sexta-feira, 20 de julho de 2012

A arte no ócio: Especial do Dia do Amigo




- Macarrão -


Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

Yuri jogou os pedaços de queijo branco no molho do macarrão e ouviu risos vindos da sala. Natália estava mostrando algumas fotos da viagem para Levi, Cássia e Marília. Ele podia ouvir a voz da amiga de colégio dali, no tom familiar de quem conta uma história e fascina com as palavras.

Natália sempre havia tido jeito para contar histórias, falando e principalmente escrevendo. E ele, Levi e Cássia, principalmente, haviam passado anos aturando as consequências desse talento – que envolviam ser acordados de madrugada por telefonemas perguntando o que pensavam de sátiros que ouviam blues e aturar um sem número de humores estranhos induzidos por bloqueio criativo e overdose de açúcar.

Yuri riu consigo mesmo ao lembrar do tipo de coisa em que Nat o havia metido. Sua mãe nunca deixara de suspeitar da história de se trancar numa sala de artes da educação infantil para zerar jogos de Final Fantasy, mesmo mais de três anos depois.

Também tinha o fato de que ele ainda não havia encostado no último jogo da série, que fora lançado em abril daquele ano, apesar de já estarem a poucas semanas do Natal. A ideia de zerar todos os jogos de Final Fantasy havia sido de Natália, afinal.

Ele se perguntou se ela ainda se lembrava daquilo. Já haviam se passado três anos, afinal.

- Tá pronto! – avisou Yuri, levando a comida para a mesa, e lançando o aviso familiar: - Acho bom vocês deixarem pra mim!

Ele esperou que Levi ou Cássia gritassem a resposta usual para aquela piada que haviam começado anos antes, na primeira vez em que ele cozinhara alguma coisa para os amigos. Ao invés disso, Natália encontrou seu olhar e deu um sorriso maligno muito familiar antes de anunciar:

- Alguém amarra o cozinheiro!

Yuri gargalhou, e fingiu levar o macarrão de volta para a cozinha.

Três anos não haviam sido absolutamente nada.

- Perda -

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Cássia estava deitada no sofá de casa, olhando pela janela. Estava chovendo. Havia começado pouco depois de ela atender ao telefone, e ainda não parara, mesmo que já fizesse mais ou menos meia hora desde que ela recebera a ligação do tio.

Ele estava tentando encontrar seu pai, naturalmente, mas tanto ele como a mãe de Cássia já haviam saído para trabalhar. Então ela fora a primeira da casa a receber a notícia da morte da avó.

Cássia havia tentado ligar para algum dos dois, mas eles não haviam atendido ao telefone – provavelmente, por conta de reuniões. Então ela teria que esperar mais um pouco. Em casa, sozinha. E estava chovendo.

Eu pensava que isso era um recurso narrativo super utilizado, pensou Cássia, observando a chuva. A coisa de chover em funerais.

Um soluço veio de seu peito, e ela cobriu a cabeça com uma almofada.

Foi então que a porta do apartamento se abriu.

- Cássia?

Cássia olhou para a porta um segundo antes de o grupo entrar e caminhar até ela. Ela nunca se dava ao trabalho de trancar a porta de casa quando estava esperando pelos amigos, porque não ouvia a campainha tocar mesmo. Natália sentou de um lado e Levi do outro, ambos a abraçando e falando em voz baixa enquanto Yuri e Marília se acomodavam na frente do sofá.

E mesmo que por um segundo, Cássia sentiu alívio.

Ela não estava sozinha. E dor que se divide com os amigos é uma dor dividida ao meio.


- Música -

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

Levi se despediu de Alice e voltou pelo caminho por entre alguns coqueiros para a parte da praia em que havia deixado os amigos. Era o aniversário de Marcelo e, por algum motivo, eles haviam acabado na praia durante a noite, com seu violão (e possivelmente algumas garrafas de bebida alcóolica). Como já era madrugada, a maior parte dos convidados já estava indo embora, como Alice.

Ele, Yuri, Natália, Cássia e Marília, porém, tinham obrigações como a praga particular do mestre de RPG dos tempos de colégio.

- Nesta noite o amor chegou... Chegou para ficar! E tudo está em harmonia e paz... Romance está no ar!

Uma careta formou-se no rosto de Levi ao ouvir o coro acompanhado por notas extremamente desafinadas de violão que o receberam ao retornar ao ponto em que deixara os amigos. Aparentemente, Yuri havia conspirado outra vez para tirar onda da sua cara, as gargalhadas do grupo provando que fora vitorioso. Ele caminhou até o amigo e tomou o instrumento que deixara com ele de suas mãos.

- Você é péssimo. – declarou sem piedade.

- E você vai deixar de ser nosso músico particular por um rabo de saia qualquer dia desses. – retrucou Yuri, sem um pingo de vergonha.

- Um ‘rabo de saia’? – repetiu Levi. – Sério, Yuri?

- Eu mantenho minha afirmação!

- Você tem problemas sérios.

- Você vai mesmo, hein, Levi? – perguntou Marília, chutando areia na sua direção. – Vai parar de tocar nas nossas festas instantâneas por causa de mulher?

Levi sorriu torto, e respondeu puxando uma música:

- Hakuna Matata! É lindo dizer!

Em segundos, o grupo inteiro estava cantando – ou gritando em alguns casos:

- Os seus problemas, você deve esquecer... Isso é viver! É aprender! Hakuna Matata!

- Carta -

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

Natália mordeu a tampa da caneta e parou um segundo depois, repreendendo a si mesma pelo mau hábito. Ela estava quase no fim do texto do cartão que ia enviar para os amigos mais próximos naquele 20 de julho. Só precisava de mais alguma coisa, algo que expressasse tudo que sentia com relação a eles.

Por um momento, ela pensou nos amigos. Em Yuri, que conhecia desde criança e frequentemente atormentava com suas ideias e esquemas estranhos, nos quais ele a acompanhava lealmente e porque, mesmo que negasse, também estava se divertindo. Em Cássia, que passava mais tempo desenhando ou dormindo que qualquer outra coisa, mas que sempre estava pronta para receber a todos a qualquer hora. Em Levi, que sofria as brincadeiras de todo mundo sabendo bem o que eles estavam dizendo por baixo das palavras – tanto que continuava com eles até hoje. Em Marília, em Marcelo, Alice e Sammi, e tantos outros...

Natália sorriu, e escreveu: O que me importa é que tive amigos, e os tendo tido uma vez, os terei sempre. Pois ficará comigo a memória de seus sorrisos e lágrimas, de seu canto e riso, de seu carinho e palavras. E se me for permitida mais uma bênção além de manter tudo que eles me presentearam, a memória do meu amor por eles também ficará com todos, hoje e sempre, e isso será mais que o bastante para manter viva nossa amizade.

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Texto especial do Dia do Amigo, para todas as pessoas que riem e choram comigo, que já muito riram de mim, e que estão sempre por perto quando eu preciso - mesmo que não literalmente. Os trechos são parte do Soneto do Amigo, de Vinícius de Moraes. Os personagens utilizados são parte de uma série que futuramente será apresentada aos que a desconhecem, chamada A arte no ócio. Espero que todos tenham gostado e feliz dia do amigo!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Exercício Criativo: God Save the Queen



Pronto, agora já nos conhecemos, para ser sincero, outrora fui um admirador seu. Até imagino o que está pensando "Ó pobre rapaz, tem uma queda por mim, uma paixão juvenil." Perdoe-me, mas não é este o caso. Eu dizia a meu pai. "Quem é aquela moça?" E ele respondia. "É a Madame Justiça." Ao que eu replicava "Como é bela."
Eu a admirava, apesar da distância. Ainda criança, ao passar na rua admirava sua beleza. Por favor, não pense se tratar apenas de atração física, eu a amava como pessoa, como ideal. Isso foi há muito tempo, agora confesso que há outra... "O que, que vergonha V, traindo-me com uma meretriz de lábios pintados e sorriso vulgar!" Eu, Madame? Permita-me uma correção. Foi sua INFIDELIDADE que me arremessou aos braços dela!
Ahá, ficou surpresa, não, pensou que eu não sabia de suas escapadelas? Enganou-se, eu SEI de tudo. Na verdade, não me surpreendi quando soube que você FLERTAVA com homens de uniforme. "UNIFORME? E-eu, não sei do que está falando, sempre foi você, V o único em minha vi..."
MENTIROSA! MERETRIZ! Ousa negar que se deixou envolver por ele, com suas braçadeiras e botas?
...
Ah! O gato comeu sua língua? Foi o que pensei. Muito bem, a verdade foi revelada, você não é mais MINHA justiça. É a dele. Recebeu outro em sua cama. Faça bom proveito de seu novo amante.
V de Vingança – Alan Moore e David Lloyd


Você tem que admitir, ela é uma garota bonita.

Mais que bonita, provavelmente, mas não sejamos vulgares.

Ela tem um cabelo incrível, e olhos que brilham quando não estão vermelhos e inchados.

Um corpo de matar por baixo da roupa apertada. Uma boca perfeita, particularmente quando não está falando.

Quando está ocupada, se você sabe o que eu quero dizer.

Ela é um símbolo de tudo que há de bom.

(e provavelmente de todo o resto também)

Ela é uma garota como nenhuma outra.

Todas as outras querem ser como ela.

(mesmo as que são muito tímidas/hipócritas/ingênuas para admitir)

Todo mundo está de olho em cada passo dela. Todos os olhos em suas roupas (ou falta delas), na tinta do seu cabelo, na fila de ex-namorados (as), ex-maridos (esposas), ex-amigos (as), ex-alguma coisa.

Todos os olhos na maquiagem borrada, nas garrafas e copos vazios, nos restos de cigarro, comprimidos e agulhas usadas...

Um banquete para os olhos.

Todos atentos a ela, e ao próximo passo que ela dará.

Como se não soubessem que, no fim, ela não vai a lugar nenhum.


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Os exercícios criativos retornam! Só tenho a dizer em minha defesa que estava entediada, e que o computador tem muita música. Então, God Save the Queen, que não tem muito a ver com a Inglaterra, ou a Rainha da Inglaterra. Ou com a letra da música. Eu só percebi que estava pensando em V de Vingança depois que terminei o texto. Se bem que, honestamente, eu estava pensando muito no Brasil também. Tenho mais uns três textos que vou colocar aqui em breve (súbito surto de produtividade), um deles (ou dois, dependendo do seu ponto de vista) também nasceu de um exercício criativo. E aí perdeu o controle.

Espero que gostem, feedback é altamente apreciado.

domingo, 10 de junho de 2012

The birthday gift




The boy ran through the streets on that day feeling as if his feet would never be up to the task. Panting, he could feel the sweat on his face cooling rapidly against the wind.

He was late.

The park was quite empty around that time of the day, when the sun was about to set – not that it was uncommon for it to be empty, it wasn’t the most popular spot, just the usual one, nothing else, nothing more. Still, he saw the shadow of a person sitting on a swing, and his lips curled up.

Maybe he still had a chance?

“Ava!” the boy called as soon as he stepped into the playground. “I’m sorry!”

A head turned in his direction, throwing coppery-blond curls over the girl’s shoulder, and her face frowned.

“You’re late” she told him sternly. “Why are you always late?”

His smile strained, the boy stopped behind the swings, and adjusted a large hat on his head while attempting to recover his breath. “I’m sorry” he repeated. “I… Got lost?”

The girl rolled her eyes. “Really?”

Apparently deciding to go on with it, the boy nodded, very seriously. “Really. It was a terrible experience.”

“I’m sure it was traumatic.” The girl scoffed, turning her back to him and pushing down with her feet. “I really don’t know why I still put up with you!”

The boy jumped to the side to avoid being hit by her swing. “Because I’m an incredible and fascinating person…” he told her, walking until they could look at each other without violent results. “And because I have a birthday gift for you.”

“Of course…” she pushed down again, gaining some speed and altitude. “The amazing late gift!”

He scowled at this. “Last time I checked, today is still your birthday, Ava.” He reminded her.

“Yeah,” she agreed. “and I’ve been here for almost two hours!”

That made him flinch, and cough a little embarrassedly, “I said I was sorry for that.”

“Indeed,” the girl suddenly jumped off the swing, landing on her feet. “you said that.” She straightened her clothes and raised an eyebrow towards him. “Well? Where’s my gift?”

The boy clasped his hands behind his back and smiled at her, the hat’s brim hiding most of his eyes. “Your gift, my dear Ava, is not something I can simply give or show you… But something I have to tell you.”

“… It’s a story.” She shook her head. “Another story.”

“Don’t speak like that” scolded the boy. “Have I ever, in all the time we’ve known each other, told you the same story twice unless asked?” he saw her lips curl when she turned her head away, and grinned, stepping closer. “Have I, Ava, the sole voice of reason in this mad little world I’ve been forced to live on?”

The girl tried to muffle a giggle, but wasn’t very successful. “No,” she admitted. “you never tell your stories twice, and you never tell them in the same way.”

“There you go!” he said, victorious. “And based on that, don’t you think any story I tell you as your birthday gift would be beautiful, unique and special, in honor of the one to whom the gift is destined?”

Ava hummed, and curled her lips in a smirk. “Unique and special” she said, “mean the same thing.”

The boy didn’t lose a beat. “It’s for emphasis.” He answered, following while she walked through the playground. “Will you give me the pleasure of listening to my story, then?”

The girl turned to face him, challenging smirk in place. “Sure, why not? It’s my birthday gift, after all…”

He grinned broadly at that. “Will you, really? Thanks, Ava!”

“You better start soon, or I’ll change my mind…”

“No need for that.” He took a deep breath. “Once upon a time…”

She couldn’t help but laugh. “Really?”

“Will you let me tell my story or not?”

“I thought it was my story. My birthday gift.”

“It won’t be until I tell you, so listen quietly, please?”

“Ok, ok…”

The boy still glared a little, but breathed again, and repeated: “Once upon a time…”

… there was a girl who walked over this land. Her hair was like gold and copper, and her laugh and voice were the most beautiful music that anyone has ever heard. While this girl naturally knew many people, and was loved by many more, she found time within her life to befriend this lost fellow, who thought himself a good storyteller, and an even better liar…

“Did she, now?”

“Shh, let me finish! Her friendship was precious to him, in spite of their differences…”

… and he wished to repay her kindness somehow. And since it was what he did best, the fellow told her a story, a beautiful tale which he advised her to keep as well as she would keep her own name…

“Why her name?”

“Is there anything you keep as well as your own name?”

“…You’ve got a point.” She looked thoughtfully towards an ice cream cart while they walked. “What’s the point of him telling the story if she wasn’t supposed to tell anyone about it?”

The boy shrugged, “You should always tell the stories you’re supposed to tell, and you should always pay the debts you own.”

“Funny, I don’t remember you following the last one…” mocked the girl, receiving an innocent look in answer. “And what about the stories you’re not supposed to tell?”

He smiled, “The rule says nothing about them.”

She laughed, louder than anyone would ever hear her laugh, “You are the worst, you know that?”

“I am” the boy said, pulling something from his back and presenting it to her. “merely me. Not the best, nor the worst, Ava.”

A surprised smile appeared in her face, but she accepted the ice cream gladly, “Is it blue?”

“Of course.” He answered, adjusting his hat again before offering his hand. “Now, shall I tell you the end of the story, my dear?”

The girl tasted her ice cream, and laughed again, more quietly. “Sure…” she said, holding his hand with her free one. “I’m sure it’ll be an unforgettable tale.”


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If I ever forgot your birthday, this story is for you. Sorry about the lack of revision, and any mistakes you might have found. And sorry about the weird parts.

I wonder why everytime I write a story in english, there's someone with a hat...?

sábado, 26 de maio de 2012

Coerência





E quanto àqueles que duvidam
de minha sanidade,
sinto desapontá-los,
mas ela está aqui bem segura
dentro de mim.
Talvez um pouco arranhada
pelo descaso do mundo.
Talvez um pouco inflamada
pela falta de respeito dos homens.
E definitivamente decepcionada
com as más escolhas de muitos.
Mas presente, inegavelmente,
por trás de todo meu riso
inconsequente
e por trás de todo meu pranto
incoerente.
Isso sem falar nas minhas palavras cruéis.
Definitivamente, uma mente sã,
capaz de responder por seus erros
e acertos.
Se está difícil de acreditar,
talvez você só tenha que olhar mais de perto.



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Coisa velha, data original é algum momento de 2010, provavelmente. Um exemplo do tipo de coisa-estranha-similar-a-poesia-mas-não-exatamente que de vez em quando me vem. Breve incia-se algo mais interessante por aqui. E sim, é uma SÉRIE. Aguardem ;)

sábado, 31 de março de 2012

Drunken Lullabies



Nós caminhamos cantando
Porque sabemos melhor
Do que todos aqueles que julgam
Que apontam, que aparecem
E que acham que o tempo passou.
Nós caminhamos cantando
Porque estamos juntos
Porque podemos andar
Com nossos próprios pés
Porque podemos cantar
Com nossa própria voz
Porque podemos viver
E porque estamos vivos.
Nós caminhamos cantando
E caminhamos juntos
Por uma estrada que se estende
Atrás de nós, em nossa memória
E à nossa frente, infinita em possibilidades.
Nós caminhamos cantando
E vamos seguir em frente.

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Presente de aniversário para Filipe... Nos últimos minutos do dia, mas ainda assim, tá valendo! ;) Espero que goste e que te faça lembrar de alguns bons momentos. Parabéns e continue sempre sendo a pessoa incrível que você é! (Mesmo que seja tirando onda da minha cara. Ou do Kayo. Especialmente do Kayo :p)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Múrmurios e Canções



Do diário de viagens de Megan Iolair, historiadora da Biblioteca de Rosetta.
Aridez Sombria de Al-Gober, 17 de Beltane.

Grande parte do território da nação de Al-Gober é coberta por um deserto de areias cinzentas e negras, conhecido pelo nome de Aridez Sombria. Um indivíduo que se encontre neste lugar pode olhar para todas as direções e enxergar apenas dunas e dunas de areias negras sob um céu quase sempre tão escuro quanto elas. É como encarar a pintura de um mar sombrio, com ondas congeladas pelo tempo, exceto pelos momentos em que a estranha brisa as faz ondular quase imperceptivelmente. E então, em uma questão de segundos, tudo pode estar completamente diferente....

Os olhos de Megan se estreitaram de leve para o deserto. Lugares como aquele eram sempre traiçoeiros para os viajantes – um indivíduo poderia se perder, sair do rumo, e encontrar coisas que eram no mínimo incômodas sob as areias sombrias – mas o deserto das dunas negras tinha algo a mais sob suas ondas escuras.

Alguma coisa cantava nas sombras e cinzas dos pés que haviam pisado naquelas dunas centenas de anos antes. Era uma música estranha e abafada, mas que falava de um tema apenas.

Uma canção de medo.

- Megan?

Os ombros da jovem cigana se retraíram inevitavelmente – não importava que o nome e a voz lhe fossem familiares àquela altura, pertencentes a alguém em quem ela confiava sua própria vida em batalha – aquele lugar interferia nas reações das pessoas. Ela mirou o vulto que se aproximava, um soldado jovem de porte considerável que ainda assim caminhava com uma parcela de silêncio através do acampamento adormecido. Megan lhe fez um aceno com a cabeça, a longa trança de cabelos loiros escorregando para fora da capa com que se cobria, e ele se acomodou ao seu lado, olhos como os de um falcão conferindo o perímetro mesmo quando murmurou:

- Não creio que seja seu turno de guarda, senhorita cronista.

Os lábios dela se repuxaram de leve ao ouvir aquilo. Títulos, todos os homens precisavam de títulos. Aquele era recente ainda, e de certa forma, não muito diferente do que ela fazia antes de recebê-lo: ouvir histórias, viver histórias, contar histórias. Mas se queriam um título, ela usaria um título; se queriam histórias, lhes daria histórias. Estava ganhando algo em troca, afinal, e aquilo era o que interessava.

- Não tenho sono. – respondeu ao cavaleiro, a voz suave como a brisa não parecia capaz de ser, por mais que o tentasse. – Algumas noites, penso que essa terra o roubou de mim.

As palavras soaram sombrias em seus próprios ouvidos, e ela se ajeitou no local em que estava sentada, puxando a capa para mais perto. O cavaleiro lhe concedeu um breve olhar, sem desviar a atenção de sua tarefa.

- É um lugar um tanto inquietante, eu admito. – ele falou. – Mas precisamos de todo descanso que pudermos conseguir antes de alcançar nosso destino. Não sabemos o que podemos encontrar naquele lugar.

‘Aquele lugar’. O lugar misterioso marcado num mapa roubado e que era seu destino agora, talvez o final da missão que os levara àquela terra em primeiro lugar. Eles chegariam lá talvez na manhã ou noite seguinte, se seu guia não errasse o caminho. O lugar que não parecia existir fora das histórias.

As Torres do Mar Primordial.

- Eu compreendo, major. – murmurou Megan, permitindo-se apoiar o queixo sobre os joelhos cobertos, num hábito de infância de que nunca conseguira se livrar por completo. – Não deixa de ser uma tarefa difícil, ainda assim, conseguir descanso numa terra como essa...

- Se você pode parar por um momento, faz bem em buscar repouso e prontidão para a próxima batalha. – o cavaleiro recitou o dito militar com precisão formal, porque era o que era esperado dele, mas voltou a desviar a atenção da vigília por um instante para encará-la. – O que tem essa terra, Megan?

Por alguns segundos, a jovem cigana guardou seu silêncio e deixou o olhar se perder na areia que se espalhava diante de seus pés, em todas as direções. Areia negra, negra, como sombras e cinzas, em todo lugar. Seus olhos se permitiram fechar, confiando nos olhos atentos do companheiro, e ela inspirou profundamente o ar do deserto, antes de murmurar lentamente as palavras:

- Essa terra... – e, se havia uma mágoa amarga, um desgosto incontrolável na voz controlada, nenhum deles iria admitir ou lembrar quando viesse a manhã. – Como qualquer outra terra... Canta... Tão baixo que poucos ouvidos se dão ao trabalho de ouvi-la... Ainda assim, ela canta sempre, sem nunca parar em momento algum... – seus olhos escuros se abriram de novo, e, se estavam ainda mais escuros naquela noite, ninguém seria capaz de dizer. – Uma canção apenas... Uma mesma canção...

- Qual? – o cavaleiro indagou, porque no diálogo habitual que eles haviam criado, era esse o seu papel.

Megan olhou para o alto, então, para o céu que, sobre aquele lugar, parecia ter estrelas opacas, distantes e pálidas demais para servir de consolo.

- ...Medo. – ela respondeu por fim, e a palavra os cobriu como cobria a todo o deserto, como um cobertor de sombras.

Que noite escura aquela estava sendo.

- Medo. – repetiu o outro, com uma calma que a palavra desmerecia ou espantava, e seu olhar foi atraído por ela. – E você não sentiu isso antes, senhorita cronista? Não ouviu essa canção no caminho que fizemos até aqui?

Os lábios da violinista se estreitaram ligeiramente.

- Existe medo em todo homem, mulher ou criança. Não importa a raça, a cor, o caminho... Todos dividimos esse mesmo terror... – ela tentou sorrir de novo com os cantos dos lábios, mas a expressão empalideceu diante das palavras. – Talvez nós vivamos nossas vidas inteiras tentando escapar da memória desse horror, major.

A expressão do cavaleiro era uma muralha de neutralidade, ainda assim, quando ele a encarou.

- E ainda assim, você não caminhou até aqui conosco? Não lutou como nós lutamos, e gargalhou quando sua vida estava em risco?

As sobrancelhas da cigana se ergueram ligeiramente, sua expressão tomando um surpreso ar de diversão.

- Eu? Tem certeza disso, major?

Ele se ergueu de onde havia sentado, permitindo-se um ligeiro dar de ombros enquanto seus olhos voltavam a correr pelos arredores.

- Eu não sei, senhorita cronista. Não é você que decide como contar as histórias?

Um som que quase pareceu um riso escapou de Megan, e ele se despediu com um aceno, voltando ao ponto de onde mantinha seu turno de guarda. A jovem balançou a cabeça, e encarou o deserto negro ao seu redor mais uma vez, permitindo-se pensar nas palavras ditas e não ditas.

Francamente.

Não era como se ela mesma não compusesse canções ou contasse histórias, era? Todo artista sabe que fazer as coisas muito fáceis é o caminho para a falha.

Megan deu um sorriso que talvez não pudesse ser chamado assim para a aridez sombria, e sussurrou suavemente com raiva, humor, desprezo, conformidade e rebeldia se misturando em cada palavra:

- Os finais são todos iguais mesmo... Ao menos assim, nós nos livramos do tédio, hm?

Ela apanhou de novo a pena e tinta, e o manuscrito interrompido.

... Estudiosos afirmaram que algumas das primeiras civilizações humanas podem ter surgido nesta nação, e o sussurro das areias escuras deste deserto parece ratificar este fato. Existe algo de sombrio como os próprios Áridos na história deste lugar. Esse conto se manifesta na canção dos ventos do deserto, para aqueles que podem ouvi-la.
Caminhando por estas terras numa missão da qual não haverá retorno sem sucesso, quem sabe eu e meus companheiros desvendemos os acordes de Verdade para uma canção muito mais antiga que nós mesmos.

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O texto acima se passa no universo Crônicas do Mar de Prata, criado por Marco Fischer. Dos personagens presentes, apenas a Megan é criação minha, o cavaleiro pertence ao amigo escritor e jogador, Uiberon Araújo. Para maior compreensão do conto, é aconselhável leitura do background da nação Al Gober no Mar de Prata. Fotografia de autoria própria, como todas as outras no blog (excetuando as devidamente creditadas).

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Strange Gifts



Foi um presente, o colega havia dito. Uma ilustração que um artista conhecido seu fizera, colorida com belas cores e colocada num quadro para ser pendurado numa das paredes.

Pessoas gostam de quadros. A afirmação é justificada com toda a história da humanidade desde o primeiro desenho feito na pedra, e continua sendo verdadeira até hoje.

Pessoas gostam de quadros.

(Ninguém nunca perguntou se os quadros gostam das pessoas).

Ele observou o quadro longamente. Era uma jovem de cabelos dourados tornados verdes na ilusão causada pela água com que a tinta a cobrira. Sua pele também, pálida que era, parecia esverdeada com as escolhas do artista para refletir os estranhos efeitos da luz refletida no lago coberto por flores de lótus. O vestido, incapaz de se decidir entre azul e negro, estava congelado, colado ao corpo onde este se elevava acima da água, ou flutuando numa dança sob ela, como algo etéreo e sem forma.

Os olhos dela estavam fechados.

Ela era linda.

Ele virou-se para o colega, e perguntou: Ela está morta, não está?

O outro sorriu. É de mau gosto, não é? Contou que já teria se livrado da peça muito antes, se não fosse a pena. Meu amigo demorou semanas pra terminar o desenho. O artista não se ofenderia, mas ele não conseguiria simplesmente jogar (ela) fora.

Ele olhou de novo para o quadro. A garota tinha um rosto bonito, apesar da palidez, com um nariz bem desenhado, faces que ainda conservavam a sombra de quando haviam sido coradas e uma boca de lábios delicados. Seu cabelo claro aparentava uma curiosa delicadeza também, e ele poderia até imaginar que, se fosse capaz de tocá-lo, seria macio como seda.

Ele não poderia tocar um desenho.

Eu posso ficar com ele?

O colega havia ficado ligeiramente surpreso, mas apenas por um momento, ele notou, mesmo ao ouvi-lo perguntar se tinha certeza, se não era mesmo nenhum problema, se havia espaço em seu apartamento, e todas as outras perguntas obrigatórias para aquele tipo de situação.

Talvez ele houvesse percebido a beleza silenciosa do retrato, apesar de tudo, e compreendesse. Talvez ele só quisesse mesmo de livrar do quadro. O caso é que, no fim da noite, ele dirigiu para casa com a pintura acomodada no banco do carro, e a pendurou no lugar de uma velha imagem da praia que tinha no escritório.

Parecia perfeito.

Os dias passaram, as noites passaram. Ele chegava de uma reunião e, como sempre, passava horas no cômodo, escrevendo o roteiro ou fazendo pesquisas, tendo apenas o silêncio por companhia. E agora, também, a jovem do quadro. Ocasionalmente, quando a mente caia no branco entre a inspiração e a produção, ele apoiava o queixo numa mão e deixava os olhos passearem pelo lugar enquanto pensava.

Com frequência, eles encontravam o retrato.

(Estou te vendo).

De início, após alguns minutos contemplando a imagem, ele voltava ao trabalho, mas com o tempo foi custando mais. Ele notaria algo de novo, uma curva que o cabelo fazia, uma marca desenhada cuidadosamente no rosto, a corrente do medalhão pendurado em seu pescoço, a forma como o vestido lhe desenhava a curva dos seios, os cílios claros e longos, o traço gracioso dos lábios...

E finalmente chegou ao ponto em que olhar para o retrato significava todo um dia de trabalho perdido.

Era uma distração que ele não poderia se dar ao luxo de ter quando seu trabalho estava num ponto tão crítico, então, com pesar, ele removeu o quadro de sua posição e o pôs no chão junto à estante, voltado para a parede.

Apesar do desconforto, ele trabalhou no roteiro por mais horas do que havia conseguido durante toda a última semana. Era um bom avanço. Talvez ele conseguisse terminar ainda naquela semana, antes do prazo acabar. Talvez. Talvez ele parasse de sentir um par de olhos o observando quando o sono batia.

(Meus olhos estão fechados).

Naquela noite, ele sonhou ao dormir, com água, e flores de lótus, e com um corpo que pesava, desabando cada vez mais fundo e mais longe da luz da superfície.

Muito fundo, ele pensava. Tenho que voltar, tenho que voltar... Mas seu corpo afundava, afundava na escuridão entre as plantas e as criaturas que viviam no fundo do lago, cada vez mais fundo e mais distante do mundo e da luz...

Ele acordou respirando com tanto desespero que, por alguns instantes, se convenceu de que, de fato, quase havia se afogado. Devagar, deixou a cama e o quarto na intenção de ir até a cozinha, beber um copo de água ou uma xícara de chá, mas, no caminho, encontrou a porta do escritório entreaberta.

Seus pés o levaram até o canto da estante quase sem que ele percebesse. Ele se abaixou e apanhou o quadro, e olhou para o retrato.

No escuro, a cor pálida da pele da jovem parecia ainda mais bonita e, olhando para seu rosto, ele teve a impressão de que ela estava adormecida.

Você está tendo algum sonho bom?, ele se ouviu sussurrar, muito baixo, e as palavras pareceram pairar pelo cômodo escuro.

Por um segundo, lhe parece que os olhos da jovem no quadro poderiam se abrir a qualquer momento, agora que ela tinha algo além da parede para ver.

(Não).

Ele pendurou o quadro no lugar de antes, e voltou para a cama.

Quando saiu de uma reunião no horário de almoço do dia seguinte, encontrou o colega que visitara algumas semanas antes, e os dois saíram para comer juntos num restaurante próximo. E inevitavelmente o assunto acabou indo parar no quadro.

Por que seu amigo o pintou?

Era a pergunta que quisera fazer desde o início, ele se deu conta, e o sorriso que surgiu no rosto do colega indicava que ele também percebera. Ele lhe contou então que, pouco antes de começar a trabalhar naquele quadro, o artista passara por uma terrível desilusão amorosa.

Acho que a moça foi bem cruel com ele, falou. Pelo menos o bastante para ele ficar com um ódio terrível dela.

E o quadro foi a vingança?

O outro dera de ombros. Ele estava realmente furioso com ela. Não conseguia deixa-la ir, eu acho. Não até terminar o retrato, e passa-lo para mim. ‘Eu não quero’, lembro que ele falou. ‘Não me serve mais pra nada’.

‘Não me serve mais pra nada’.

Ele chegou em casa tarde naquela noite, e foi logo para o escritório. O prazo havia diminuído ainda mais por decisão dos produtores. Eles queriam a primeira versão do roteiro para o dia seguinte, pois precisavam analisa-la e decidir se iam continuar ou não com o projeto. Ele sabia que precisava apresentar pelo menos um texto completo para ser considerado, então precisava terminar aquilo naquela noite de qualquer jeito. Mas o primeiro passo para dentro da sala o fez congelar.

Ela estava lá, exatamente onde ele a deixara. Bela e morta, congelada nos traços e cores de um artista vingativo.

Muito quieto, ele se dirigiu de novo até parar diante do quadro, olhos observando o rosto. Seria possível que ela estivesse apenas dormindo? Que não estivesse morta, mas que apenas sonhasse, presa entre a moldura, o papel e as tintas?

(Eu me pergunto qual seria a pior opção).

Com mais esforço do que seria considerado saudável, ele se obrigou a dar as costas à pintura e voltar-se para o trabalho. Em pouco tempo, descobriu que era impossível se concentrar – as palavras não se juntavam, as ideias perdiam o rumo, nada fazia sentido e, sutilmente, a ideia de cachos de cabelo úmidos em seus dedos e uma boca pequena e adorável se infiltrava em sua mente.

Havia passado da meia-noite quando ele desistiu, e se levantou.

Devagar e com uma delicadeza cautelosa, ele tirou o quadro da parede e sentou-se no chão, o colocando de pé diante de si. Ela era lindíssima. Por um infinito de segundos, ele apenas a observou em todos os seus detalhes de rosto, corpo, cabelos, cílios, olhos...

(Meus olhos estão fechados).

Sua boca se abriu, e ele sussurrou a pergunta:

Você poderia abrir seus olhos para mim?


E então ele sonhou que afundava no lago entre as flores de lótus, que caia lentamente, cada vez mais longe da luz, até sentir um par de braços esguios e gelados o envolvendo, e um corpo se enroscando no seu na escuridão.

E, por fim, ele também fechou os olhos, e adormeceu.

...

Era para ter sido um texto de Dia das Bruxas. Por conta da minha incrível habilidade de procrastinação, foi empurrado para Dia de Finados, só que depois de passar o dia inteiro entre os dois maiores cemitérios de Maceió apurando informações e entrevistando gente para uma reportagem e ganhando queimaduras de sol de brinde, eu estava sem coragem para terminar. Então ficou para hoje. A ideia partiu dessa imagem que meu querido amigo Bardo fez o favor de me mandar na madrugada do Dia das Bruxas, sem avisar que era um gif. Eu quase tive um ataque cardíaco quando ampliei. Espero que tenham gostado do primeiro texto inédito do Melodia, de qualquer forma :)