quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Exercício Criativo: Whatsername








Era uma história cheia de “se”s.
Se ele não houvesse decidido sair naquela noite, se não houvesse ido para aquele lugar, se não tivesse bebido aquela cerveja, olhado para aquele lugar.
Se os olhos dele não a houvessem encontrado sozinha, se ela não estivesse sorrindo, talvez com a música, talvez com Deus sabe o quê.
Se ele não houvesse ido até lá.
Se eles não houvessem trocado algumas palavras sem jeito, se ela não houvesse rido do que ele falara aos gritos por cima do som alto, se ele não houvesse dito o quão bonitos eram os olhos dela (e se aquilo não fosse tão profundamente clichê).
Se a música não tivesse acabado.
Se ele não houvesse dito “esse lugar é um saco”, se ela não houvesse concordado, se ele não tivesse as chaves do carro e uma língua incontrolável.
Se ela não houvesse dito sim.
Se não fosse por aquele CD no som do carro, se eles não houvessem cantado juntos Aquela Música, se não houvessem comprado aquela garrafa de vinho.
Se ele não houvesse dirigido até a hora em que lugar algum estava aberto, se eles não houvessem decidido parar ali mesmo (onde quer que ali fosse) e acabar com a garrafa de vinho (e com mais algumas cervejas), se o céu não estivesse inexplicavelmente bonito (assim como ela).
Se não fosse o beijo.
Se ela não tivesse uma câmera fotográfica, se ele não tivesse tão pouco juízo e tanto senso de humor, se ela não estivesse vendo as fotos de novo e de novo meio hora depois, se ela não conseguisse parar de rir mesmo vendo todas pela terceira vez.
Se não estivesse tão frio que eles voltaram para dentro do carro.
Se eles houvessem voltado a ligar o carro logo depois.
Se ele não tivesse o sono mais pesado da história, se ela não fosse mais discreta e silenciosa do que devia, se ele houvesse aberto os olhos, se o papel não estivesse no pára-brisa, se ela não houvesse usado uma caneta preta para escrever e se despedir com um beijo e silêncio.
Se ela não amasse o silêncio.
Se ele não tivesse tido tanto medo, se ele houvesse pensado melhor, se ele houvesse perguntado antes, se a cidade fosse menor, se ela não houvesse escrito “talvez” perto de “ver de novo”.
Se ele houvesse simplesmente perguntado qual era o nome dela.


Talvez esse seja o texto mais esperado do conjunto. Bem, aqui está ele para os que estavam aguardando de antemão. Mudei uma coisa ou outra. Mas espero que gostem.
(Originalmente postado no Vegetando em 28/3/2011).

Exercício Criativo: Aerial Garden



Hoje à noite me espera, amor, no jardim mais alto
Espera-me que vão tocar para nós
a mais bela música que já ouvimos
Espera-me que vamos dançar ao som
das cordas e tambores
Eu te terei nos braços, amor, e nós dançaremos
Sob a lua e as estrelas, dançaremos
Sem que os olhos de mais ninguém nos encontrem
O silêncio da noite vai ouvir nosso riso e música
Giraremos no jardim, no mais belo jardim
e no fim hei de abraçar-te, amor
Forte como nada no mundo
Para que nunca me deixes
Para que nunca mais me deixes
Hoje à noite, amor, no jardim mais alto
Espera por mim, amor no jardim mais alto...
- Click.

(Originalmente postado no Vegetando em 18/3/2011.)

Exercício Criativo: Song of the Century

Parte da série de resultados de um exercício criativo que envolveu papel pautado e tempo de sobra e um mp3 player no modo de reprodução aleatório. O primeiro segue abaixo e... Bom, sei lá, espero que vocês leiam e apreciem. Todos os títulos são nomes de músicas.


Estática no rádio, e uma voz canta. Abafada pelo som dos carros lá fora, ela canta. Canta sobre guerra e paz, canta sobre sangue e lágrimas.

Estática no rádio, uma voz canta. Grita junto às sirenes, e canta. Canta sobre crianças com fome e mulheres apedrejadas. Canta sobre quem tem sonhos e sobre quem não tem nada.

Estática no rádio. Canta. Soluçando com o vento, a voz canta. Ruído de aviões e risos de criança. O uivo da mãe que assistiu à morte de um filho, e da criança perdida no meio da estação final de um trem que nunca chega.

Estática. A voz canta. Garotas no shopping center pensando que são mulheres. Crianças vendendo drogas e o grito de alguém cortado por uma faca. Os pais olham para o berço e sorriem de orgulho.

Estática no rádio. Uma voz. Velas para uma santa, sussurros no escuro. Prece, canta. Corpos dançando, a batida de um século, suor e lágrimas, e um grito. Ninguém ouve.

Estática... Canta...

Olhos de criança voltados para o céu claro. O primeiro passo é sempre mais difícil.

Estática no rádio.

Uma voz canta.

(Originalmente postado no Vegetando em 12/3/2011)

The Man with the Hat



Pegar o trem pela manhã era sempre uma batalha contra o sono. Quando se acrescentava uma madrugada na frente do computador, a situação ficava absolutamente insuportável. Mas ela sempre odiara dormir em trens ou quaisquer outros meios de transporte público e, naquela manhã, a regra continuava valendo ao menos para a sua força de vontade.

Isso não impedia, claro, que seu corpo reagisse de forma oposta e foi num dos inúmeros momentos em que seus olhos se abriam depois de a cabeça pender para a frente ao sabor do cansaço que ela o viu.

Ele estava no outro vagão, o que ficava em frente ao seu, a duas portas de vidro e seu próprio reflexo de distância. De pé, apesar de todos os lugares vagos a sua volta, ele se apoiava numa cadeira e lia o jornal com o ar de quem o fazia todos os dias e, ainda assim, não deixava de pôr interesse no ato.

Mas havia algo... Estranho.
‘What Day of the month is it?’ (p.88)

Piscando com confusão, ela ainda se perguntou por um momento de onde viera aquele pensamento. Era um cara lendo o jornal. O que havia de estranho? O que poderia chamar a atenção?

Mas, desobedientes, seus olhos permaneceram naquele ponto mesmo quando o movimento do trem o fez, por alguns segundos, sumir de seu campo de visão. Ela esperou até que ambos os vagões estivessem de novo alinhados e, então, sem qualquer razão aparente, eu repito, procurou de novo enxergá-lo por trás dos reflexos, da luz e o próprio no vidro, e das pessoas ao redor. E buscou apreender cada detalhe possível de sua pessoa.
“Twinkle, twinkle, little bat!
How I Wonder what you’re at!” (p. 91)
Lá estava ele. Um casaco preto longo cobria seu corpo e ele usava luvas de couro da mesma cor em ambas as mãos, era possível vê-las contra o papel do jornal. Ao redor do pescoço, se enrolava com elegância um cachecol vermelho. Barba curta no rosto e cabelos cacheados – castanhos, escuros, talvez? – caindo quase à altura da nuca aqui e ali. Mas do rosto, nada mais.

Porque ele usava um chapéu.
‘The Dormouse is asleep again.’ (p.90)

Não havia nada de especial sobre essa peça – também em preto -, que não a maneira como ele a usava. As abas haviam sido posicionadas de uma tal maneira cuidadosamente desleixada que conseguiam curiosamente esconder boa parte de seu rosto.

Ou, mais especificamente, seus olhos.

Era estranho como ter os olhos ocultos podia encobrir tão bem as intenções de uma pessoa, ela pensou contendo um bocejo tão teimosamente que sentiu os próprios olhos lacrimejarem, ainda fixos na figura do vagão seguinte. E se perguntou enquanto o trem balançava, se haveria alguma razão por trás daquilo.
‘Have you guessed the riddle yet?’ (p. 90)

Talvez você só não queira deixar ninguém entrar, passou por sua mente sonolenta de uma forma que ficou entre desafio ou insolência teimosa, e ela piscou as lágrimas para longe dos olhos quando, outra vez, o vagão se moveu para a esquerda, movendo o homem do chapéu com ele devagar...

E naquele pequeno segundo antes de ele desaparecer de novo, ela pôde jurar vê-lo desviar a atenção do jornal para mirar algo diretamente a frente...

E sorrir.
‘Who’s making personal remarks now?’ (p.94)

Sem perceber, seus olhos se abriram de forma larga para as portas de vidro, e um fôlego surpreso foi puxado para dentro, um ruído abafado no som do trem se movendo mais lentamente, pouco a pouco. Um aviso eletrônico informou que ele se aproximava da estação, mas ela estava ocupada demais esperando ele reaparecer.

E então, após outro momento infinito, lá estava ele, dobrando o jornal calmamente e o guardando no longo casaco. Com o sorriso nunca parecendo deixar os lábios, uma mão enluvada ajeitou o chapéu, e ele a mirou outra vez, e levou um dedo aos lábios.

E então, virou-se para a porta e, com poucos passos, apesar de o trem ainda estar nos últimos resquícios de movimento antes de parar e as pessoas, se erguendo, sumiu de sua vista.
‘Have you guessed the riddle yet?’

Ao redor, todos se levantavam e esperavam as portas se abrirem para desembarcar. Ela ofegou e agarrou a bolsa e as luvas, se erguendo e também seguindo para a porta mais próxima, a mente tentando processar o que acontecera. Ainda se passou mais um minuto inteiro antes que as portas finalmente se abrissem e ela pisasse na estação para poder olhar em volta, respiração visível como um vapor naquela manhã de inverno.
‘Have you guessed the riddle yet?’

Dezenas de pessoas caminhavam apressadas para a saída, nenhuma delas usando um chapéu preto de abas. Uma mãe tentava acalmar um bebê que chorava e um senhor seguia lentamente com sua bengala, sendo ultrapassado por adolescentes aos risos.

Mas nem sinal do homem do chapéu.

Talvez ele só tenha sumido no meio das pessoas, pensou enquanto se forçava a caminhar alguns passos. Talvez tudo tenha sido um truque da mente exausta. Talvez ela devesse ter dormido mais na noite anterior. Talvez nada daquilo acontecera.

Talvez ela nunca houvesse visto os olhos do estranho sob o chapéu.

Uma risada baixa soou ao pé de seu ouvido, e fez um calafrio subir por seu pescoço, logo antes de a voz sussurrar:

- Talvez não... Ou talvez sim... – seus olhos estavam arregalados e ela sentia o pulso acelerar de tal maneira que era uma surpresa que (dane-se o clichê) seu coração ainda não havia escapado garganta acima. – Nos vemos depois, senhorita... Quem sabe você resolve a charada.

E é claro que, no momento em que ela olhou para trás, não havia ninguém para se ver.

FIM


Essa história foi baseada em acontecimentos reais, ajustados de forma devidamente exagerada para a construção de uma boa peça de ficção, com pequenas adições feitas a torto e a direito por uma autora que não possui a menor pretensão de fazer sentido, principalmente de certos encontros com fantasmas no transporte público londrino. Esse, por exemplo, tocava até violoncelo :D Todas as pequenas citações são do mesmo capítulo do livro Alice's Adventures in Wonderland and Through the Looking-Glass, do senhor Lewis Carroll (Edição de 2001, da Bloomsbury Publishing Plc, London UK), e se encontram nas páginas indicadas. Espero que vocês se divirtam com a história do Homem do Chapéu. E, quem sabe... Eu sempre posso encontrar pessoas interessantes no trem...

(Originalmente postado no Vegetando em 26/1/2011.)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Coisas Inúteis


(Foto original: Seira Yamamoto)

Introdução

O mundo está repleto de coisas inúteis. É o estigma de nossa existência como seres pensantes viver classificando cada objeto de acordo com a possível utilidade que ele trará para nós. Nos agarramos a essa definição, a definição de útil contraposta a inútil, e nos julgamos aptos a decidir o que é um e o que é outro. Nós somos prepotentes e arrogantes, mas todos já sabemos disso. O mundo se afoga em coisas inúteis. E, mesmo sabendo de tudo isso, todos nós amamos e odiamos algumas coisas inúteis a despeito de sua classificação. Coisas inúteis nos trazem um tipo de alegria difícil de classificar. Nos trazem prazeres secretos. E não há nada de errado nisso. Mas às vezes também nos trazem raiva, o tal do veneno por qual nos apaixonamos. Frustração, desprezo, tudo isso vem com as coisas inúteis. Sem falar numa melancolia, numa tristeza quase saudosa que se associa a elas quase como uma aura Benjaminana. Algo de inexplicável.
Que possamos todos, então, brindar às coisas inúteis.

A estante

Uma, duas, três, quatro prateleiras. As duas primeiras estão repletas de volumes de cores variadas, com letras em toda sorte de formatação tentando dar uma dica do que se esconde nas páginas prensadas. As duas últimas também exibem seus volumes com o mesmo orgulho, apesar de terem sido impressos com uma qualidade inegavelmente inferior, de suas histórias serem uma mistura de letras e imagens, de que a maior parte das pessoas desprezaria seu conteúdo num piscar de olhos em comparação ao conteúdo das prateleiras de cima.

Eles são muitos. A maioria já foi lida ao menos uma vez e podem contar com orgulho a maneira como conduziram um alguém por universos distantes, por lugares, pessoas, situações imagináveis. É seu mérito, no fim das contas. Seu objetivo. Sua razão de ser.

E, ainda assim, há quem diga que todos estão fadados ao esquecimento. Que todos estão ultrapassados, que logo desaparecerá sua necessidade.

Logo ninguém precisará deles.

Mas permanecem na estante enquanto uma mão corre quase numa carícia por cada lombada, num gesto saudoso e cheio de uma cumplicidade que apenas o recolhimento dos olhos e das palavras pode encontrar.

As carteiras

“Disseram que a gente precisa ir lá no bloco e pegar a nossa até sábado.”

“Hmm?”

“Você sabe... A carteirinha de identificação.”

“Identificação de quem?”

“Você nunca escuta nada, não é? Quando eles botarem as catracas pra funcionar...”

“Aquelas juntando poeira na entrada?”

“Exatamente. Quando elas tiverem funcionando, a gente vai precisar das carteirinhas pra entrar.”

“E quando isso vai ser?”

“Quem sabe? Você sabe que as coisas nunca são como devem ser nesse lugar...”

“Aham. Então... Essas carteirinhas...”

“Hm?”

“Elas vão estar nos identificando como ‘Os que quase acreditam que isso tem utilidade’ ou coisa do tipo...?”

O voto

Eles dizem que você tem o direito de escolher, mas na verdade as opções já estão escolhidas. Eles dizem que você tem o direito de decidir, mas na verdade, você é subjugado pelo desejo da maioria. Eles dizem que você tem o direito de saber o que eles pretendem fazer se nós os escolhermos, mas na verdade você é obrigado a ouvi-los falando meias-verdades e promessas furadas por uma hora e quarenta minutos diários enquanto se pergunta onde foi parar o seu direito de escolher não ouvir.

Eles dizem que são o melhor e que vão trazer o melhor para a vida de todos, mas todos sabem que eles vão guardar o melhor para eles. Eles dizem que os outros são o errado e que eles são o certo, mas nós devíamos saber que é errado sermos tratados como animais arrebanhados a cada quatro anos. Eles dizem que tudo vai melhorar. Nós devíamos saber que com eles não vai.

Eles dizem para a gente acreditar. Tem gente que acredita, porque não tem muito mais em que acreditar, afinal. Eles dizem que mudaram para melhor. Mais de nós deviam simplesmente ir pela cartilha de que as pessoas não mudam. Eles dizem que querem tirar os corruptos do poder e ficar com o poder para eles para fazer as coisas melhores para nós. Nós devíamos ter aprendido, a essa altura, que o poder corrompe e que nenhum deles se importa conosco.

Eles dizem que nós devíamos ter consciência política. Dizem que o voto é importante. Dizem que se ausentar, se negar a fazer uma escolha, é atrasar o progresso do estado e do país.

Nós devíamos ter consciência de que, se formos pelo que eles dizem, nosso voto é só uma coisa inútil. Devíamos saber separar o joio do trigo – se é que há um trigo. Devíamos saber que quase todos eles são iguais e que os poucos que não são, são exatamente isso: poucos. Nós devíamos saber que estamos pouco a pouco nos tornando uma multidão de coisas inúteis, a cada vez que fazemos uma nova (ou repetida) escolha errada.

E, com as coisas inúteis, todos nós sabemos que ninguém se importa.


Comentários finais: Coisas inúteis é uma referência ao livro de histórias curtas genial do Neil Gaiman, Coisas Frágeis, que eu estou a três contos de terminar. O título veio no meio de uma conversa com a Cecil sobre as carteirinhas de identificação que a Ufal preparou para os alunos para serem usadas num sistema que – quem sabe – pode até estar funcionando antes da maioria de nós se formar e que é, em linhas gerais, bastante inútil. A primeira parte surgiu do nada quando eu estava contemplando minha estante e me lembrando de uma resenha maravilhosa que eu li no blog da Lulu, o Coruja em Teto de Zinco Quente. Tenho que procurar esse livro depois, Sobre a história da leitura. A terceira e última parte é só um desabafo diante do momento atual e, eu espero, não passa de uma sucessão de observações baseadas em fatos. As três partes não têm nenhuma relação entre si, além do fato de discorrerem sobre algumas coisas inúteis. Eu comecei a escrever tudo isso sem pensar, mas fui ganhando algum ritmo pelo final. Espero que vocês gostem, ou ao menos reflitam a respeito. Não é como se custasse muito além de uma pequena fração do seu tempo.

(Originalmente postado no Vegetando em 16/9/2010)

O Conto Maravilhoso

De acordo com Wladmir Propp, todas as histórias contadas no mundo são a mesma história, porque todas possuem a mesma estrutura. Vamos ver se eu ganho do sr. Propp...



O Conto Maravilhoso

Era uma vez um herói que recebeu de um ser celestial, mítico e/ou mágico, um objeto de poder na aparência de uma bijouteria à sua escolha. Ele decidiu enfrentar o bruxo mau, vilão nº 1, e salvar a princesa aprisionada, conquista nº 1.

Quando estava saindo de casa, tropeçou na soleira da porta e morreu enquanto a bijuteria mágica escorregava para dentro de um poço e se perdia.

FIM


E aí, o que vocês acham? Eu ganhei? 8D
P.S.: Se não gostou, considere uma piada de 1º de Abril. Eu não posso me censurar por viajar na aula de Teoria da Comunicação e não poderia ligar menos para isso...
Boa noite e obrigada por sua participação.

(Originalmente postado no Vegetando em 1/4/2009)