro que trazia à fonte de água.

Ela observou e ouviu enquanto a água o enchia aos poucos, batendo no fundo com um som frio e suave como a própria noite. Presenciar aquele pequeno ato era se lembrar de uma vila rio abaixo, em que havia uma casa pequena com fogo aceso e uma criança adormecida os esperando. Carregar a água limpa e fresca era como ter um relance dos anos que viriam, e do quanto a criança ainda cresceria.

Mas, no caminho de um ponto ao outro, ainda haveria o rio, e o espelho, e tempo para alguns instantes de testemunho das coisas que se escondiam no fundo de ambos.

x

E então. Novidade das novidades, eu atrasei o texto. Culpem... Sei lá. O mundo. Eu mesma. Não sei. Esse só saiu na segunda tentativa e mesmo assim com muita luta. Ainda não sei bem se gosto ou não do final. O que vocês acham?

6 comentários:

  1. Muito louco! Veio Borges na minha cabeça: espelho, "seres imaginários", o tempo... são coisas que o lembram. Tá bem escrito, narrado naquele estilo Rafa que eu já tô esperto. Mais tarde leio novamente e se eu encontrar algo que que num gosto, comentarei mandando cê ir se fuder. o/

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  2. Isso tá meio egípcio. A imagem do barco, do rio, do jarro. Tá bem escrito e bastante visual. Me fez ver a cena. Confesso que a parte das criaturas me deu certa agonia... =p só acho que o final poderia ser melhor, ficou meio abrupto ou inconclusivo demais... a não ser que essa seja a intenção.

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  3. Gostei muito do aspecto visual desse conto. Me pareceu meio rápido, mas as imagens que ele criou em minha cabeça foram muito bonitas ^^ Quero ver o que ainda pode sair desse projeto novo =)

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  4. Gostei bastante =D Acabou casando com a minha playlist enquanto eu lia, tive uma impressão muito boa das cenas, com alguns solos de guitarra no meio hauhauauh Keep going, ma'am. (=

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  5. A cena da criatura vindo acompanhada das milhares de outras me deu um aperto de verdade no coração "carai, carai, carai, carai..." axei ia dar merda pra guria do jarro. xD se vc consegue instilar emoção com um texto, então pra mim está ótimo.

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  6. bastante visual e lembrou o labirinto do fauno em certos momentos. gostei do mistério que envolve tudo e de como não existem respostas pra isso.

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