sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Múrmurios e Canções



Do diário de viagens de Megan Iolair, historiadora da Biblioteca de Rosetta.
Aridez Sombria de Al-Gober, 17 de Beltane.

Grande parte do território da nação de Al-Gober é coberta por um deserto de areias cinzentas e negras, conhecido pelo nome de Aridez Sombria. Um indivíduo que se encontre neste lugar pode olhar para todas as direções e enxergar apenas dunas e dunas de areias negras sob um céu quase sempre tão escuro quanto elas. É como encarar a pintura de um mar sombrio, com ondas congeladas pelo tempo, exceto pelos momentos em que a estranha brisa as faz ondular quase imperceptivelmente. E então, em uma questão de segundos, tudo pode estar completamente diferente....

Os olhos de Megan se estreitaram de leve para o deserto. Lugares como aquele eram sempre traiçoeiros para os viajantes – um indivíduo poderia se perder, sair do rumo, e encontrar coisas que eram no mínimo incômodas sob as areias sombrias – mas o deserto das dunas negras tinha algo a mais sob suas ondas escuras.

Alguma coisa cantava nas sombras e cinzas dos pés que haviam pisado naquelas dunas centenas de anos antes. Era uma música estranha e abafada, mas que falava de um tema apenas.

Uma canção de medo.

- Megan?

Os ombros da jovem cigana se retraíram inevitavelmente – não importava que o nome e a voz lhe fossem familiares àquela altura, pertencentes a alguém em quem ela confiava sua própria vida em batalha – aquele lugar interferia nas reações das pessoas. Ela mirou o vulto que se aproximava, um soldado jovem de porte considerável que ainda assim caminhava com uma parcela de silêncio através do acampamento adormecido. Megan lhe fez um aceno com a cabeça, a longa trança de cabelos loiros escorregando para fora da capa com que se cobria, e ele se acomodou ao seu lado, olhos como os de um falcão conferindo o perímetro mesmo quando murmurou:

- Não creio que seja seu turno de guarda, senhorita cronista.

Os lábios dela se repuxaram de leve ao ouvir aquilo. Títulos, todos os homens precisavam de títulos. Aquele era recente ainda, e de certa forma, não muito diferente do que ela fazia antes de recebê-lo: ouvir histórias, viver histórias, contar histórias. Mas se queriam um título, ela usaria um título; se queriam histórias, lhes daria histórias. Estava ganhando algo em troca, afinal, e aquilo era o que interessava.

- Não tenho sono. – respondeu ao cavaleiro, a voz suave como a brisa não parecia capaz de ser, por mais que o tentasse. – Algumas noites, penso que essa terra o roubou de mim.

As palavras soaram sombrias em seus próprios ouvidos, e ela se ajeitou no local em que estava sentada, puxando a capa para mais perto. O cavaleiro lhe concedeu um breve olhar, sem desviar a atenção de sua tarefa.

- É um lugar um tanto inquietante, eu admito. – ele falou. – Mas precisamos de todo descanso que pudermos conseguir antes de alcançar nosso destino. Não sabemos o que podemos encontrar naquele lugar.

‘Aquele lugar’. O lugar misterioso marcado num mapa roubado e que era seu destino agora, talvez o final da missão que os levara àquela terra em primeiro lugar. Eles chegariam lá talvez na manhã ou noite seguinte, se seu guia não errasse o caminho. O lugar que não parecia existir fora das histórias.

As Torres do Mar Primordial.

- Eu compreendo, major. – murmurou Megan, permitindo-se apoiar o queixo sobre os joelhos cobertos, num hábito de infância de que nunca conseguira se livrar por completo. – Não deixa de ser uma tarefa difícil, ainda assim, conseguir descanso numa terra como essa...

- Se você pode parar por um momento, faz bem em buscar repouso e prontidão para a próxima batalha. – o cavaleiro recitou o dito militar com precisão formal, porque era o que era esperado dele, mas voltou a desviar a atenção da vigília por um instante para encará-la. – O que tem essa terra, Megan?

Por alguns segundos, a jovem cigana guardou seu silêncio e deixou o olhar se perder na areia que se espalhava diante de seus pés, em todas as direções. Areia negra, negra, como sombras e cinzas, em todo lugar. Seus olhos se permitiram fechar, confiando nos olhos atentos do companheiro, e ela inspirou profundamente o ar do deserto, antes de murmurar lentamente as palavras:

- Essa terra... – e, se havia uma mágoa amarga, um desgosto incontrolável na voz controlada, nenhum deles iria admitir ou lembrar quando viesse a manhã. – Como qualquer outra terra... Canta... Tão baixo que poucos ouvidos se dão ao trabalho de ouvi-la... Ainda assim, ela canta sempre, sem nunca parar em momento algum... – seus olhos escuros se abriram de novo, e, se estavam ainda mais escuros naquela noite, ninguém seria capaz de dizer. – Uma canção apenas... Uma mesma canção...

- Qual? – o cavaleiro indagou, porque no diálogo habitual que eles haviam criado, era esse o seu papel.

Megan olhou para o alto, então, para o céu que, sobre aquele lugar, parecia ter estrelas opacas, distantes e pálidas demais para servir de consolo.

- ...Medo. – ela respondeu por fim, e a palavra os cobriu como cobria a todo o deserto, como um cobertor de sombras.

Que noite escura aquela estava sendo.

- Medo. – repetiu o outro, com uma calma que a palavra desmerecia ou espantava, e seu olhar foi atraído por ela. – E você não sentiu isso antes, senhorita cronista? Não ouviu essa canção no caminho que fizemos até aqui?

Os lábios da violinista se estreitaram ligeiramente.

- Existe medo em todo homem, mulher ou criança. Não importa a raça, a cor, o caminho... Todos dividimos esse mesmo terror... – ela tentou sorrir de novo com os cantos dos lábios, mas a expressão empalideceu diante das palavras. – Talvez nós vivamos nossas vidas inteiras tentando escapar da memória desse horror, major.

A expressão do cavaleiro era uma muralha de neutralidade, ainda assim, quando ele a encarou.

- E ainda assim, você não caminhou até aqui conosco? Não lutou como nós lutamos, e gargalhou quando sua vida estava em risco?

As sobrancelhas da cigana se ergueram ligeiramente, sua expressão tomando um surpreso ar de diversão.

- Eu? Tem certeza disso, major?

Ele se ergueu de onde havia sentado, permitindo-se um ligeiro dar de ombros enquanto seus olhos voltavam a correr pelos arredores.

- Eu não sei, senhorita cronista. Não é você que decide como contar as histórias?

Um som que quase pareceu um riso escapou de Megan, e ele se despediu com um aceno, voltando ao ponto de onde mantinha seu turno de guarda. A jovem balançou a cabeça, e encarou o deserto negro ao seu redor mais uma vez, permitindo-se pensar nas palavras ditas e não ditas.

Francamente.

Não era como se ela mesma não compusesse canções ou contasse histórias, era? Todo artista sabe que fazer as coisas muito fáceis é o caminho para a falha.

Megan deu um sorriso que talvez não pudesse ser chamado assim para a aridez sombria, e sussurrou suavemente com raiva, humor, desprezo, conformidade e rebeldia se misturando em cada palavra:

- Os finais são todos iguais mesmo... Ao menos assim, nós nos livramos do tédio, hm?

Ela apanhou de novo a pena e tinta, e o manuscrito interrompido.

... Estudiosos afirmaram que algumas das primeiras civilizações humanas podem ter surgido nesta nação, e o sussurro das areias escuras deste deserto parece ratificar este fato. Existe algo de sombrio como os próprios Áridos na história deste lugar. Esse conto se manifesta na canção dos ventos do deserto, para aqueles que podem ouvi-la.
Caminhando por estas terras numa missão da qual não haverá retorno sem sucesso, quem sabe eu e meus companheiros desvendemos os acordes de Verdade para uma canção muito mais antiga que nós mesmos.

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O texto acima se passa no universo Crônicas do Mar de Prata, criado por Marco Fischer. Dos personagens presentes, apenas a Megan é criação minha, o cavaleiro pertence ao amigo escritor e jogador, Uiberon Araújo. Para maior compreensão do conto, é aconselhável leitura do background da nação Al Gober no Mar de Prata. Fotografia de autoria própria, como todas as outras no blog (excetuando as devidamente creditadas).

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Strange Gifts



Foi um presente, o colega havia dito. Uma ilustração que um artista conhecido seu fizera, colorida com belas cores e colocada num quadro para ser pendurado numa das paredes.

Pessoas gostam de quadros. A afirmação é justificada com toda a história da humanidade desde o primeiro desenho feito na pedra, e continua sendo verdadeira até hoje.

Pessoas gostam de quadros.

(Ninguém nunca perguntou se os quadros gostam das pessoas).

Ele observou o quadro longamente. Era uma jovem de cabelos dourados tornados verdes na ilusão causada pela água com que a tinta a cobrira. Sua pele também, pálida que era, parecia esverdeada com as escolhas do artista para refletir os estranhos efeitos da luz refletida no lago coberto por flores de lótus. O vestido, incapaz de se decidir entre azul e negro, estava congelado, colado ao corpo onde este se elevava acima da água, ou flutuando numa dança sob ela, como algo etéreo e sem forma.

Os olhos dela estavam fechados.

Ela era linda.

Ele virou-se para o colega, e perguntou: Ela está morta, não está?

O outro sorriu. É de mau gosto, não é? Contou que já teria se livrado da peça muito antes, se não fosse a pena. Meu amigo demorou semanas pra terminar o desenho. O artista não se ofenderia, mas ele não conseguiria simplesmente jogar (ela) fora.

Ele olhou de novo para o quadro. A garota tinha um rosto bonito, apesar da palidez, com um nariz bem desenhado, faces que ainda conservavam a sombra de quando haviam sido coradas e uma boca de lábios delicados. Seu cabelo claro aparentava uma curiosa delicadeza também, e ele poderia até imaginar que, se fosse capaz de tocá-lo, seria macio como seda.

Ele não poderia tocar um desenho.

Eu posso ficar com ele?

O colega havia ficado ligeiramente surpreso, mas apenas por um momento, ele notou, mesmo ao ouvi-lo perguntar se tinha certeza, se não era mesmo nenhum problema, se havia espaço em seu apartamento, e todas as outras perguntas obrigatórias para aquele tipo de situação.

Talvez ele houvesse percebido a beleza silenciosa do retrato, apesar de tudo, e compreendesse. Talvez ele só quisesse mesmo de livrar do quadro. O caso é que, no fim da noite, ele dirigiu para casa com a pintura acomodada no banco do carro, e a pendurou no lugar de uma velha imagem da praia que tinha no escritório.

Parecia perfeito.

Os dias passaram, as noites passaram. Ele chegava de uma reunião e, como sempre, passava horas no cômodo, escrevendo o roteiro ou fazendo pesquisas, tendo apenas o silêncio por companhia. E agora, também, a jovem do quadro. Ocasionalmente, quando a mente caia no branco entre a inspiração e a produção, ele apoiava o queixo numa mão e deixava os olhos passearem pelo lugar enquanto pensava.

Com frequência, eles encontravam o retrato.

(Estou te vendo).

De início, após alguns minutos contemplando a imagem, ele voltava ao trabalho, mas com o tempo foi custando mais. Ele notaria algo de novo, uma curva que o cabelo fazia, uma marca desenhada cuidadosamente no rosto, a corrente do medalhão pendurado em seu pescoço, a forma como o vestido lhe desenhava a curva dos seios, os cílios claros e longos, o traço gracioso dos lábios...

E finalmente chegou ao ponto em que olhar para o retrato significava todo um dia de trabalho perdido.

Era uma distração que ele não poderia se dar ao luxo de ter quando seu trabalho estava num ponto tão crítico, então, com pesar, ele removeu o quadro de sua posição e o pôs no chão junto à estante, voltado para a parede.

Apesar do desconforto, ele trabalhou no roteiro por mais horas do que havia conseguido durante toda a última semana. Era um bom avanço. Talvez ele conseguisse terminar ainda naquela semana, antes do prazo acabar. Talvez. Talvez ele parasse de sentir um par de olhos o observando quando o sono batia.

(Meus olhos estão fechados).

Naquela noite, ele sonhou ao dormir, com água, e flores de lótus, e com um corpo que pesava, desabando cada vez mais fundo e mais longe da luz da superfície.

Muito fundo, ele pensava. Tenho que voltar, tenho que voltar... Mas seu corpo afundava, afundava na escuridão entre as plantas e as criaturas que viviam no fundo do lago, cada vez mais fundo e mais distante do mundo e da luz...

Ele acordou respirando com tanto desespero que, por alguns instantes, se convenceu de que, de fato, quase havia se afogado. Devagar, deixou a cama e o quarto na intenção de ir até a cozinha, beber um copo de água ou uma xícara de chá, mas, no caminho, encontrou a porta do escritório entreaberta.

Seus pés o levaram até o canto da estante quase sem que ele percebesse. Ele se abaixou e apanhou o quadro, e olhou para o retrato.

No escuro, a cor pálida da pele da jovem parecia ainda mais bonita e, olhando para seu rosto, ele teve a impressão de que ela estava adormecida.

Você está tendo algum sonho bom?, ele se ouviu sussurrar, muito baixo, e as palavras pareceram pairar pelo cômodo escuro.

Por um segundo, lhe parece que os olhos da jovem no quadro poderiam se abrir a qualquer momento, agora que ela tinha algo além da parede para ver.

(Não).

Ele pendurou o quadro no lugar de antes, e voltou para a cama.

Quando saiu de uma reunião no horário de almoço do dia seguinte, encontrou o colega que visitara algumas semanas antes, e os dois saíram para comer juntos num restaurante próximo. E inevitavelmente o assunto acabou indo parar no quadro.

Por que seu amigo o pintou?

Era a pergunta que quisera fazer desde o início, ele se deu conta, e o sorriso que surgiu no rosto do colega indicava que ele também percebera. Ele lhe contou então que, pouco antes de começar a trabalhar naquele quadro, o artista passara por uma terrível desilusão amorosa.

Acho que a moça foi bem cruel com ele, falou. Pelo menos o bastante para ele ficar com um ódio terrível dela.

E o quadro foi a vingança?

O outro dera de ombros. Ele estava realmente furioso com ela. Não conseguia deixa-la ir, eu acho. Não até terminar o retrato, e passa-lo para mim. ‘Eu não quero’, lembro que ele falou. ‘Não me serve mais pra nada’.

‘Não me serve mais pra nada’.

Ele chegou em casa tarde naquela noite, e foi logo para o escritório. O prazo havia diminuído ainda mais por decisão dos produtores. Eles queriam a primeira versão do roteiro para o dia seguinte, pois precisavam analisa-la e decidir se iam continuar ou não com o projeto. Ele sabia que precisava apresentar pelo menos um texto completo para ser considerado, então precisava terminar aquilo naquela noite de qualquer jeito. Mas o primeiro passo para dentro da sala o fez congelar.

Ela estava lá, exatamente onde ele a deixara. Bela e morta, congelada nos traços e cores de um artista vingativo.

Muito quieto, ele se dirigiu de novo até parar diante do quadro, olhos observando o rosto. Seria possível que ela estivesse apenas dormindo? Que não estivesse morta, mas que apenas sonhasse, presa entre a moldura, o papel e as tintas?

(Eu me pergunto qual seria a pior opção).

Com mais esforço do que seria considerado saudável, ele se obrigou a dar as costas à pintura e voltar-se para o trabalho. Em pouco tempo, descobriu que era impossível se concentrar – as palavras não se juntavam, as ideias perdiam o rumo, nada fazia sentido e, sutilmente, a ideia de cachos de cabelo úmidos em seus dedos e uma boca pequena e adorável se infiltrava em sua mente.

Havia passado da meia-noite quando ele desistiu, e se levantou.

Devagar e com uma delicadeza cautelosa, ele tirou o quadro da parede e sentou-se no chão, o colocando de pé diante de si. Ela era lindíssima. Por um infinito de segundos, ele apenas a observou em todos os seus detalhes de rosto, corpo, cabelos, cílios, olhos...

(Meus olhos estão fechados).

Sua boca se abriu, e ele sussurrou a pergunta:

Você poderia abrir seus olhos para mim?


E então ele sonhou que afundava no lago entre as flores de lótus, que caia lentamente, cada vez mais longe da luz, até sentir um par de braços esguios e gelados o envolvendo, e um corpo se enroscando no seu na escuridão.

E, por fim, ele também fechou os olhos, e adormeceu.

...

Era para ter sido um texto de Dia das Bruxas. Por conta da minha incrível habilidade de procrastinação, foi empurrado para Dia de Finados, só que depois de passar o dia inteiro entre os dois maiores cemitérios de Maceió apurando informações e entrevistando gente para uma reportagem e ganhando queimaduras de sol de brinde, eu estava sem coragem para terminar. Então ficou para hoje. A ideia partiu dessa imagem que meu querido amigo Bardo fez o favor de me mandar na madrugada do Dia das Bruxas, sem avisar que era um gif. Eu quase tive um ataque cardíaco quando ampliei. Espero que tenham gostado do primeiro texto inédito do Melodia, de qualquer forma :)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Para aqueles que tecem sonhos...

“Eu vou te contar uma história. É uma história mais velha que eu mesmo, e o tempo de que eu me lembro já não pode ser medido por qualquer homem na terra, pois é o tempo dos sonhos, que existem enquanto forem sonhados, e, portanto, existem enquanto houver homens, mulheres e crianças no mundo. Por isso, mais velha ainda seria uma história dos sonhos, que existiram desde quando existiu o mundo, e certamente só deixarão de existir quando a existência do mesmo se acabar.

Mas nada disso importa. O que importa é a história.

Dizem que, no raiar do primeiro dos primeiros dias da terra, no instante em que o sol começava a surgir no horizonte, alguém se sentou diante do primeiro dos teares. Essa pessoa, como se sentisse a luz se aproximando, escolheu as linhas mais claras e teceu a alvorada pouco a pouco no céu, iluminando toda a terra. Essa pessoa teceu as águas dos rios menores e maiores e teceu os mares, em todas as suas cores e forças. Teceu também o chão, o verde da relva, e todas as plantas, pequenas ou enormes, que cobrem o mundo. E por fim, teceu todos os animais que viviam em mar, terra ou água, e as pessoas do mundo inteiro, uma por vez.

Isso te soa familiar? Lhe parece que já ouviu essa história antes? Não se preocupe. Eu sei que sim.

Esse primeiro Tecelão ou Tecelã teceu tudo que havia no mundo dos homens. Mas não apenas isso. Certo dia, ele dormiu, e teve um sonho. Ele sonhou com coisas que nunca vira, coisas incríveis, fantásticas. E, ao acordar, desejou de alguma maneira agarrar as imagens que testemunhara, e registrar sua visão maravilhosa.
Ele teceu então as criaturas, pessoas e lugares que pertenciam antes ao mundo dos sonhos, e teceu como ele lembrava-se deles, e os achou tão belos que decidiu mostrar o que tecera aos outros ao seu redor.

O que você acha que aconteceu então, quando as pessoas viram aqueles tecidos de sonhos, todas as coisas maravilhosas e inacreditáveis nascidas da mente do Tecelão?

Dentre elas, algumas, pouco a pouco, criaram seus próprios teares. E também teceram, e mostraram para outros mais. Teares e teares tecendo sonhos... Cada um, uma mente, e, ao mesmo tempo, permitindo que todas as mentes sonhassem os mesmo sonhos. Até que crescesse o sonho na imaginação de milhões e milhões... Um sonho em que linhas se entrelaçavam, entremeavam, sem permitir quaisquer pontas soltas.

E tudo regido por cada um dos Tecelões de Sonhos que continuam a criar mais e mais partes do maior sonho de todos para que o mundo possa sonhar sempre.”

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Texto originalmente publicado no blog Vegetando em 25/7/2011 como uma homenagem ao dia dos escritores. Adaptado de um trecho de um romance sobre histórias e sonhos que um dia quem sabe virá a público (a participação no prêmio Lego foi adiada\cancelada até segunda ordem), e inspirado pelo conto A Moça Tecelã, de Marina Colasanti (entre outras inúmeras histórias).
Esse é para marcar o início da Melodia do Martelo de Tinta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As Primeiras Vezes



Talvez uma das maiores bênçãos que a vida entrega na surdina, como aquele amigo ou amiga que passa a cola da prova por baixo da carteira nos momentos de desespero da vida escolar, sejam as primeiras vezes. Porque, afinal de contas, há uma primeira vez para tudo. Para nadar e andar de bicicleta (se bem que eu não sei andar de bicicleta), para tirar uma nota baixar ou a maior da sala, para um beijo e para uma briga sem motivo na hora do recreio, pra tudo vai haver aquele momento anterior, os segundos de calafrio antes da queda livre de possibilidades.

Para tudo há uma primeira vez. Um momento de total ignorância do processo e principalmente do resultado. Quando só o que está em foco é a tentativa.

E é claro que vai haver a primeira vez das coisas chatas também. Elas merecem tanto quanto as boas, não merecem? Temos que ter direitos igualitários em alguma coisa, nem que seja no fato de que, algum dia, todos vamos nos desapontar.

Ainda assim, a vida pode ser gente boa na mesma proporção que é sacana. E mesmo as primeiras vezes não tão legais (e as segundas vezes que inevitavelmente as precederão) continuam sendo experiências.
Experiência é o caminho, meus amigos. E mágoa é perda de tempo quando o plano piloto diz que não dá pra passar por aqui sem machucar ou ser machucado.

A parte boa é que pedir perdão e perdoar são outra bênção que nós temos à disposição.

Então caminhemos aproveitando as primeiras vezes. Elas não vão se repetir como foram nunca mais.

(Originalmente postado no Vegetando em 17/3/2010)

Todo Dia




Todo dia eu faço o mesmo caminho de casa até o ponto de ônibus. Vida de universitário também é difícil.

Todo dia eu caminho até aquele banco e arranjo um lugar pra sentar (se houver) e espero. Normalmente, tenho que esperar de quinze minutos a meia hora, mas as vezes demora mais.

Todo dia eu tenho aqueles quinze ou trinta minutos pra esperar e para "fazer nada". A prática mais antiga da humanidade.

Todo dia outras pessoas seguem essa rotina, cada uma com o seu rumo.

Todo dia tem um garoto com um violão naquele ponto de ônibus.

Todo dia ele desce naquele ponto ainda com a farda do colégio e procura algo com os olhos.

Todo dia ele encontra o que está procurando. Porque todo dia ele espera ou encontra alguém esperando.

Todo dia a mesma pessoa.

Todo dia eu vejo pelo canto dos olhos enquanto ele e a garota se abraçam e se beijam. Eu não sei se eles estudam em horários diferentes ou se o Garoto do Violão simplesmente está faltando alguns dias de aula voluntariamente. Mas não importa.

Eu só sei que todo dia eles trocam o mesmo olhar.

E todo dia eu não consigo deixar de sorrir quando eles se vêem, mesmo sem saber coisa alguma sobre eles.

Porque mesmo que seja todo dia, ainda assim, eles tornam o dia único um para o outro.

Todo dia, discretamente. Num lugar qualquer da cidade, na rua, no ponto de ônibus.


(Originalmente postado no Vegetando em 8/5/2009)

Poesia de um coração partido numa noite vazia de domingo




Alguém pode me ouvir?
Será que alguém pode me ouvir,
nessa noite que dança
ao som da televisão ligada,
nesse silêncio que é silêncio
mesmo entre as vozes quebradas,
na rua vazia, nos carros,
nessa noite, alguém pode me ouvir?
Isso é apenas poesia.
Não ligue, isso é apenas poesia
Só um grito de angústia
que se cala com o dia.
Isso é apenas minha raiva
construindo seu muro
nada além.
É apenas poesia.
E amanhã o sol vem de novo
Amanhã vamos sair de casa
como fantasmas de cafeína
e vamos achar de novo
que vivemos, e seguir
com a nossa maldita rotina.
Porque o mundo não pára de girar.
E ninguém se importa mesmo
com um coração partido.
É apenas mais um
Sou apenas mais um.
Mais um.
Mais um poema, mais um...

... alguém pode me ouvir?

(Originalmente postado no Vegetando em 12/9/2010)

Oração Sem Título



Abençoados sejam meus erros,
minhas falhas e enganos,
que cada um é essencial
para que conquiste meus acertos.
Que no dia de amanhã
eu me lembre de todos eles
e tente ainda mais,
porque assim conquistarei minhas vitórias.

Abençoados sejam meus amigos,
minha família, os que ficam ao meu lado
nos bons e maus momentos.
Eles que ouvem minhas dores
e riem com meu riso,
eles que estão sempre lá
para me apoiar quando deles preciso.
Não fosse por eles, nada eu teria conseguido.

O que já passou não pode ser mudado,
portanto, que meus olhos vejam o horizonte,
claro.
E que de hoje em diante – sempre –
me venham alegria e tristeza, luta e conquista,
me venha a vida como deve ser
e eu a viverei até o último instante
sem nunca temer ou perder meus sonhos de vista.


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Semana passada, duas amigas fizeram aniversário e eu não tive condições de falar direito com nenhuma das duas, mas tinha escrito uma coisinha para comemorar a data. Vou colocá-la aqui pra quem quiser ler e tentar fazer chegar a uma delas, que ainda não recebeu.
Feliz aniversário atrasado pra vocês!
(Originalmente postado no Vegetando em 27/3/2010)