Foi uma moça curiosa por
histórias de fazer gelar o sangue quem primeiro me pediu uma história de
assassinato. Eu a contei assim.
Havia na casa uma grande
biblioteca, com livros de todo o tipo. Livros de histórias, de culinária, de
viagens a lugares distantes, enciclopédias e dicionários. E havia na biblioteca
livros de assassinato.
Quando o dono da casa por algum
motivo se desentendia com alguém, logo lhes oferecia um livro de assassinato –
sobre um homem que morrera envenenado pela esposa, sobre outro que fora
enforcado pelo irmão, sobre o que fora empurrado no caminho de uma carruagem...
As desavenças costumavam durar
muito pouco tempo.
O homem era casado, naturalmente,
e tinha muito amor por sua jovem esposa, cuja paixão eram livros – que ele
usara para conquista-la, em primeiro lugar.
Certo dia, estava o homem
consertando alguma parte qualquer da casa quando acabaram seus pregos. Ainda
carregando o martelo, ele subiu as escadas até a biblioteca, na intenção de
perguntar à esposa – que certamente encontraria lá – onde havia guardado o
material que precisava.
A jovem estava, de fato, sentada
numa poltrona na biblioteca, completamente absorta num volume da coleção que
tinha aberto nas mãos.
O dono da casa se aproximou e,
por cima do ombro da esposa distraída, leu algumas palavras apenas do livro,
identificando-o como o que contava a história da mulher que era morta a
marteladas pelo marido.
Já sentindo as lágrimas
escorrerem dos olhos, ele ergueu o martelo.
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Palavra: 'matar' (escolhida aleatoriamente do Livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges)
Tempo: 12 min (em 15 out 2012)
Por uma escolha democrática (tradução: votos das três pessoas online que comentaram no último conto), estou trazendo um dos textos prontos para juntar os comentários dele aos do anterior na hora de sortear uma nova palavra. Quem vai participar da segunda rodada? Vamos lá, galera!
