terça-feira, 11 de junho de 2013

Do not resuscitate



Enterrem meu amor, na curva do rio ou na raiz da árvore, não me importa. Cubram-no com uma mortalha velha e ponham pregos em seu caixão, cimentem o túmulo. Meu amor morreu noite passada, não volta mais. Quero para ele um funeral de silêncio, sem luto ou lágrimas.

Não me diga que meu amor ainda respira, eu não posso ouvir. Não me interessa se ele agoniza aos meus pés, fecho os olhos, pronto, não o vejo mais. Meu amor pode chorar, arrepender-se de seus pecados diante dos deuses se assim quiser, e nada disso balança meu coração.

Não me interessa mais o que deseja meu amor, pois meu peito está seguro contra tais abusos. Ao redor de mim se ergue uma muralha de realidade, sobre a qual repousam gárgulas chamadas Razão e Decepção, prontas para atacar as mentiras e as promessas de doce e viciante felicidade que outrora saíram da boca de meu amor.

Não tentem colocá-lo de pé, fazer seu sangue voltar a correr. Não quero respiração boca-a-boca, massagem cardíaca, pílulas ou curativos. Não quero cuidados paliativos nem missa para meu amor.

Para esse sentimento decadente em meu peito quero apenas uma cova funda onde seja enterrado sob ordens de jamais ressuscitar e outra vez fazer minha alma desejar morrer.

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Curtinho, pensando sobre a expressão 'Do not resuscitate' (Não ressuscitar), que é a decisão legal de proibir que alguém preste socorro caso seu coração pare de bater, e inspirado pelos blogs da dona Ludmila Monteiro e dona Rhuana Caldas :p Espero que tenham gostado.

9 comentários:

  1. Me lembrou essa música aqui
    http://www.youtube.com/watch?v=p0HrrR9QDQU
    mas não sei, pode ser a minha vibe.

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  2. Isso foi deprimente... to mal agora... rafa o amor é lindo... ficou com o texto

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  3. Lindo texto.
    Queriamos todos nós podermos enterra-lo.
    Mas para ele, só a kryptonita da decepção e o laço da verdade e super velocidade para manter-se longe, salvam. Risos.

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    1. Você acaba de vencer o comentário da Rhu XD

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  4. eu acho que sei exatamente em que texto você se inspirou, ao menos no que tange aos meus... gente... isso foi muito, muito deprimente, muito triste e muito bonito. e por alguma razão, me fez lembrar da minha eu de 17/18 anos, que escrevia coisas exatamente assim. estou assustada. XD"

    well done

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  5. muito bonito! muito poesia. xD

    achei foda que não que o eu-lírico não quer o amor, mas não faz nada pra se livrar dele a não ser fechar os olhos.

    "Não quero cuidados paliativos nem missa para meu amor."

    :~~~~~~

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  6. Rapaz, bem Ludmilesco o estilo e a temática! Altas intertextualidads!!!

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