sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Para aqueles que tecem sonhos...

“Eu vou te contar uma história. É uma história mais velha que eu mesmo, e o tempo de que eu me lembro já não pode ser medido por qualquer homem na terra, pois é o tempo dos sonhos, que existem enquanto forem sonhados, e, portanto, existem enquanto houver homens, mulheres e crianças no mundo. Por isso, mais velha ainda seria uma história dos sonhos, que existiram desde quando existiu o mundo, e certamente só deixarão de existir quando a existência do mesmo se acabar.

Mas nada disso importa. O que importa é a história.

Dizem que, no raiar do primeiro dos primeiros dias da terra, no instante em que o sol começava a surgir no horizonte, alguém se sentou diante do primeiro dos teares. Essa pessoa, como se sentisse a luz se aproximando, escolheu as linhas mais claras e teceu a alvorada pouco a pouco no céu, iluminando toda a terra. Essa pessoa teceu as águas dos rios menores e maiores e teceu os mares, em todas as suas cores e forças. Teceu também o chão, o verde da relva, e todas as plantas, pequenas ou enormes, que cobrem o mundo. E por fim, teceu todos os animais que viviam em mar, terra ou água, e as pessoas do mundo inteiro, uma por vez.

Isso te soa familiar? Lhe parece que já ouviu essa história antes? Não se preocupe. Eu sei que sim.

Esse primeiro Tecelão ou Tecelã teceu tudo que havia no mundo dos homens. Mas não apenas isso. Certo dia, ele dormiu, e teve um sonho. Ele sonhou com coisas que nunca vira, coisas incríveis, fantásticas. E, ao acordar, desejou de alguma maneira agarrar as imagens que testemunhara, e registrar sua visão maravilhosa.
Ele teceu então as criaturas, pessoas e lugares que pertenciam antes ao mundo dos sonhos, e teceu como ele lembrava-se deles, e os achou tão belos que decidiu mostrar o que tecera aos outros ao seu redor.

O que você acha que aconteceu então, quando as pessoas viram aqueles tecidos de sonhos, todas as coisas maravilhosas e inacreditáveis nascidas da mente do Tecelão?

Dentre elas, algumas, pouco a pouco, criaram seus próprios teares. E também teceram, e mostraram para outros mais. Teares e teares tecendo sonhos... Cada um, uma mente, e, ao mesmo tempo, permitindo que todas as mentes sonhassem os mesmo sonhos. Até que crescesse o sonho na imaginação de milhões e milhões... Um sonho em que linhas se entrelaçavam, entremeavam, sem permitir quaisquer pontas soltas.

E tudo regido por cada um dos Tecelões de Sonhos que continuam a criar mais e mais partes do maior sonho de todos para que o mundo possa sonhar sempre.”

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Texto originalmente publicado no blog Vegetando em 25/7/2011 como uma homenagem ao dia dos escritores. Adaptado de um trecho de um romance sobre histórias e sonhos que um dia quem sabe virá a público (a participação no prêmio Lego foi adiada\cancelada até segunda ordem), e inspirado pelo conto A Moça Tecelã, de Marina Colasanti (entre outras inúmeras histórias).
Esse é para marcar o início da Melodia do Martelo de Tinta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As Primeiras Vezes



Talvez uma das maiores bênçãos que a vida entrega na surdina, como aquele amigo ou amiga que passa a cola da prova por baixo da carteira nos momentos de desespero da vida escolar, sejam as primeiras vezes. Porque, afinal de contas, há uma primeira vez para tudo. Para nadar e andar de bicicleta (se bem que eu não sei andar de bicicleta), para tirar uma nota baixar ou a maior da sala, para um beijo e para uma briga sem motivo na hora do recreio, pra tudo vai haver aquele momento anterior, os segundos de calafrio antes da queda livre de possibilidades.

Para tudo há uma primeira vez. Um momento de total ignorância do processo e principalmente do resultado. Quando só o que está em foco é a tentativa.

E é claro que vai haver a primeira vez das coisas chatas também. Elas merecem tanto quanto as boas, não merecem? Temos que ter direitos igualitários em alguma coisa, nem que seja no fato de que, algum dia, todos vamos nos desapontar.

Ainda assim, a vida pode ser gente boa na mesma proporção que é sacana. E mesmo as primeiras vezes não tão legais (e as segundas vezes que inevitavelmente as precederão) continuam sendo experiências.
Experiência é o caminho, meus amigos. E mágoa é perda de tempo quando o plano piloto diz que não dá pra passar por aqui sem machucar ou ser machucado.

A parte boa é que pedir perdão e perdoar são outra bênção que nós temos à disposição.

Então caminhemos aproveitando as primeiras vezes. Elas não vão se repetir como foram nunca mais.

(Originalmente postado no Vegetando em 17/3/2010)

Todo Dia




Todo dia eu faço o mesmo caminho de casa até o ponto de ônibus. Vida de universitário também é difícil.

Todo dia eu caminho até aquele banco e arranjo um lugar pra sentar (se houver) e espero. Normalmente, tenho que esperar de quinze minutos a meia hora, mas as vezes demora mais.

Todo dia eu tenho aqueles quinze ou trinta minutos pra esperar e para "fazer nada". A prática mais antiga da humanidade.

Todo dia outras pessoas seguem essa rotina, cada uma com o seu rumo.

Todo dia tem um garoto com um violão naquele ponto de ônibus.

Todo dia ele desce naquele ponto ainda com a farda do colégio e procura algo com os olhos.

Todo dia ele encontra o que está procurando. Porque todo dia ele espera ou encontra alguém esperando.

Todo dia a mesma pessoa.

Todo dia eu vejo pelo canto dos olhos enquanto ele e a garota se abraçam e se beijam. Eu não sei se eles estudam em horários diferentes ou se o Garoto do Violão simplesmente está faltando alguns dias de aula voluntariamente. Mas não importa.

Eu só sei que todo dia eles trocam o mesmo olhar.

E todo dia eu não consigo deixar de sorrir quando eles se vêem, mesmo sem saber coisa alguma sobre eles.

Porque mesmo que seja todo dia, ainda assim, eles tornam o dia único um para o outro.

Todo dia, discretamente. Num lugar qualquer da cidade, na rua, no ponto de ônibus.


(Originalmente postado no Vegetando em 8/5/2009)

Poesia de um coração partido numa noite vazia de domingo




Alguém pode me ouvir?
Será que alguém pode me ouvir,
nessa noite que dança
ao som da televisão ligada,
nesse silêncio que é silêncio
mesmo entre as vozes quebradas,
na rua vazia, nos carros,
nessa noite, alguém pode me ouvir?
Isso é apenas poesia.
Não ligue, isso é apenas poesia
Só um grito de angústia
que se cala com o dia.
Isso é apenas minha raiva
construindo seu muro
nada além.
É apenas poesia.
E amanhã o sol vem de novo
Amanhã vamos sair de casa
como fantasmas de cafeína
e vamos achar de novo
que vivemos, e seguir
com a nossa maldita rotina.
Porque o mundo não pára de girar.
E ninguém se importa mesmo
com um coração partido.
É apenas mais um
Sou apenas mais um.
Mais um.
Mais um poema, mais um...

... alguém pode me ouvir?

(Originalmente postado no Vegetando em 12/9/2010)

Oração Sem Título



Abençoados sejam meus erros,
minhas falhas e enganos,
que cada um é essencial
para que conquiste meus acertos.
Que no dia de amanhã
eu me lembre de todos eles
e tente ainda mais,
porque assim conquistarei minhas vitórias.

Abençoados sejam meus amigos,
minha família, os que ficam ao meu lado
nos bons e maus momentos.
Eles que ouvem minhas dores
e riem com meu riso,
eles que estão sempre lá
para me apoiar quando deles preciso.
Não fosse por eles, nada eu teria conseguido.

O que já passou não pode ser mudado,
portanto, que meus olhos vejam o horizonte,
claro.
E que de hoje em diante – sempre –
me venham alegria e tristeza, luta e conquista,
me venha a vida como deve ser
e eu a viverei até o último instante
sem nunca temer ou perder meus sonhos de vista.


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Semana passada, duas amigas fizeram aniversário e eu não tive condições de falar direito com nenhuma das duas, mas tinha escrito uma coisinha para comemorar a data. Vou colocá-la aqui pra quem quiser ler e tentar fazer chegar a uma delas, que ainda não recebeu.
Feliz aniversário atrasado pra vocês!
(Originalmente postado no Vegetando em 27/3/2010)

Dia Ruim



Eu te vi dançando na rua vazia ontem à noite, você sabia? Como um personagem de filme.

Um príncipe encantado, um Romeu completamente apaixonado.

Lamentavelmente belo.

Ouça-me uma vez, caríssimo Romeu imaginário,
que eu não vou repetir:
a Eternidade não dura.

Pelo menos não mais que um segundo.

A única certeza da vida -
vida, a maior das maiores ilusões sonhadas -
é que nada dura
o bastante.

As coisas mudam -
e-t-e-r-n-a-m-e-n-t-e -
e nem sempre para melhor.

Não me aponte como a Bruxa Malvada
do seu conto de fadas, Romeu,
porque nele eu nunca pus sequer um dedo,
que dirá uma maçã envenenada.

Eu não tenho culpa de nada.

Inocente até que o contrário se prove,
ou até que alguém dê a primeira dentada.

Maçãs à parte,
todos nós somos livres para cometer nossos erros o quanto quisermos,
então cometa os seus, Romeu, amigo,
quem sabe, com sorte,
eles não fazem alguns acertos?

Respire fundo.
Três vezes.
Saque a arma, abra o frasco,
pule do precipício.
O que mais conveniente for.
Mergulhe de vez nessa coisa tão sub/supervalorizada que os tolos sábios e os sábios tolos chamam de amor.
É o clímax do espetáculo.
Lágrimas e aplausos.

Oh.
Uma pena, Romeu.

Parece que Julieta ficou.

(Originalmente postado no Vegetando em 27/11/2009)

Friends will be friends




I. Stakeout

- E se eles me encontrarem?

- Eu vou vigiar suas costas, eu já disse.

- Você pode se distrair.

- Eu não vou.

- Alguma coisa pode dar errado... Você pode cometer um erro.

- Não com isso.

- Você é um ser humano e, como tal, falível. E mesmo que não fosse o caso, alguma coisa sempre pode acontecer...

- Se acontecer, eu vou dar um jeito. Mas eu vou fazer tudo que estiver na minha capacidade pra vigiar suas costas até o último momento.

- ... Você 'tá falando sério?

- Claro que sim.

- Por quê? Por que vale a pena, então?

- ... Considere isso. Se algo der errado e eles me encontrarem...

- Não deixe eles te encontrarem!

- Eu sou um ser humano e, como tal, falível. E mesmo que não fosse o caso, alguma coisa sempre pode acontecer.

- Isso por acaso é a sua noção de senso de humor ou...?

- Se eles me encontrarem, o que você vai fazer?

- Ajudar você.

- Mesmo que signifique ser descoberto também?

- Nós estamos nisso juntos, não estamos? Eu vou fazer o que for preciso.

- E essa, meu amigo, é a sua resposta.

II. Nietzsche Wishes

- Meu desejo para você é que lhe aconteça tudo de ruim que lhe for necessário.

- Isso é uma coisa horrível de se dizer, sabia?

- Não é, não. Todas as coisas ruins que acontecem se traduzem em experiência. Desejando tudo de ruim que for necessário, eu estou apenas desejando que você passe por tudo que for preciso para te deixar mais forte, para te ensinar o que você precisa aprender.

- Você está basicamente desejanto que eu aprenda as coisas da maneira difícil.

- Eu desejo que lhe aconteça o que for preciso para te fazer mais forte e mais sábia. Para te fazer olhar para trás e olhar ao seu redor, e valorizar o que você possui de bom na sua vida de verdade. Desse jeito, você vai estar preparada.

- Pra quê?

- Pra saber lutar com tudo o que você tem e saber ir atrás do que você deseja. Eu desejo que lhe venham as más experiências, porque quero que você consiga ser forte para conquistar seus sonhos. Em resumo, eu desejo tudo que seja preciso pra te fazer conquistar a felicidade plena.

- ... Então é uma coisa boa, é isso?

- Muito boa. Eu só desejo isso para aqueles com quem eu me importo de verdade.

- Certo. Então, essas experiências ruins...

- Sim?

- Quando elas vierem, vai doer pra caramba, não é?

- Vai.

- Eu provavelmente vou chorar?

- É.

- Vou amaldiçoar o mundo inteiro...

- Possivelmente.

- Vou me perguntar constantemente o que eu fiz pra merecer isso?

- É bastante provável.

- E onde você vai estar nessas horas?

- Do seu lado, minha amga, sempre bem do seu lado...

III. Are you ok?

- Hey.

- ... Hey.

- ...

- ... 'Tá tudo bem com você?

- É... Acho que sim.

- Huh... Então, acho que comigo também.

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Feliz dia do amigo para todos aqueles que me ofereceram esse posto e que são tão importantes na minha vida.
(Originalmente postado no Vegetando em 20/07/2011)

Neobedouin


Foto original: Ludmila Monteiro


We're the nomads, the neobedouins
I don't want to end up dead again
On this night we've traveled far
Over desert wastelands, prairie grasslands
Traverse the silken endless sands
We've survived this global scar
And so we dance
We play
We fight
We run
We breathe
We outlast
The storm!



Noite. Noite. Noite.

O fogo está queimando e pés estão batendo na terra num lugar longe da tal “civilização”. O som de palmas se mistura aos tambores e às cordas de instrumentos bem gastos e ao longe as vozes são como um uivo do vento. Música é assombração para os que tentam se aproximar e todos desistem antes de enxergar o que se esconde longe das suas paredes, cercas, jardins bem tratados e aquela coisa chamada “valores”.

E a noite pergunta; se não são “civilização”, o que são vocês?

Não é como se eles soubessem, eles que cresceram distante dos indivíduos ditos civilizados. Eles que nunca aprenderam a mentir, a implorar, a se humilhar para sobreviver. Eles que nunca tiveram que escolher entre querer e precisar, eles que nunca abandonaram o orgulho e a vontade. Eles que agora gritam e movem os corpos num ritmo infinito recortado nas chamas, eles que riem alto, e uivam, e cantam, e dançam, como se nada mais existisse.

E para eles, não há mais nada. Eles vão dançar até o amanhecer, vão pular e lutar, e correr, respirar... E não vão parar em momento algum.

A ideia de parar nunca lhes ocorreu em qualquer momento.

Nenhuma lágrima, nenhum arrependimento, nenhuma culpa. Apenas o caminho interminável e a música, e as vozes que se entrelaçam no escuro (e os sussurros, e os suspiros...), e os corpos que se movem num mesmo pulso.

“...Você seria capaz de passar a vida inteira sem pensar no fim?”

“...Talvez.”

Não existem olhos para testemunhar o que se dá junto ao fogo (todos os olhos estão ocupados...). Não existem ouvidos para ouvir o que se canta na escuridão quase completa (não existe nada para se ouvir além da música...). Não existe boca para fazer qualquer pergunta (não existe qualquer pergunta). Não existe ninguém.

Não existe ninguém.

“...Talvez. Tudo depende da companhia.”

x

Okay, pessoas... Eu não sei o que foi isso xD Eu gostei muito dessa música que o Bardo me mandou, mas não me peçam para descrever o meu processo criativo desse texto. Só digo que ele é uma peça de ficção. E que, novamente, está tarde. :P Pelo menos eu terminei bem na hora de fazer uma postagem de aniversário para a pessoa que enviou o desafio! \o/ Bardo, parabéns! Espero que você goste disso aqui, eu... Eu ainda estou pensando sobre as minhas próprias sensações estéticas sobre esse texto xD Ok, com sorte, você só verá isso amanhã (ou hoje) à noite, então, vagantes da madrugada, shhh! ;D
(Originalmente postado no Vegetando em 7/5/2011)

Young Blood



- Então, qual é a diferença entre um lago e uma lagoa?

- Uma lagoa é um corpo de água com pouco fluxo, mas geralmente sem água estagnada, podendo ser natural ou artificial. – informou a garota com os olhos na tela do pequeno computador portátil. – Geralmente, ela é menor que um lago, que é uma depressão natural na superfície da terra, contendo permanentemente uma quantidade variável de água, proveniente da chuva, de uma nascente local ou curso de água.

- Ahh... Entendi.

- Porém, - continuou a garota, ajeitando os óculos escuros no rosto. – apesar de as pessoas chamarem isso de lagoa, na verdade é uma laguna.

- Laguna? Qual é a diferença entre as duas?

- Uma laguna é uma depressão formada por água salobra ou salgada, localizada numa borda litorânea e se comunicando com o mar através de um canal. – ela olhou em volta enquanto arrumava o cabelo cacheado atrás de uma orelha sem muito êxito. – Seria um quase-lago.

- Hmm, entendi. – uma pausa pensativa. – Acho que é um bom lugar pra essas coisas acontecerem, de qualquer forma.

- Água sempre vem associada com afogamento. – observou a garota alcançando um leque de papel e se abanando ainda olhando para a tela do computador. – E a vegetação local cresceu um bocado por aqui, eu suponho que ajuda a esconder quando isso acontece...

- Uhum. Lugar perfeito pra se livrar de coisas desnecessárias. Ou pessoas. Na verdade, isso aqui é meio perigoso, não é?

- Taxas de criminalidade são bem altas nessa região, eu devo admitir.

- Hã... E você está sentada aqui, sozinha. Com um computador.

Aquilo fez a garota fazer uma pausa e desviar os olhos do computador.

- De fato. – ela admitiu. – Eu seria uma boa vítima, hm?

- Err... Talvez fosse uma boa ideia adiantar as coisas então?

- Hmm... Suponho que sim, não é? – a garota coçou a cabeça com o leque improvisado. – Mas vai ser difícil tirar isso daqui sem chamar muita atenção...

- ‘Isso’?

- Você mesmo acabou de comparar com ‘coisas desnecessárias’.

- Foi uma metáfora... E eu suponho que tenho um pouco mais de direito a isso que você, considerando-se as circunstâncias...

- Ah, qual é... Você vai ser um dos clientes ‘sensíveis’ agora? Nós já não tínhamos nos entendido na relação comercial no caminho pra cá?

- Me desculpe, eu acho que é uma questão sensível, não importa como você olhe pra isso...

- Sabe, é por isso que eu não gosto de trabalhar com universitários, eles fazem um drama sobre tudo...

- Nem todos os universitários são assim. E pelo que eu sei você é uma universitária também, não é?

- Eu só estou tentando ser prática aqui...

- Ei! – a terceira voz na conversa fez a garota parar e olhar por cima do ombro. – O que você tá fazendo aí embaixo falando sozinha, se não se importa que eu pergunte?

A garota ergueu um pouco as sobrancelhas e depois, levantou os óculos escuros. Um pouco acima do declive que levava à beira da lagoa (laguna, na verdade) estava um rapaz com seus vinte e poucos anos a mirando com curiosidade e certa desconfiança. Ele tinha cabelos compridos num rabo-de-cavalo e carregava uma mochila apenas num dos ombros que parecia bastante carregada.

Um sorriso entortou seus lábios.

- Você é um universitário por acaso? – ela perguntou em um tom simpático, uma ideia se formando na mente.

Aquilo pegou o rapaz desprevenido.

- Uh... Sou, sim. Por quê? – ele respondeu.

O sorriso da garota se alargou e ela se levantou. Não era lá muito alta e tinha os cabelos curtos e muito cacheados em um tom combinando com a pele negra. Ela fechou o computador e olhou-o nos olhos.

- Qual a sua opinião sobre crenças e religiões alternativas que envolvem fantasmas, se não se importa que eu pergunte?

Ele estava começando a achar aquilo muito estranho.

- Eu... Acho... Ok? – ele experimentou cada vez mais confuso.

- Ótimo! – aprovou a garota, guardando o computador na mochila. – Então, que tal ganhar uma carona para casa sob a condição de me ajudar com um serviço e dividir o pagamento?

- Hã? Como assim, serviço? – ele estava olhando para ela com muita estranheza agora. – Que tipo de serviço...?

A garota riu e pendurou os óculos escuros na gola da camiseta, chamando-o com a mão.

- Só levar uma cliente até o local que ela deseja ir. – explicou. – Venha cá que eu te explico, nós vamos receber uns cem cada, não é uma boa?

Cem. Era um número bastante interessante, especialmente para uma carona, ele não podia negar, e se viu descendo até onde ela estava apesar da desconfiança e perguntando:

- Quem é a cliente? E pra onde ela quer ir?

A garota sorriu um riso cheio de dentes brancos e pisou na vegetação alta com um pé calçado em botas de cano alto o bastante pra incomodar no calor, mas muito adequadas para uma caminhada longa.

- Essa aqui. E ela gostaria de ser levada até a casa do ex-namorado, se possível, ainda hoje... Você quer me dar uma mão?

Atrás do mato alto e flutuando na água da lagoa (ou laguna) estava uma jovem de cabelos compridos e loiros. A cabeça dela estava voltada para o alto e os olhos fechados, e seu corpo estava inchado e coberto de marcas de espancamento.

E, o detalhe mais importante, ela estava morta.

- Mas que...! – um palavrão engasgou na garganta e ele olhou para a garota negra, pálido e aterrorizado. – O que você tá fazendo?

Ela sorriu e cruzou os braços.

- Estou trabalhando, colega, e te convidando pra fazer uma sociedade. – acenou com a cabeça para a esquerda. – A cliente já aprovou então, se você quiser ganhar um dinheiro fácil... É só dizer sim.

Ele olhou para onde ela apontava e sentiu o sangue gelar ainda mais. Porque, sorrindo para ele logo ao lado do corpo, estava a mesma garota loira em um estado visivelmente mais conservado e, ainda assim, com uma aparência claramente não-natural.

- Olá! – o fantasma cumprimentou com animação. – Você vai me ajudar também? Eu juro que pago direitinho.

Às vezes, foi o que ele pensou quando se viu ajudando a garota chamada Korto a colocar o corpo num saco preto que depois iria para uma bolsa com zíper (e ele não sabia onde ela havia arranjado espaço para tudo aquilo na mochila) antes de ser levado ao carro, um universitário faz trabalhos muito estranhos pra ganhar um dinheiro extra.

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Okay, esse conto surgiu de um desafio enviado por email por um amigo e de um fim de semana lendo o manga Kurosagi Corpse Delivery Service (ou Delivery Service of Corpses no Brasil, se eu não me engano). Eu não consigo encontrar nada além do volume 6 na net, estou frustrada e com vontade de aloprar um pouco :P Victor, acho que você não estava esperando que isso saísse da música que você me mandou, mas... Bom, eu também não estava esperando, simplesmente aconteceu xD Qualquer coisa, eu posso tentar escrever outro texto. Ou talvez eu transforme isso aqui numa série, quem sabe. Eu gostei da falta de noção desse textinho, espero que alguém mais goste, apesar dos cadáveres, fantasmas e ausência do senso comum. Minha desculpa é que são quase uma da manhã e eu não funciono muito bem nesses horários. Críticas, sugestões, elogios ou esculhambações, comentem, ok? See ya.
(Originalmente postado no Vegetando em 18/4/2011).

The Man with the Hat (English version)

This is the English version of The Man with The Hat. Since I wrote this, still in London, many of my English speaker friends have asked about the story, especially because they heard the original tale (in which I'm a character as well, of course :p). So, after asking my cousin Iona for some help reviewing everything, I finally managed to translate the text to English. My special thanks to her, and my best wishes for her birthday, which happened this Wednesday (and I was so busy I didn't have time to send her a message x_x), which means that this story is here in commemoration for her birthday! :) Happy birthday to you, cousin! Please forgive me for being such a forgetful person and thank you very much for all the help! Well, I'll let you read it now... Hope you like it!

All quotes are from Alice's Adventures in Wonderland and Through the Looking-Glass (Lewis Carroll).
To read the Portuguese version of this story, click here: Versão em Português.




Catching the train during the morning was always a battle against sleep. When you added a night spent awake in front of the computer, the situation would get absolutely unbearable. But she always had hated sleeping on trains or any other means of public transport and, on that morning, the rule still counted as a testament to her strong will.

That didn't stop, of course, her body of reacting in the opposite way, and it was in one of the many moments in which her eyes snapped opened after a short nap that she saw him.
He was in the other carriage, the one ahead of hers, two glass doors and her own reflection away. Standing in spite of all the empty seats around him, he was leaning on a chair and reading the newspaper like someone who, despite doing it every day, still could put some interest in the act
But there was something... Strange about it.
‘What Day of the month is it?’ (p.88)

Blinking in confusion, she still wondered for a moment where had that thought come from. It was a guy reading the paper. What was wrong about it? What could possibly be unusual about that?
But, disobediently, her eyes remained on that spot even when the movement of the train, for a few seconds, made him disappear from sight. She waited until both carriages were aligned again and then, without any apparent reason, she tried again to see him behind the reflections, from the light and the glass itself, and the people around him. And she tried to observe every possible detail on his person.
“Twinkle, twinkle, little bat!
How I Wonder what you’re at!” (p. 91)
There he was. A black long coat covering his body and he wore leather gloves of the same colour on both hands, it was possible to see them against the newspaper. A red scarf draped itself around his neck in a very elegant fashion. Short beard on the face and curly hair - dark brown, maybe? - falling around the base of the neck here and there. But of his face, she could see nothing else.
Because he wore a hat.
‘The Dormouse is asleep again.’ (p.90)

There was nothing special about this item - it was also black -, and nothing peculiar about the way he wore it. The flaps had been placed in such a carefully careless way that managed to curiously hide most of his face.
Or, more specifically, his eyes.
It was strange how having his eyes covered could hide so well a person's intentions, she thought while stopping a yawn so stubbornly that her own eyes watered while still watching the person on the other wagon. And she wondered, while the train shook, if there was some kind of reason behind that.
‘Have you guessed the riddle yet?’ (p. 90)

Maybe you just don't want to let anybody in, passed through her sleepy mind in a way crossed between challenge and stubborn perkiness, and she blinked the tears away from her eyes while, again, the carriage moved to the left, moving the man with the hat slowly within...
And in that fraction of a second before he disappeared again, she could swear she saw him looking away from the paper to stare at something directly ahead of him...
And smile.
‘Who’s making personal remarks now?’ (p.94)

Without noticing, her eyes opened wide to the glass doors, and a surprised breath was sucked inside, just a weak noise underneath the sound of the train moving slowly, bit by bit. An electronic announcement informed that it was approaching the station, but she was too busy waiting for him to show up again.
And then, after another infinite moment, there he was, calmly folding his paper and putting it inside the long coat. With the smile never leaving his lips, a gloved hand fixed the hat, and he looked at her again, and brought a finger to his lips in a gest for silence.
Then he turned to the door and, with a few steps, in spite of the train still on its last vestiges of movement before stopping and the people standing up, he disappeared in front of her eyes.
‘Have you guessed the riddle yet?

Around her, everybody was standing up and waiting for the doors to open so they could get off the train. She gasped and grabbed her bag and gloves, standing up as well and walking to the closest door. Still another whole minute passed before the doors finally opened and she stepped onto the platform in order to look around, breath visible as a weak cloud of steam on that winter morning.
‘Have you guessed the riddle yet?

Dozens of people were walking in a hurry towards the exit, none of them wearing a black hat. A mother was trying to soothe a wailing baby and an old man walked slowly with his cane, being cut through by a group of laughing teenagers.
But not a sign of the man with the hat.
Maybe she just had missed him in the middle of the crowd, she thought while forcing herself to walk a few steps. Maybe everything had been a trick of her tired mind. Maybe she should have had more sleep the night before. Maybe none of that had really happened.
Maybe she had never seen the eyes of the stranger under the hat.
A low chuckle sounded close to her ear, and made a shiver run through her neck, just before the voice whispering:
"Maybe not... Or maybe yes...” - her eyes were wide and she could feel her heartbeat quickening in such a way that it was surprising (and to be clichéd) that her heart didn’t jump right out of her throat. "We'll see each other later, miss... Maybe you can guess the riddle.”
And, of course, the moment she looked behind her there was no one to be seen.
END

(Originalmente postado no Vegetando em 20/5/2011).

Exercício Criativo: Whatsername








Era uma história cheia de “se”s.
Se ele não houvesse decidido sair naquela noite, se não houvesse ido para aquele lugar, se não tivesse bebido aquela cerveja, olhado para aquele lugar.
Se os olhos dele não a houvessem encontrado sozinha, se ela não estivesse sorrindo, talvez com a música, talvez com Deus sabe o quê.
Se ele não houvesse ido até lá.
Se eles não houvessem trocado algumas palavras sem jeito, se ela não houvesse rido do que ele falara aos gritos por cima do som alto, se ele não houvesse dito o quão bonitos eram os olhos dela (e se aquilo não fosse tão profundamente clichê).
Se a música não tivesse acabado.
Se ele não houvesse dito “esse lugar é um saco”, se ela não houvesse concordado, se ele não tivesse as chaves do carro e uma língua incontrolável.
Se ela não houvesse dito sim.
Se não fosse por aquele CD no som do carro, se eles não houvessem cantado juntos Aquela Música, se não houvessem comprado aquela garrafa de vinho.
Se ele não houvesse dirigido até a hora em que lugar algum estava aberto, se eles não houvessem decidido parar ali mesmo (onde quer que ali fosse) e acabar com a garrafa de vinho (e com mais algumas cervejas), se o céu não estivesse inexplicavelmente bonito (assim como ela).
Se não fosse o beijo.
Se ela não tivesse uma câmera fotográfica, se ele não tivesse tão pouco juízo e tanto senso de humor, se ela não estivesse vendo as fotos de novo e de novo meio hora depois, se ela não conseguisse parar de rir mesmo vendo todas pela terceira vez.
Se não estivesse tão frio que eles voltaram para dentro do carro.
Se eles houvessem voltado a ligar o carro logo depois.
Se ele não tivesse o sono mais pesado da história, se ela não fosse mais discreta e silenciosa do que devia, se ele houvesse aberto os olhos, se o papel não estivesse no pára-brisa, se ela não houvesse usado uma caneta preta para escrever e se despedir com um beijo e silêncio.
Se ela não amasse o silêncio.
Se ele não tivesse tido tanto medo, se ele houvesse pensado melhor, se ele houvesse perguntado antes, se a cidade fosse menor, se ela não houvesse escrito “talvez” perto de “ver de novo”.
Se ele houvesse simplesmente perguntado qual era o nome dela.


Talvez esse seja o texto mais esperado do conjunto. Bem, aqui está ele para os que estavam aguardando de antemão. Mudei uma coisa ou outra. Mas espero que gostem.
(Originalmente postado no Vegetando em 28/3/2011).

Exercício Criativo: Aerial Garden



Hoje à noite me espera, amor, no jardim mais alto
Espera-me que vão tocar para nós
a mais bela música que já ouvimos
Espera-me que vamos dançar ao som
das cordas e tambores
Eu te terei nos braços, amor, e nós dançaremos
Sob a lua e as estrelas, dançaremos
Sem que os olhos de mais ninguém nos encontrem
O silêncio da noite vai ouvir nosso riso e música
Giraremos no jardim, no mais belo jardim
e no fim hei de abraçar-te, amor
Forte como nada no mundo
Para que nunca me deixes
Para que nunca mais me deixes
Hoje à noite, amor, no jardim mais alto
Espera por mim, amor no jardim mais alto...
- Click.

(Originalmente postado no Vegetando em 18/3/2011.)

Exercício Criativo: Song of the Century

Parte da série de resultados de um exercício criativo que envolveu papel pautado e tempo de sobra e um mp3 player no modo de reprodução aleatório. O primeiro segue abaixo e... Bom, sei lá, espero que vocês leiam e apreciem. Todos os títulos são nomes de músicas.


Estática no rádio, e uma voz canta. Abafada pelo som dos carros lá fora, ela canta. Canta sobre guerra e paz, canta sobre sangue e lágrimas.

Estática no rádio, uma voz canta. Grita junto às sirenes, e canta. Canta sobre crianças com fome e mulheres apedrejadas. Canta sobre quem tem sonhos e sobre quem não tem nada.

Estática no rádio. Canta. Soluçando com o vento, a voz canta. Ruído de aviões e risos de criança. O uivo da mãe que assistiu à morte de um filho, e da criança perdida no meio da estação final de um trem que nunca chega.

Estática. A voz canta. Garotas no shopping center pensando que são mulheres. Crianças vendendo drogas e o grito de alguém cortado por uma faca. Os pais olham para o berço e sorriem de orgulho.

Estática no rádio. Uma voz. Velas para uma santa, sussurros no escuro. Prece, canta. Corpos dançando, a batida de um século, suor e lágrimas, e um grito. Ninguém ouve.

Estática... Canta...

Olhos de criança voltados para o céu claro. O primeiro passo é sempre mais difícil.

Estática no rádio.

Uma voz canta.

(Originalmente postado no Vegetando em 12/3/2011)

The Man with the Hat



Pegar o trem pela manhã era sempre uma batalha contra o sono. Quando se acrescentava uma madrugada na frente do computador, a situação ficava absolutamente insuportável. Mas ela sempre odiara dormir em trens ou quaisquer outros meios de transporte público e, naquela manhã, a regra continuava valendo ao menos para a sua força de vontade.

Isso não impedia, claro, que seu corpo reagisse de forma oposta e foi num dos inúmeros momentos em que seus olhos se abriam depois de a cabeça pender para a frente ao sabor do cansaço que ela o viu.

Ele estava no outro vagão, o que ficava em frente ao seu, a duas portas de vidro e seu próprio reflexo de distância. De pé, apesar de todos os lugares vagos a sua volta, ele se apoiava numa cadeira e lia o jornal com o ar de quem o fazia todos os dias e, ainda assim, não deixava de pôr interesse no ato.

Mas havia algo... Estranho.
‘What Day of the month is it?’ (p.88)

Piscando com confusão, ela ainda se perguntou por um momento de onde viera aquele pensamento. Era um cara lendo o jornal. O que havia de estranho? O que poderia chamar a atenção?

Mas, desobedientes, seus olhos permaneceram naquele ponto mesmo quando o movimento do trem o fez, por alguns segundos, sumir de seu campo de visão. Ela esperou até que ambos os vagões estivessem de novo alinhados e, então, sem qualquer razão aparente, eu repito, procurou de novo enxergá-lo por trás dos reflexos, da luz e o próprio no vidro, e das pessoas ao redor. E buscou apreender cada detalhe possível de sua pessoa.
“Twinkle, twinkle, little bat!
How I Wonder what you’re at!” (p. 91)
Lá estava ele. Um casaco preto longo cobria seu corpo e ele usava luvas de couro da mesma cor em ambas as mãos, era possível vê-las contra o papel do jornal. Ao redor do pescoço, se enrolava com elegância um cachecol vermelho. Barba curta no rosto e cabelos cacheados – castanhos, escuros, talvez? – caindo quase à altura da nuca aqui e ali. Mas do rosto, nada mais.

Porque ele usava um chapéu.
‘The Dormouse is asleep again.’ (p.90)

Não havia nada de especial sobre essa peça – também em preto -, que não a maneira como ele a usava. As abas haviam sido posicionadas de uma tal maneira cuidadosamente desleixada que conseguiam curiosamente esconder boa parte de seu rosto.

Ou, mais especificamente, seus olhos.

Era estranho como ter os olhos ocultos podia encobrir tão bem as intenções de uma pessoa, ela pensou contendo um bocejo tão teimosamente que sentiu os próprios olhos lacrimejarem, ainda fixos na figura do vagão seguinte. E se perguntou enquanto o trem balançava, se haveria alguma razão por trás daquilo.
‘Have you guessed the riddle yet?’ (p. 90)

Talvez você só não queira deixar ninguém entrar, passou por sua mente sonolenta de uma forma que ficou entre desafio ou insolência teimosa, e ela piscou as lágrimas para longe dos olhos quando, outra vez, o vagão se moveu para a esquerda, movendo o homem do chapéu com ele devagar...

E naquele pequeno segundo antes de ele desaparecer de novo, ela pôde jurar vê-lo desviar a atenção do jornal para mirar algo diretamente a frente...

E sorrir.
‘Who’s making personal remarks now?’ (p.94)

Sem perceber, seus olhos se abriram de forma larga para as portas de vidro, e um fôlego surpreso foi puxado para dentro, um ruído abafado no som do trem se movendo mais lentamente, pouco a pouco. Um aviso eletrônico informou que ele se aproximava da estação, mas ela estava ocupada demais esperando ele reaparecer.

E então, após outro momento infinito, lá estava ele, dobrando o jornal calmamente e o guardando no longo casaco. Com o sorriso nunca parecendo deixar os lábios, uma mão enluvada ajeitou o chapéu, e ele a mirou outra vez, e levou um dedo aos lábios.

E então, virou-se para a porta e, com poucos passos, apesar de o trem ainda estar nos últimos resquícios de movimento antes de parar e as pessoas, se erguendo, sumiu de sua vista.
‘Have you guessed the riddle yet?’

Ao redor, todos se levantavam e esperavam as portas se abrirem para desembarcar. Ela ofegou e agarrou a bolsa e as luvas, se erguendo e também seguindo para a porta mais próxima, a mente tentando processar o que acontecera. Ainda se passou mais um minuto inteiro antes que as portas finalmente se abrissem e ela pisasse na estação para poder olhar em volta, respiração visível como um vapor naquela manhã de inverno.
‘Have you guessed the riddle yet?’

Dezenas de pessoas caminhavam apressadas para a saída, nenhuma delas usando um chapéu preto de abas. Uma mãe tentava acalmar um bebê que chorava e um senhor seguia lentamente com sua bengala, sendo ultrapassado por adolescentes aos risos.

Mas nem sinal do homem do chapéu.

Talvez ele só tenha sumido no meio das pessoas, pensou enquanto se forçava a caminhar alguns passos. Talvez tudo tenha sido um truque da mente exausta. Talvez ela devesse ter dormido mais na noite anterior. Talvez nada daquilo acontecera.

Talvez ela nunca houvesse visto os olhos do estranho sob o chapéu.

Uma risada baixa soou ao pé de seu ouvido, e fez um calafrio subir por seu pescoço, logo antes de a voz sussurrar:

- Talvez não... Ou talvez sim... – seus olhos estavam arregalados e ela sentia o pulso acelerar de tal maneira que era uma surpresa que (dane-se o clichê) seu coração ainda não havia escapado garganta acima. – Nos vemos depois, senhorita... Quem sabe você resolve a charada.

E é claro que, no momento em que ela olhou para trás, não havia ninguém para se ver.

FIM


Essa história foi baseada em acontecimentos reais, ajustados de forma devidamente exagerada para a construção de uma boa peça de ficção, com pequenas adições feitas a torto e a direito por uma autora que não possui a menor pretensão de fazer sentido, principalmente de certos encontros com fantasmas no transporte público londrino. Esse, por exemplo, tocava até violoncelo :D Todas as pequenas citações são do mesmo capítulo do livro Alice's Adventures in Wonderland and Through the Looking-Glass, do senhor Lewis Carroll (Edição de 2001, da Bloomsbury Publishing Plc, London UK), e se encontram nas páginas indicadas. Espero que vocês se divirtam com a história do Homem do Chapéu. E, quem sabe... Eu sempre posso encontrar pessoas interessantes no trem...

(Originalmente postado no Vegetando em 26/1/2011.)