Foi uma jovem de olhos perdidos
quem me pediu, certa noite, uma história sobre reencontro. Mesmo hoje não sei
quem ela desejava tão ardentemente rever – ou talvez encontrar pela primeira
vez – sob a quietude de seus gestos. Mas foi essa a história que lhe contei.
Havia um rapaz e uma moça numa
naquela vila num vale entre montanhas que tocavam o céu, e todos diziam que
eles se amavam. Talvez fosse verdade, ou talvez fosse apenas a repetição constante
o que convenceu o rapaz a declarar à jovem que por ela tinha sentimentos
maiores do que poderia sonhar em descrever, mas o que importa é que, um dia,
ele o fez.
“Você diz me amar,” a moça lhe
respondeu. “Mas o que é esse amor?”
Confuso, o rapaz atropelou-se nas
palavras, e a jovem sorriu. “Quando souber me dizer,” ela propôs. “Eu lhe darei
uma resposta, então. Vamos primeiro viver antes de nos encontrar de novo.”
Ele concordou, e os dois viveram.
O rapaz partiu em viagem para conhecer mais sobre o mundo e tentar entender aos
outros e a si mesmo, e a moça, sem sair da vila, também buscou entender,
através de histórias, de pessoas, de canções. De tudo aquilo que podia alcançar
e conhecer.
Veio o dia em que o rapaz
retornaria, por fim, e ele caminhou confiante de volta à vila em que nascera,
certo de que entendia o sentimento que possuía agora, o sentimento que o levava
a sorrir com o sorriso da moça.
Ele foi até sua casa, bateu em
sua porta, ansiou por dizer seu nome e falar sobre todas as coisas que havia
visto, e por saber também o que ela vira naquele meio tempo.
Encontrou a moça na cama, entre
as cobertas como um anjo adormecido. Mas não haveria despertar ou riso para
aquele anjo em particular. A jovem estava morta.
“A doença a levou.” Disseram os
parentes com tristeza. “Sua alma subiu a montanha para as nuvens, para o céu e
para as mãos dos deuses. Não há mais volta para ela.”
Mas não poderia ser. Não poderia
ser assim, porque era o dia. O dia do reencontro, o momento pelo qual ambos
haviam esperado por todo aquele tempo...
Aquele não podia ser o final.
Aquela história não poderia ter terminado, ter sido interrompida tão rudemente.
Ainda era noite quando ele deixou
a vila com o corpo da moça nos braços. Ninguém o viu seguir a trilha, subir a
montanha na direção do céu.
Se a alma da moça estava com os
deuses, ele só precisava pedir que a devolvessem. Somente, e os dois ficariam
juntos, e trocariam suas histórias e sorrisos como haviam prometido.
Ele só precisava pedir a alma de
volta, e tudo ficaria bem.
O rapaz caminhou e escalou por
duas noites e um dia, sofrendo com o frio, fome e sede que pareciam intermináveis,
mas nunca parando e nunca largando o preso pálido que trazia nos braços. Foi
somente no amanhecer do segundo dia que ele alcançou o topo, o estranho
precipício no meio das nuvens.
O jovem cambaleou pelo caminho
até cair sobre os joelhos no fim da linha, à beira de um abismo sem fundo. O
peso do corpo da moça já não o incomodava, assim como há muito não o incomodava
dor, fome e sede. Seu corpo estava dormente com o frio e a exaustão. O único
som em seus ouvidos era o uivo interminável do vento, como o uivo de uma coisa
viva e enorme, furiosa e incontrolável...
Ele ergueu a cabeça para o alto,
para o céu que era a única coisa ao seu redor. E seus olhos, que já mal podiam
distinguir qualquer coisa, enxergaram naquele momento, uma forma surgir entre
as nuvens. Uma criatura imensa e terrível, quase tão grande quanto o próprio
mundo. Ela era apenas luz e forma, e braços e asas, mais do que se poderia
contar ou entender. Ela era vento e fúria numa dança maravilhosa e
aterrorizante, e uma gigantesca face de olhos cegos que, ainda assim, pareciam considera-lo
e perguntar no silêncio...
Qual é o seu desejo?
Ele o falou.
Não há, entre os que contam a
história, um consenso sobre o que houve depois. Só se sabe que o desejo foi
concedido.
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Palavra: 'quando' (sorteada do comentário de Carol - 23 out 2012)
Tempo: 30 min (em 26 out 2012)
E o primeiro conto sorteado! Como podem ver, a palavra sorteada foi algo bem estranho... Eu me limitei mais ou menos a substantivos e verbos na hora de sortear as palavras, mas coloquei uma ou outra coisa estranha só pra subir o nível de desafio caso saíssem... Não esperava que alguma delas fosse realmente ser sorteada. O texto foi ligeiramente inspirado numa imagem que eu achei na internet aleatoriamente no dia que escrevi. E pode ou não ter sido influenciado por uma música também, embora eu mesma ainda não enxergue muito bem a relação. E alguém falou que lembra Shadow of Colossus (embora eu nunca tenha jogado, pra ser sincera).
De qualquer forma, cá está o conto, e eu apreciaria muito ouvir suas opiniões sobre ele, sobre o processo, e o resultado do sorteio! Eu pretendo publicar um texto pronto talvez no meio da semana e estou em dúvida se sorteio só os comentários desse ou do próximo para a próxima palavra, se faço dois sorteios ou se sorteio só uma palavra dos comentários de ambos... Aceito sugestões para resolver o problema. Até breve!

A "missão" do garoto em levar o corpo para a montanha e lá encontrar um Ser, do tamanho do mundo, é Shadow of Colossus puro. Sem enrolação, ou tramas complexas, só a vontade, o desejo e a esperança.
ResponderExcluirMuito legal que você tenha descoberto a magia dos contos curtos. A história não parecia grande coisa no início, mas o fim foi surpreendente, o que deixou ainda mais incrível. E a comparação com Shadow of Colossus foi inevitável.
ResponderExcluirSou noob em Shadow of Colossus, então não me liguei na relação, mas o conto é belo e abre porta pra uma continuação interessante
ResponderExcluirEstranho, eu comentei aqui ontem mas não apareceu. Eu gosto muito de contos curtos, me senti particularmente interessada pela brincadeira depois de ler esse último, aliás. E sim, me lembra Shadow of the Colossus.
ResponderExcluirSagrado Servidor devorador de comentários, peço que me poupe desta vez, obrigada. Gostei do conto e esse conceito que os reencontros podem ser relativos. Gostaria de saber o que o rapaz fez todo tempo em que ficou fora e seria interessante pensar que um único passo diferente em sua vida poderia ter mudado tudo isso.
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