sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Múrmurios e Canções



Do diário de viagens de Megan Iolair, historiadora da Biblioteca de Rosetta.
Aridez Sombria de Al-Gober, 17 de Beltane.

Grande parte do território da nação de Al-Gober é coberta por um deserto de areias cinzentas e negras, conhecido pelo nome de Aridez Sombria. Um indivíduo que se encontre neste lugar pode olhar para todas as direções e enxergar apenas dunas e dunas de areias negras sob um céu quase sempre tão escuro quanto elas. É como encarar a pintura de um mar sombrio, com ondas congeladas pelo tempo, exceto pelos momentos em que a estranha brisa as faz ondular quase imperceptivelmente. E então, em uma questão de segundos, tudo pode estar completamente diferente....

Os olhos de Megan se estreitaram de leve para o deserto. Lugares como aquele eram sempre traiçoeiros para os viajantes – um indivíduo poderia se perder, sair do rumo, e encontrar coisas que eram no mínimo incômodas sob as areias sombrias – mas o deserto das dunas negras tinha algo a mais sob suas ondas escuras.

Alguma coisa cantava nas sombras e cinzas dos pés que haviam pisado naquelas dunas centenas de anos antes. Era uma música estranha e abafada, mas que falava de um tema apenas.

Uma canção de medo.

- Megan?

Os ombros da jovem cigana se retraíram inevitavelmente – não importava que o nome e a voz lhe fossem familiares àquela altura, pertencentes a alguém em quem ela confiava sua própria vida em batalha – aquele lugar interferia nas reações das pessoas. Ela mirou o vulto que se aproximava, um soldado jovem de porte considerável que ainda assim caminhava com uma parcela de silêncio através do acampamento adormecido. Megan lhe fez um aceno com a cabeça, a longa trança de cabelos loiros escorregando para fora da capa com que se cobria, e ele se acomodou ao seu lado, olhos como os de um falcão conferindo o perímetro mesmo quando murmurou:

- Não creio que seja seu turno de guarda, senhorita cronista.

Os lábios dela se repuxaram de leve ao ouvir aquilo. Títulos, todos os homens precisavam de títulos. Aquele era recente ainda, e de certa forma, não muito diferente do que ela fazia antes de recebê-lo: ouvir histórias, viver histórias, contar histórias. Mas se queriam um título, ela usaria um título; se queriam histórias, lhes daria histórias. Estava ganhando algo em troca, afinal, e aquilo era o que interessava.

- Não tenho sono. – respondeu ao cavaleiro, a voz suave como a brisa não parecia capaz de ser, por mais que o tentasse. – Algumas noites, penso que essa terra o roubou de mim.

As palavras soaram sombrias em seus próprios ouvidos, e ela se ajeitou no local em que estava sentada, puxando a capa para mais perto. O cavaleiro lhe concedeu um breve olhar, sem desviar a atenção de sua tarefa.

- É um lugar um tanto inquietante, eu admito. – ele falou. – Mas precisamos de todo descanso que pudermos conseguir antes de alcançar nosso destino. Não sabemos o que podemos encontrar naquele lugar.

‘Aquele lugar’. O lugar misterioso marcado num mapa roubado e que era seu destino agora, talvez o final da missão que os levara àquela terra em primeiro lugar. Eles chegariam lá talvez na manhã ou noite seguinte, se seu guia não errasse o caminho. O lugar que não parecia existir fora das histórias.

As Torres do Mar Primordial.

- Eu compreendo, major. – murmurou Megan, permitindo-se apoiar o queixo sobre os joelhos cobertos, num hábito de infância de que nunca conseguira se livrar por completo. – Não deixa de ser uma tarefa difícil, ainda assim, conseguir descanso numa terra como essa...

- Se você pode parar por um momento, faz bem em buscar repouso e prontidão para a próxima batalha. – o cavaleiro recitou o dito militar com precisão formal, porque era o que era esperado dele, mas voltou a desviar a atenção da vigília por um instante para encará-la. – O que tem essa terra, Megan?

Por alguns segundos, a jovem cigana guardou seu silêncio e deixou o olhar se perder na areia que se espalhava diante de seus pés, em todas as direções. Areia negra, negra, como sombras e cinzas, em todo lugar. Seus olhos se permitiram fechar, confiando nos olhos atentos do companheiro, e ela inspirou profundamente o ar do deserto, antes de murmurar lentamente as palavras:

- Essa terra... – e, se havia uma mágoa amarga, um desgosto incontrolável na voz controlada, nenhum deles iria admitir ou lembrar quando viesse a manhã. – Como qualquer outra terra... Canta... Tão baixo que poucos ouvidos se dão ao trabalho de ouvi-la... Ainda assim, ela canta sempre, sem nunca parar em momento algum... – seus olhos escuros se abriram de novo, e, se estavam ainda mais escuros naquela noite, ninguém seria capaz de dizer. – Uma canção apenas... Uma mesma canção...

- Qual? – o cavaleiro indagou, porque no diálogo habitual que eles haviam criado, era esse o seu papel.

Megan olhou para o alto, então, para o céu que, sobre aquele lugar, parecia ter estrelas opacas, distantes e pálidas demais para servir de consolo.

- ...Medo. – ela respondeu por fim, e a palavra os cobriu como cobria a todo o deserto, como um cobertor de sombras.

Que noite escura aquela estava sendo.

- Medo. – repetiu o outro, com uma calma que a palavra desmerecia ou espantava, e seu olhar foi atraído por ela. – E você não sentiu isso antes, senhorita cronista? Não ouviu essa canção no caminho que fizemos até aqui?

Os lábios da violinista se estreitaram ligeiramente.

- Existe medo em todo homem, mulher ou criança. Não importa a raça, a cor, o caminho... Todos dividimos esse mesmo terror... – ela tentou sorrir de novo com os cantos dos lábios, mas a expressão empalideceu diante das palavras. – Talvez nós vivamos nossas vidas inteiras tentando escapar da memória desse horror, major.

A expressão do cavaleiro era uma muralha de neutralidade, ainda assim, quando ele a encarou.

- E ainda assim, você não caminhou até aqui conosco? Não lutou como nós lutamos, e gargalhou quando sua vida estava em risco?

As sobrancelhas da cigana se ergueram ligeiramente, sua expressão tomando um surpreso ar de diversão.

- Eu? Tem certeza disso, major?

Ele se ergueu de onde havia sentado, permitindo-se um ligeiro dar de ombros enquanto seus olhos voltavam a correr pelos arredores.

- Eu não sei, senhorita cronista. Não é você que decide como contar as histórias?

Um som que quase pareceu um riso escapou de Megan, e ele se despediu com um aceno, voltando ao ponto de onde mantinha seu turno de guarda. A jovem balançou a cabeça, e encarou o deserto negro ao seu redor mais uma vez, permitindo-se pensar nas palavras ditas e não ditas.

Francamente.

Não era como se ela mesma não compusesse canções ou contasse histórias, era? Todo artista sabe que fazer as coisas muito fáceis é o caminho para a falha.

Megan deu um sorriso que talvez não pudesse ser chamado assim para a aridez sombria, e sussurrou suavemente com raiva, humor, desprezo, conformidade e rebeldia se misturando em cada palavra:

- Os finais são todos iguais mesmo... Ao menos assim, nós nos livramos do tédio, hm?

Ela apanhou de novo a pena e tinta, e o manuscrito interrompido.

... Estudiosos afirmaram que algumas das primeiras civilizações humanas podem ter surgido nesta nação, e o sussurro das areias escuras deste deserto parece ratificar este fato. Existe algo de sombrio como os próprios Áridos na história deste lugar. Esse conto se manifesta na canção dos ventos do deserto, para aqueles que podem ouvi-la.
Caminhando por estas terras numa missão da qual não haverá retorno sem sucesso, quem sabe eu e meus companheiros desvendemos os acordes de Verdade para uma canção muito mais antiga que nós mesmos.

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O texto acima se passa no universo Crônicas do Mar de Prata, criado por Marco Fischer. Dos personagens presentes, apenas a Megan é criação minha, o cavaleiro pertence ao amigo escritor e jogador, Uiberon Araújo. Para maior compreensão do conto, é aconselhável leitura do background da nação Al Gober no Mar de Prata. Fotografia de autoria própria, como todas as outras no blog (excetuando as devidamente creditadas).

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Strange Gifts



Foi um presente, o colega havia dito. Uma ilustração que um artista conhecido seu fizera, colorida com belas cores e colocada num quadro para ser pendurado numa das paredes.

Pessoas gostam de quadros. A afirmação é justificada com toda a história da humanidade desde o primeiro desenho feito na pedra, e continua sendo verdadeira até hoje.

Pessoas gostam de quadros.

(Ninguém nunca perguntou se os quadros gostam das pessoas).

Ele observou o quadro longamente. Era uma jovem de cabelos dourados tornados verdes na ilusão causada pela água com que a tinta a cobrira. Sua pele também, pálida que era, parecia esverdeada com as escolhas do artista para refletir os estranhos efeitos da luz refletida no lago coberto por flores de lótus. O vestido, incapaz de se decidir entre azul e negro, estava congelado, colado ao corpo onde este se elevava acima da água, ou flutuando numa dança sob ela, como algo etéreo e sem forma.

Os olhos dela estavam fechados.

Ela era linda.

Ele virou-se para o colega, e perguntou: Ela está morta, não está?

O outro sorriu. É de mau gosto, não é? Contou que já teria se livrado da peça muito antes, se não fosse a pena. Meu amigo demorou semanas pra terminar o desenho. O artista não se ofenderia, mas ele não conseguiria simplesmente jogar (ela) fora.

Ele olhou de novo para o quadro. A garota tinha um rosto bonito, apesar da palidez, com um nariz bem desenhado, faces que ainda conservavam a sombra de quando haviam sido coradas e uma boca de lábios delicados. Seu cabelo claro aparentava uma curiosa delicadeza também, e ele poderia até imaginar que, se fosse capaz de tocá-lo, seria macio como seda.

Ele não poderia tocar um desenho.

Eu posso ficar com ele?

O colega havia ficado ligeiramente surpreso, mas apenas por um momento, ele notou, mesmo ao ouvi-lo perguntar se tinha certeza, se não era mesmo nenhum problema, se havia espaço em seu apartamento, e todas as outras perguntas obrigatórias para aquele tipo de situação.

Talvez ele houvesse percebido a beleza silenciosa do retrato, apesar de tudo, e compreendesse. Talvez ele só quisesse mesmo de livrar do quadro. O caso é que, no fim da noite, ele dirigiu para casa com a pintura acomodada no banco do carro, e a pendurou no lugar de uma velha imagem da praia que tinha no escritório.

Parecia perfeito.

Os dias passaram, as noites passaram. Ele chegava de uma reunião e, como sempre, passava horas no cômodo, escrevendo o roteiro ou fazendo pesquisas, tendo apenas o silêncio por companhia. E agora, também, a jovem do quadro. Ocasionalmente, quando a mente caia no branco entre a inspiração e a produção, ele apoiava o queixo numa mão e deixava os olhos passearem pelo lugar enquanto pensava.

Com frequência, eles encontravam o retrato.

(Estou te vendo).

De início, após alguns minutos contemplando a imagem, ele voltava ao trabalho, mas com o tempo foi custando mais. Ele notaria algo de novo, uma curva que o cabelo fazia, uma marca desenhada cuidadosamente no rosto, a corrente do medalhão pendurado em seu pescoço, a forma como o vestido lhe desenhava a curva dos seios, os cílios claros e longos, o traço gracioso dos lábios...

E finalmente chegou ao ponto em que olhar para o retrato significava todo um dia de trabalho perdido.

Era uma distração que ele não poderia se dar ao luxo de ter quando seu trabalho estava num ponto tão crítico, então, com pesar, ele removeu o quadro de sua posição e o pôs no chão junto à estante, voltado para a parede.

Apesar do desconforto, ele trabalhou no roteiro por mais horas do que havia conseguido durante toda a última semana. Era um bom avanço. Talvez ele conseguisse terminar ainda naquela semana, antes do prazo acabar. Talvez. Talvez ele parasse de sentir um par de olhos o observando quando o sono batia.

(Meus olhos estão fechados).

Naquela noite, ele sonhou ao dormir, com água, e flores de lótus, e com um corpo que pesava, desabando cada vez mais fundo e mais longe da luz da superfície.

Muito fundo, ele pensava. Tenho que voltar, tenho que voltar... Mas seu corpo afundava, afundava na escuridão entre as plantas e as criaturas que viviam no fundo do lago, cada vez mais fundo e mais distante do mundo e da luz...

Ele acordou respirando com tanto desespero que, por alguns instantes, se convenceu de que, de fato, quase havia se afogado. Devagar, deixou a cama e o quarto na intenção de ir até a cozinha, beber um copo de água ou uma xícara de chá, mas, no caminho, encontrou a porta do escritório entreaberta.

Seus pés o levaram até o canto da estante quase sem que ele percebesse. Ele se abaixou e apanhou o quadro, e olhou para o retrato.

No escuro, a cor pálida da pele da jovem parecia ainda mais bonita e, olhando para seu rosto, ele teve a impressão de que ela estava adormecida.

Você está tendo algum sonho bom?, ele se ouviu sussurrar, muito baixo, e as palavras pareceram pairar pelo cômodo escuro.

Por um segundo, lhe parece que os olhos da jovem no quadro poderiam se abrir a qualquer momento, agora que ela tinha algo além da parede para ver.

(Não).

Ele pendurou o quadro no lugar de antes, e voltou para a cama.

Quando saiu de uma reunião no horário de almoço do dia seguinte, encontrou o colega que visitara algumas semanas antes, e os dois saíram para comer juntos num restaurante próximo. E inevitavelmente o assunto acabou indo parar no quadro.

Por que seu amigo o pintou?

Era a pergunta que quisera fazer desde o início, ele se deu conta, e o sorriso que surgiu no rosto do colega indicava que ele também percebera. Ele lhe contou então que, pouco antes de começar a trabalhar naquele quadro, o artista passara por uma terrível desilusão amorosa.

Acho que a moça foi bem cruel com ele, falou. Pelo menos o bastante para ele ficar com um ódio terrível dela.

E o quadro foi a vingança?

O outro dera de ombros. Ele estava realmente furioso com ela. Não conseguia deixa-la ir, eu acho. Não até terminar o retrato, e passa-lo para mim. ‘Eu não quero’, lembro que ele falou. ‘Não me serve mais pra nada’.

‘Não me serve mais pra nada’.

Ele chegou em casa tarde naquela noite, e foi logo para o escritório. O prazo havia diminuído ainda mais por decisão dos produtores. Eles queriam a primeira versão do roteiro para o dia seguinte, pois precisavam analisa-la e decidir se iam continuar ou não com o projeto. Ele sabia que precisava apresentar pelo menos um texto completo para ser considerado, então precisava terminar aquilo naquela noite de qualquer jeito. Mas o primeiro passo para dentro da sala o fez congelar.

Ela estava lá, exatamente onde ele a deixara. Bela e morta, congelada nos traços e cores de um artista vingativo.

Muito quieto, ele se dirigiu de novo até parar diante do quadro, olhos observando o rosto. Seria possível que ela estivesse apenas dormindo? Que não estivesse morta, mas que apenas sonhasse, presa entre a moldura, o papel e as tintas?

(Eu me pergunto qual seria a pior opção).

Com mais esforço do que seria considerado saudável, ele se obrigou a dar as costas à pintura e voltar-se para o trabalho. Em pouco tempo, descobriu que era impossível se concentrar – as palavras não se juntavam, as ideias perdiam o rumo, nada fazia sentido e, sutilmente, a ideia de cachos de cabelo úmidos em seus dedos e uma boca pequena e adorável se infiltrava em sua mente.

Havia passado da meia-noite quando ele desistiu, e se levantou.

Devagar e com uma delicadeza cautelosa, ele tirou o quadro da parede e sentou-se no chão, o colocando de pé diante de si. Ela era lindíssima. Por um infinito de segundos, ele apenas a observou em todos os seus detalhes de rosto, corpo, cabelos, cílios, olhos...

(Meus olhos estão fechados).

Sua boca se abriu, e ele sussurrou a pergunta:

Você poderia abrir seus olhos para mim?


E então ele sonhou que afundava no lago entre as flores de lótus, que caia lentamente, cada vez mais longe da luz, até sentir um par de braços esguios e gelados o envolvendo, e um corpo se enroscando no seu na escuridão.

E, por fim, ele também fechou os olhos, e adormeceu.

...

Era para ter sido um texto de Dia das Bruxas. Por conta da minha incrível habilidade de procrastinação, foi empurrado para Dia de Finados, só que depois de passar o dia inteiro entre os dois maiores cemitérios de Maceió apurando informações e entrevistando gente para uma reportagem e ganhando queimaduras de sol de brinde, eu estava sem coragem para terminar. Então ficou para hoje. A ideia partiu dessa imagem que meu querido amigo Bardo fez o favor de me mandar na madrugada do Dia das Bruxas, sem avisar que era um gif. Eu quase tive um ataque cardíaco quando ampliei. Espero que tenham gostado do primeiro texto inédito do Melodia, de qualquer forma :)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Para aqueles que tecem sonhos...

“Eu vou te contar uma história. É uma história mais velha que eu mesmo, e o tempo de que eu me lembro já não pode ser medido por qualquer homem na terra, pois é o tempo dos sonhos, que existem enquanto forem sonhados, e, portanto, existem enquanto houver homens, mulheres e crianças no mundo. Por isso, mais velha ainda seria uma história dos sonhos, que existiram desde quando existiu o mundo, e certamente só deixarão de existir quando a existência do mesmo se acabar.

Mas nada disso importa. O que importa é a história.

Dizem que, no raiar do primeiro dos primeiros dias da terra, no instante em que o sol começava a surgir no horizonte, alguém se sentou diante do primeiro dos teares. Essa pessoa, como se sentisse a luz se aproximando, escolheu as linhas mais claras e teceu a alvorada pouco a pouco no céu, iluminando toda a terra. Essa pessoa teceu as águas dos rios menores e maiores e teceu os mares, em todas as suas cores e forças. Teceu também o chão, o verde da relva, e todas as plantas, pequenas ou enormes, que cobrem o mundo. E por fim, teceu todos os animais que viviam em mar, terra ou água, e as pessoas do mundo inteiro, uma por vez.

Isso te soa familiar? Lhe parece que já ouviu essa história antes? Não se preocupe. Eu sei que sim.

Esse primeiro Tecelão ou Tecelã teceu tudo que havia no mundo dos homens. Mas não apenas isso. Certo dia, ele dormiu, e teve um sonho. Ele sonhou com coisas que nunca vira, coisas incríveis, fantásticas. E, ao acordar, desejou de alguma maneira agarrar as imagens que testemunhara, e registrar sua visão maravilhosa.
Ele teceu então as criaturas, pessoas e lugares que pertenciam antes ao mundo dos sonhos, e teceu como ele lembrava-se deles, e os achou tão belos que decidiu mostrar o que tecera aos outros ao seu redor.

O que você acha que aconteceu então, quando as pessoas viram aqueles tecidos de sonhos, todas as coisas maravilhosas e inacreditáveis nascidas da mente do Tecelão?

Dentre elas, algumas, pouco a pouco, criaram seus próprios teares. E também teceram, e mostraram para outros mais. Teares e teares tecendo sonhos... Cada um, uma mente, e, ao mesmo tempo, permitindo que todas as mentes sonhassem os mesmo sonhos. Até que crescesse o sonho na imaginação de milhões e milhões... Um sonho em que linhas se entrelaçavam, entremeavam, sem permitir quaisquer pontas soltas.

E tudo regido por cada um dos Tecelões de Sonhos que continuam a criar mais e mais partes do maior sonho de todos para que o mundo possa sonhar sempre.”

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Texto originalmente publicado no blog Vegetando em 25/7/2011 como uma homenagem ao dia dos escritores. Adaptado de um trecho de um romance sobre histórias e sonhos que um dia quem sabe virá a público (a participação no prêmio Lego foi adiada\cancelada até segunda ordem), e inspirado pelo conto A Moça Tecelã, de Marina Colasanti (entre outras inúmeras histórias).
Esse é para marcar o início da Melodia do Martelo de Tinta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As Primeiras Vezes



Talvez uma das maiores bênçãos que a vida entrega na surdina, como aquele amigo ou amiga que passa a cola da prova por baixo da carteira nos momentos de desespero da vida escolar, sejam as primeiras vezes. Porque, afinal de contas, há uma primeira vez para tudo. Para nadar e andar de bicicleta (se bem que eu não sei andar de bicicleta), para tirar uma nota baixar ou a maior da sala, para um beijo e para uma briga sem motivo na hora do recreio, pra tudo vai haver aquele momento anterior, os segundos de calafrio antes da queda livre de possibilidades.

Para tudo há uma primeira vez. Um momento de total ignorância do processo e principalmente do resultado. Quando só o que está em foco é a tentativa.

E é claro que vai haver a primeira vez das coisas chatas também. Elas merecem tanto quanto as boas, não merecem? Temos que ter direitos igualitários em alguma coisa, nem que seja no fato de que, algum dia, todos vamos nos desapontar.

Ainda assim, a vida pode ser gente boa na mesma proporção que é sacana. E mesmo as primeiras vezes não tão legais (e as segundas vezes que inevitavelmente as precederão) continuam sendo experiências.
Experiência é o caminho, meus amigos. E mágoa é perda de tempo quando o plano piloto diz que não dá pra passar por aqui sem machucar ou ser machucado.

A parte boa é que pedir perdão e perdoar são outra bênção que nós temos à disposição.

Então caminhemos aproveitando as primeiras vezes. Elas não vão se repetir como foram nunca mais.

(Originalmente postado no Vegetando em 17/3/2010)

Todo Dia




Todo dia eu faço o mesmo caminho de casa até o ponto de ônibus. Vida de universitário também é difícil.

Todo dia eu caminho até aquele banco e arranjo um lugar pra sentar (se houver) e espero. Normalmente, tenho que esperar de quinze minutos a meia hora, mas as vezes demora mais.

Todo dia eu tenho aqueles quinze ou trinta minutos pra esperar e para "fazer nada". A prática mais antiga da humanidade.

Todo dia outras pessoas seguem essa rotina, cada uma com o seu rumo.

Todo dia tem um garoto com um violão naquele ponto de ônibus.

Todo dia ele desce naquele ponto ainda com a farda do colégio e procura algo com os olhos.

Todo dia ele encontra o que está procurando. Porque todo dia ele espera ou encontra alguém esperando.

Todo dia a mesma pessoa.

Todo dia eu vejo pelo canto dos olhos enquanto ele e a garota se abraçam e se beijam. Eu não sei se eles estudam em horários diferentes ou se o Garoto do Violão simplesmente está faltando alguns dias de aula voluntariamente. Mas não importa.

Eu só sei que todo dia eles trocam o mesmo olhar.

E todo dia eu não consigo deixar de sorrir quando eles se vêem, mesmo sem saber coisa alguma sobre eles.

Porque mesmo que seja todo dia, ainda assim, eles tornam o dia único um para o outro.

Todo dia, discretamente. Num lugar qualquer da cidade, na rua, no ponto de ônibus.


(Originalmente postado no Vegetando em 8/5/2009)

Poesia de um coração partido numa noite vazia de domingo




Alguém pode me ouvir?
Será que alguém pode me ouvir,
nessa noite que dança
ao som da televisão ligada,
nesse silêncio que é silêncio
mesmo entre as vozes quebradas,
na rua vazia, nos carros,
nessa noite, alguém pode me ouvir?
Isso é apenas poesia.
Não ligue, isso é apenas poesia
Só um grito de angústia
que se cala com o dia.
Isso é apenas minha raiva
construindo seu muro
nada além.
É apenas poesia.
E amanhã o sol vem de novo
Amanhã vamos sair de casa
como fantasmas de cafeína
e vamos achar de novo
que vivemos, e seguir
com a nossa maldita rotina.
Porque o mundo não pára de girar.
E ninguém se importa mesmo
com um coração partido.
É apenas mais um
Sou apenas mais um.
Mais um.
Mais um poema, mais um...

... alguém pode me ouvir?

(Originalmente postado no Vegetando em 12/9/2010)

Oração Sem Título



Abençoados sejam meus erros,
minhas falhas e enganos,
que cada um é essencial
para que conquiste meus acertos.
Que no dia de amanhã
eu me lembre de todos eles
e tente ainda mais,
porque assim conquistarei minhas vitórias.

Abençoados sejam meus amigos,
minha família, os que ficam ao meu lado
nos bons e maus momentos.
Eles que ouvem minhas dores
e riem com meu riso,
eles que estão sempre lá
para me apoiar quando deles preciso.
Não fosse por eles, nada eu teria conseguido.

O que já passou não pode ser mudado,
portanto, que meus olhos vejam o horizonte,
claro.
E que de hoje em diante – sempre –
me venham alegria e tristeza, luta e conquista,
me venha a vida como deve ser
e eu a viverei até o último instante
sem nunca temer ou perder meus sonhos de vista.


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Semana passada, duas amigas fizeram aniversário e eu não tive condições de falar direito com nenhuma das duas, mas tinha escrito uma coisinha para comemorar a data. Vou colocá-la aqui pra quem quiser ler e tentar fazer chegar a uma delas, que ainda não recebeu.
Feliz aniversário atrasado pra vocês!
(Originalmente postado no Vegetando em 27/3/2010)

Dia Ruim



Eu te vi dançando na rua vazia ontem à noite, você sabia? Como um personagem de filme.

Um príncipe encantado, um Romeu completamente apaixonado.

Lamentavelmente belo.

Ouça-me uma vez, caríssimo Romeu imaginário,
que eu não vou repetir:
a Eternidade não dura.

Pelo menos não mais que um segundo.

A única certeza da vida -
vida, a maior das maiores ilusões sonhadas -
é que nada dura
o bastante.

As coisas mudam -
e-t-e-r-n-a-m-e-n-t-e -
e nem sempre para melhor.

Não me aponte como a Bruxa Malvada
do seu conto de fadas, Romeu,
porque nele eu nunca pus sequer um dedo,
que dirá uma maçã envenenada.

Eu não tenho culpa de nada.

Inocente até que o contrário se prove,
ou até que alguém dê a primeira dentada.

Maçãs à parte,
todos nós somos livres para cometer nossos erros o quanto quisermos,
então cometa os seus, Romeu, amigo,
quem sabe, com sorte,
eles não fazem alguns acertos?

Respire fundo.
Três vezes.
Saque a arma, abra o frasco,
pule do precipício.
O que mais conveniente for.
Mergulhe de vez nessa coisa tão sub/supervalorizada que os tolos sábios e os sábios tolos chamam de amor.
É o clímax do espetáculo.
Lágrimas e aplausos.

Oh.
Uma pena, Romeu.

Parece que Julieta ficou.

(Originalmente postado no Vegetando em 27/11/2009)

Friends will be friends




I. Stakeout

- E se eles me encontrarem?

- Eu vou vigiar suas costas, eu já disse.

- Você pode se distrair.

- Eu não vou.

- Alguma coisa pode dar errado... Você pode cometer um erro.

- Não com isso.

- Você é um ser humano e, como tal, falível. E mesmo que não fosse o caso, alguma coisa sempre pode acontecer...

- Se acontecer, eu vou dar um jeito. Mas eu vou fazer tudo que estiver na minha capacidade pra vigiar suas costas até o último momento.

- ... Você 'tá falando sério?

- Claro que sim.

- Por quê? Por que vale a pena, então?

- ... Considere isso. Se algo der errado e eles me encontrarem...

- Não deixe eles te encontrarem!

- Eu sou um ser humano e, como tal, falível. E mesmo que não fosse o caso, alguma coisa sempre pode acontecer.

- Isso por acaso é a sua noção de senso de humor ou...?

- Se eles me encontrarem, o que você vai fazer?

- Ajudar você.

- Mesmo que signifique ser descoberto também?

- Nós estamos nisso juntos, não estamos? Eu vou fazer o que for preciso.

- E essa, meu amigo, é a sua resposta.

II. Nietzsche Wishes

- Meu desejo para você é que lhe aconteça tudo de ruim que lhe for necessário.

- Isso é uma coisa horrível de se dizer, sabia?

- Não é, não. Todas as coisas ruins que acontecem se traduzem em experiência. Desejando tudo de ruim que for necessário, eu estou apenas desejando que você passe por tudo que for preciso para te deixar mais forte, para te ensinar o que você precisa aprender.

- Você está basicamente desejanto que eu aprenda as coisas da maneira difícil.

- Eu desejo que lhe aconteça o que for preciso para te fazer mais forte e mais sábia. Para te fazer olhar para trás e olhar ao seu redor, e valorizar o que você possui de bom na sua vida de verdade. Desse jeito, você vai estar preparada.

- Pra quê?

- Pra saber lutar com tudo o que você tem e saber ir atrás do que você deseja. Eu desejo que lhe venham as más experiências, porque quero que você consiga ser forte para conquistar seus sonhos. Em resumo, eu desejo tudo que seja preciso pra te fazer conquistar a felicidade plena.

- ... Então é uma coisa boa, é isso?

- Muito boa. Eu só desejo isso para aqueles com quem eu me importo de verdade.

- Certo. Então, essas experiências ruins...

- Sim?

- Quando elas vierem, vai doer pra caramba, não é?

- Vai.

- Eu provavelmente vou chorar?

- É.

- Vou amaldiçoar o mundo inteiro...

- Possivelmente.

- Vou me perguntar constantemente o que eu fiz pra merecer isso?

- É bastante provável.

- E onde você vai estar nessas horas?

- Do seu lado, minha amga, sempre bem do seu lado...

III. Are you ok?

- Hey.

- ... Hey.

- ...

- ... 'Tá tudo bem com você?

- É... Acho que sim.

- Huh... Então, acho que comigo também.

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Feliz dia do amigo para todos aqueles que me ofereceram esse posto e que são tão importantes na minha vida.
(Originalmente postado no Vegetando em 20/07/2011)

Neobedouin


Foto original: Ludmila Monteiro


We're the nomads, the neobedouins
I don't want to end up dead again
On this night we've traveled far
Over desert wastelands, prairie grasslands
Traverse the silken endless sands
We've survived this global scar
And so we dance
We play
We fight
We run
We breathe
We outlast
The storm!



Noite. Noite. Noite.

O fogo está queimando e pés estão batendo na terra num lugar longe da tal “civilização”. O som de palmas se mistura aos tambores e às cordas de instrumentos bem gastos e ao longe as vozes são como um uivo do vento. Música é assombração para os que tentam se aproximar e todos desistem antes de enxergar o que se esconde longe das suas paredes, cercas, jardins bem tratados e aquela coisa chamada “valores”.

E a noite pergunta; se não são “civilização”, o que são vocês?

Não é como se eles soubessem, eles que cresceram distante dos indivíduos ditos civilizados. Eles que nunca aprenderam a mentir, a implorar, a se humilhar para sobreviver. Eles que nunca tiveram que escolher entre querer e precisar, eles que nunca abandonaram o orgulho e a vontade. Eles que agora gritam e movem os corpos num ritmo infinito recortado nas chamas, eles que riem alto, e uivam, e cantam, e dançam, como se nada mais existisse.

E para eles, não há mais nada. Eles vão dançar até o amanhecer, vão pular e lutar, e correr, respirar... E não vão parar em momento algum.

A ideia de parar nunca lhes ocorreu em qualquer momento.

Nenhuma lágrima, nenhum arrependimento, nenhuma culpa. Apenas o caminho interminável e a música, e as vozes que se entrelaçam no escuro (e os sussurros, e os suspiros...), e os corpos que se movem num mesmo pulso.

“...Você seria capaz de passar a vida inteira sem pensar no fim?”

“...Talvez.”

Não existem olhos para testemunhar o que se dá junto ao fogo (todos os olhos estão ocupados...). Não existem ouvidos para ouvir o que se canta na escuridão quase completa (não existe nada para se ouvir além da música...). Não existe boca para fazer qualquer pergunta (não existe qualquer pergunta). Não existe ninguém.

Não existe ninguém.

“...Talvez. Tudo depende da companhia.”

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Okay, pessoas... Eu não sei o que foi isso xD Eu gostei muito dessa música que o Bardo me mandou, mas não me peçam para descrever o meu processo criativo desse texto. Só digo que ele é uma peça de ficção. E que, novamente, está tarde. :P Pelo menos eu terminei bem na hora de fazer uma postagem de aniversário para a pessoa que enviou o desafio! \o/ Bardo, parabéns! Espero que você goste disso aqui, eu... Eu ainda estou pensando sobre as minhas próprias sensações estéticas sobre esse texto xD Ok, com sorte, você só verá isso amanhã (ou hoje) à noite, então, vagantes da madrugada, shhh! ;D
(Originalmente postado no Vegetando em 7/5/2011)

Young Blood



- Então, qual é a diferença entre um lago e uma lagoa?

- Uma lagoa é um corpo de água com pouco fluxo, mas geralmente sem água estagnada, podendo ser natural ou artificial. – informou a garota com os olhos na tela do pequeno computador portátil. – Geralmente, ela é menor que um lago, que é uma depressão natural na superfície da terra, contendo permanentemente uma quantidade variável de água, proveniente da chuva, de uma nascente local ou curso de água.

- Ahh... Entendi.

- Porém, - continuou a garota, ajeitando os óculos escuros no rosto. – apesar de as pessoas chamarem isso de lagoa, na verdade é uma laguna.

- Laguna? Qual é a diferença entre as duas?

- Uma laguna é uma depressão formada por água salobra ou salgada, localizada numa borda litorânea e se comunicando com o mar através de um canal. – ela olhou em volta enquanto arrumava o cabelo cacheado atrás de uma orelha sem muito êxito. – Seria um quase-lago.

- Hmm, entendi. – uma pausa pensativa. – Acho que é um bom lugar pra essas coisas acontecerem, de qualquer forma.

- Água sempre vem associada com afogamento. – observou a garota alcançando um leque de papel e se abanando ainda olhando para a tela do computador. – E a vegetação local cresceu um bocado por aqui, eu suponho que ajuda a esconder quando isso acontece...

- Uhum. Lugar perfeito pra se livrar de coisas desnecessárias. Ou pessoas. Na verdade, isso aqui é meio perigoso, não é?

- Taxas de criminalidade são bem altas nessa região, eu devo admitir.

- Hã... E você está sentada aqui, sozinha. Com um computador.

Aquilo fez a garota fazer uma pausa e desviar os olhos do computador.

- De fato. – ela admitiu. – Eu seria uma boa vítima, hm?

- Err... Talvez fosse uma boa ideia adiantar as coisas então?

- Hmm... Suponho que sim, não é? – a garota coçou a cabeça com o leque improvisado. – Mas vai ser difícil tirar isso daqui sem chamar muita atenção...

- ‘Isso’?

- Você mesmo acabou de comparar com ‘coisas desnecessárias’.

- Foi uma metáfora... E eu suponho que tenho um pouco mais de direito a isso que você, considerando-se as circunstâncias...

- Ah, qual é... Você vai ser um dos clientes ‘sensíveis’ agora? Nós já não tínhamos nos entendido na relação comercial no caminho pra cá?

- Me desculpe, eu acho que é uma questão sensível, não importa como você olhe pra isso...

- Sabe, é por isso que eu não gosto de trabalhar com universitários, eles fazem um drama sobre tudo...

- Nem todos os universitários são assim. E pelo que eu sei você é uma universitária também, não é?

- Eu só estou tentando ser prática aqui...

- Ei! – a terceira voz na conversa fez a garota parar e olhar por cima do ombro. – O que você tá fazendo aí embaixo falando sozinha, se não se importa que eu pergunte?

A garota ergueu um pouco as sobrancelhas e depois, levantou os óculos escuros. Um pouco acima do declive que levava à beira da lagoa (laguna, na verdade) estava um rapaz com seus vinte e poucos anos a mirando com curiosidade e certa desconfiança. Ele tinha cabelos compridos num rabo-de-cavalo e carregava uma mochila apenas num dos ombros que parecia bastante carregada.

Um sorriso entortou seus lábios.

- Você é um universitário por acaso? – ela perguntou em um tom simpático, uma ideia se formando na mente.

Aquilo pegou o rapaz desprevenido.

- Uh... Sou, sim. Por quê? – ele respondeu.

O sorriso da garota se alargou e ela se levantou. Não era lá muito alta e tinha os cabelos curtos e muito cacheados em um tom combinando com a pele negra. Ela fechou o computador e olhou-o nos olhos.

- Qual a sua opinião sobre crenças e religiões alternativas que envolvem fantasmas, se não se importa que eu pergunte?

Ele estava começando a achar aquilo muito estranho.

- Eu... Acho... Ok? – ele experimentou cada vez mais confuso.

- Ótimo! – aprovou a garota, guardando o computador na mochila. – Então, que tal ganhar uma carona para casa sob a condição de me ajudar com um serviço e dividir o pagamento?

- Hã? Como assim, serviço? – ele estava olhando para ela com muita estranheza agora. – Que tipo de serviço...?

A garota riu e pendurou os óculos escuros na gola da camiseta, chamando-o com a mão.

- Só levar uma cliente até o local que ela deseja ir. – explicou. – Venha cá que eu te explico, nós vamos receber uns cem cada, não é uma boa?

Cem. Era um número bastante interessante, especialmente para uma carona, ele não podia negar, e se viu descendo até onde ela estava apesar da desconfiança e perguntando:

- Quem é a cliente? E pra onde ela quer ir?

A garota sorriu um riso cheio de dentes brancos e pisou na vegetação alta com um pé calçado em botas de cano alto o bastante pra incomodar no calor, mas muito adequadas para uma caminhada longa.

- Essa aqui. E ela gostaria de ser levada até a casa do ex-namorado, se possível, ainda hoje... Você quer me dar uma mão?

Atrás do mato alto e flutuando na água da lagoa (ou laguna) estava uma jovem de cabelos compridos e loiros. A cabeça dela estava voltada para o alto e os olhos fechados, e seu corpo estava inchado e coberto de marcas de espancamento.

E, o detalhe mais importante, ela estava morta.

- Mas que...! – um palavrão engasgou na garganta e ele olhou para a garota negra, pálido e aterrorizado. – O que você tá fazendo?

Ela sorriu e cruzou os braços.

- Estou trabalhando, colega, e te convidando pra fazer uma sociedade. – acenou com a cabeça para a esquerda. – A cliente já aprovou então, se você quiser ganhar um dinheiro fácil... É só dizer sim.

Ele olhou para onde ela apontava e sentiu o sangue gelar ainda mais. Porque, sorrindo para ele logo ao lado do corpo, estava a mesma garota loira em um estado visivelmente mais conservado e, ainda assim, com uma aparência claramente não-natural.

- Olá! – o fantasma cumprimentou com animação. – Você vai me ajudar também? Eu juro que pago direitinho.

Às vezes, foi o que ele pensou quando se viu ajudando a garota chamada Korto a colocar o corpo num saco preto que depois iria para uma bolsa com zíper (e ele não sabia onde ela havia arranjado espaço para tudo aquilo na mochila) antes de ser levado ao carro, um universitário faz trabalhos muito estranhos pra ganhar um dinheiro extra.

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Okay, esse conto surgiu de um desafio enviado por email por um amigo e de um fim de semana lendo o manga Kurosagi Corpse Delivery Service (ou Delivery Service of Corpses no Brasil, se eu não me engano). Eu não consigo encontrar nada além do volume 6 na net, estou frustrada e com vontade de aloprar um pouco :P Victor, acho que você não estava esperando que isso saísse da música que você me mandou, mas... Bom, eu também não estava esperando, simplesmente aconteceu xD Qualquer coisa, eu posso tentar escrever outro texto. Ou talvez eu transforme isso aqui numa série, quem sabe. Eu gostei da falta de noção desse textinho, espero que alguém mais goste, apesar dos cadáveres, fantasmas e ausência do senso comum. Minha desculpa é que são quase uma da manhã e eu não funciono muito bem nesses horários. Críticas, sugestões, elogios ou esculhambações, comentem, ok? See ya.
(Originalmente postado no Vegetando em 18/4/2011).

The Man with the Hat (English version)

This is the English version of The Man with The Hat. Since I wrote this, still in London, many of my English speaker friends have asked about the story, especially because they heard the original tale (in which I'm a character as well, of course :p). So, after asking my cousin Iona for some help reviewing everything, I finally managed to translate the text to English. My special thanks to her, and my best wishes for her birthday, which happened this Wednesday (and I was so busy I didn't have time to send her a message x_x), which means that this story is here in commemoration for her birthday! :) Happy birthday to you, cousin! Please forgive me for being such a forgetful person and thank you very much for all the help! Well, I'll let you read it now... Hope you like it!

All quotes are from Alice's Adventures in Wonderland and Through the Looking-Glass (Lewis Carroll).
To read the Portuguese version of this story, click here: Versão em Português.




Catching the train during the morning was always a battle against sleep. When you added a night spent awake in front of the computer, the situation would get absolutely unbearable. But she always had hated sleeping on trains or any other means of public transport and, on that morning, the rule still counted as a testament to her strong will.

That didn't stop, of course, her body of reacting in the opposite way, and it was in one of the many moments in which her eyes snapped opened after a short nap that she saw him.
He was in the other carriage, the one ahead of hers, two glass doors and her own reflection away. Standing in spite of all the empty seats around him, he was leaning on a chair and reading the newspaper like someone who, despite doing it every day, still could put some interest in the act
But there was something... Strange about it.
‘What Day of the month is it?’ (p.88)

Blinking in confusion, she still wondered for a moment where had that thought come from. It was a guy reading the paper. What was wrong about it? What could possibly be unusual about that?
But, disobediently, her eyes remained on that spot even when the movement of the train, for a few seconds, made him disappear from sight. She waited until both carriages were aligned again and then, without any apparent reason, she tried again to see him behind the reflections, from the light and the glass itself, and the people around him. And she tried to observe every possible detail on his person.
“Twinkle, twinkle, little bat!
How I Wonder what you’re at!” (p. 91)
There he was. A black long coat covering his body and he wore leather gloves of the same colour on both hands, it was possible to see them against the newspaper. A red scarf draped itself around his neck in a very elegant fashion. Short beard on the face and curly hair - dark brown, maybe? - falling around the base of the neck here and there. But of his face, she could see nothing else.
Because he wore a hat.
‘The Dormouse is asleep again.’ (p.90)

There was nothing special about this item - it was also black -, and nothing peculiar about the way he wore it. The flaps had been placed in such a carefully careless way that managed to curiously hide most of his face.
Or, more specifically, his eyes.
It was strange how having his eyes covered could hide so well a person's intentions, she thought while stopping a yawn so stubbornly that her own eyes watered while still watching the person on the other wagon. And she wondered, while the train shook, if there was some kind of reason behind that.
‘Have you guessed the riddle yet?’ (p. 90)

Maybe you just don't want to let anybody in, passed through her sleepy mind in a way crossed between challenge and stubborn perkiness, and she blinked the tears away from her eyes while, again, the carriage moved to the left, moving the man with the hat slowly within...
And in that fraction of a second before he disappeared again, she could swear she saw him looking away from the paper to stare at something directly ahead of him...
And smile.
‘Who’s making personal remarks now?’ (p.94)

Without noticing, her eyes opened wide to the glass doors, and a surprised breath was sucked inside, just a weak noise underneath the sound of the train moving slowly, bit by bit. An electronic announcement informed that it was approaching the station, but she was too busy waiting for him to show up again.
And then, after another infinite moment, there he was, calmly folding his paper and putting it inside the long coat. With the smile never leaving his lips, a gloved hand fixed the hat, and he looked at her again, and brought a finger to his lips in a gest for silence.
Then he turned to the door and, with a few steps, in spite of the train still on its last vestiges of movement before stopping and the people standing up, he disappeared in front of her eyes.
‘Have you guessed the riddle yet?

Around her, everybody was standing up and waiting for the doors to open so they could get off the train. She gasped and grabbed her bag and gloves, standing up as well and walking to the closest door. Still another whole minute passed before the doors finally opened and she stepped onto the platform in order to look around, breath visible as a weak cloud of steam on that winter morning.
‘Have you guessed the riddle yet?

Dozens of people were walking in a hurry towards the exit, none of them wearing a black hat. A mother was trying to soothe a wailing baby and an old man walked slowly with his cane, being cut through by a group of laughing teenagers.
But not a sign of the man with the hat.
Maybe she just had missed him in the middle of the crowd, she thought while forcing herself to walk a few steps. Maybe everything had been a trick of her tired mind. Maybe she should have had more sleep the night before. Maybe none of that had really happened.
Maybe she had never seen the eyes of the stranger under the hat.
A low chuckle sounded close to her ear, and made a shiver run through her neck, just before the voice whispering:
"Maybe not... Or maybe yes...” - her eyes were wide and she could feel her heartbeat quickening in such a way that it was surprising (and to be clichéd) that her heart didn’t jump right out of her throat. "We'll see each other later, miss... Maybe you can guess the riddle.”
And, of course, the moment she looked behind her there was no one to be seen.
END

(Originalmente postado no Vegetando em 20/5/2011).