A saudade transforma o resto de mim em
jardim.
Tocar a grama é como afagar teus cachos
e pelos.
Raízes enroscam minhas mãos como se
fossem teus dedos.
O campo deixa teu cheiro no vento.
E os pássaros cantam o som do teu riso.
Fecho os olhos.
Permaneço deitada e imóvel,
Pois dezenas de joaninhas percorrem meu
corpo.
Não quero esmaga-las mas
Temo que entrem pelos meus ouvidos, boca
e narinas.
Causam-me cócegas e angústia.
As vezes penso que possa ser amor,
Talvez seja algo mais a ver -
Com florescer.
Rhuana Caldas – Breve
Ensaio Sobre a Saudade
-
Sabia que a saudade floresceu em mim hoje? Sabia que fechei os olhos e ouvi tua
voz, e de repente eu caminhava sobre a grama do teu cabelo e enroscava meus dedos
nas suas raízes, e nada mais me importava, porque podia sentir teu cheiro? Teu
cheiro, teu cheiro no meio das flores, no campo, no vento, não quero nunca mais
perder o sabor que trouxe o teu cheiro pra minha boca, não quero nunca mais deixar
de ouvir teu riso, teu riso é a música mais linda que já me tocou, beijou os
ouvidos, ‘tá me ouvindo? Quero fazer minha voz te beijar como a sua me beijou,
quero enroscar seu riso no meu, mas eu fico, eu fico aqui, parada, deixada para
trás, coberta pelas patas e asas da minha angústia e do meu medo, queria abrir
os olhos e correr por esse jardim e te ver, queria te ver, queria te ver, você
vem? ‘tá me ouvindo? Você pode vir, pode me ver? Queria correr, queria te ver,
te ouvir, sinto saudade no fundo das minhas raízes e penso que você devia estar
aqui comigo, nesse lugar, nesse jardim, mas o medo tateia e passeia por mim,
consegue me ouvir? Por que você não vem? Por que você não vem? Não ouviu que a
saudade já está em flor, que hoje já é primavera? Vem, vem, me escuta, escuta
o pássaro do meu riso encontrar o seu, escuta o sol nascendo e despertando a
vida nesse jardim, escuta que eu já te escutei e não quero me enterrar no meu
medo, como você se enterrou no seu... –
click.
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Após imensa enrolação, texto do Desafio Interblogs, inspirado/resposta/relacionado ao aqui reproduzido poema Breve Ensaio Sobre a Saudade da talentosa Rhuana Caldas, do Memórias Meio Sóbrias (confiram o blog dela ;p) Acho que acabei enrolando no próprio texto. E roubando uma ideia antiga da Ludmila Monteiro 8D Well, é a vida. Críticas, elogios, sugestões, pensamentos e sensações?

Nossa, Rafa, não esperava algo tão meigo. Acho que você transcreveu as entrelinhas ocultas.
ResponderExcluiros dois textos trazem a tona algumas sensações antigas mas o -click. é o momento mais dramatico.
ResponderExcluirNão sei, no início imaginei algo romântico mas depois viajei como se o texto fosse uma fábula sobre uma mulher abandonada transformada em árvore, como uma ninfa.
ResponderExcluirOlha, esses desafios interblogs/interautores são uma ideia MUUUUUUUITO boa. É produção-leitura-diálogo no lv. 99 e pode muita coisa bacana surgir a partir daí. MOAR, MOAR!!!!
ResponderExcluirMaravilhoso!!!!! Esse é o papel mais sublime da metáfora : descrever o indescritivel . PARABÉNS
ResponderExcluirMaravilhoso!!!!! Esse é o papel mais sublime da metáfora : descrever o indescritivel . PARABÉNS
ResponderExcluir8D não sou mto de romance, então não deu pra sentir muita coisa com esse texto. mas aí o problema não é do texto.
ResponderExcluircaralho! muito bom! é muito vivo. acabei partilhando dessa angústia e dessa vontade.
ResponderExcluirlembra 'para uma avenca partindo', do caio fernando abreu (único texto que gosto dele).
Gostei muito mesmo, Inhame! Tocou o coração
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