Às vezes, ele queria escrever
sobre amor.
Nos dias em que ela o dispensava
da função de lavador ou guardador de pratos para passar horas na cozinha
limpando e enxugando enquanto cantarolava xotes e forrós antigos que ecoavam
dos azulejos até sua cadeira em frente ao computador.
Nas madrugadas em que o cheiro de
café quente o tirava da cama para encontra-la sentada à mesa da mesma cozinha
com um sorriso sonolento que lembrava o fato de que, na maior parte das manhãs,
era quase impossível fazê-la sair debaixo das cobertas.
Nas noites em que ela se
inclinava para olhar a tela do computador pelas suas costas, ria de suas
conversas e e-mails com o resto da delicadeza que a invasão de privacidade
levara. Também quando ele se virava para cutucar suas costelas em resposta, e
ouvia a voz dela gritar e rir quase histérica, e chama-lo de ‘tratante
miserável’.
Quando ele era ‘tratante’ e
‘miserável’ e quando era um irônico ‘querido’, ele queria escrever sobre amor.
Nos domingos em que se sentavam
os dois no sofá e desenterravam um console de videogames ancião, e passavam
horas gritando coisas um tanto obscenas demais para se dizer em frente a alguns
jogos de 16-bits.
Quando ela estava trabalhando no
computador e reclinava na cadeira de forma preguiçosa, erguendo os cabelos com
as mãos apenas para deixa-los cair de novo como uma cascata sobre as costas.
Ele queria escrever sobre amor
todas as vezes em que abriam uma garrafa de vinho. Queria escrever e escrever
quando ela brincava com o pingente de um colar no pescoço fino. Queria caneta
ou lápis, caderno ou guardanapo toda vez que que ela ria, para escrever sobre
amor.
Quando de noite, deitada na cama,
ela lhe dava um sorriso cansado, ele quase enlouquecia por um segundo,
desejando escrever sobre amor.
E quando ele estava, no
computador ou no papel, escrevendo sobre amor, e ela vinha muito quieta sentar
ao seu lado, apoiar-se em seus ombros, enterrar o rosto em seus cabelos, e
apenas murmurar seu nome, ele sabia que queria escrever sobre amor.
Mas num outro dia. Numa outra
noite. Numa outra hora.
Havia muitas para se escrever
sobre amor.
...
Pois é, eu também sou gente.

Own, mo deus. Que lindo. Rafinha escrevendo sobre o amor! *o*
ResponderExcluirWell, sem resenha ficou um texto muito lindo. Sublime, delicado e bem lindinho e engraçadinho. Muito bonito esse texto, Rafa. Deixa um gostinho gostoso de quero mais. Queria te ler mais, escrevendo sobre o amor =)
nahmmanjhablblglb *vomitando as 7 cores*
ResponderExcluir*-*
Certo, já entendi que você é gente xD Continue diversificando os temas e estilos, isso é muito bom para aprimorar a escrita e é divertido também quando se está inspirado.
ResponderExcluirRafa é gente!!!
ResponderExcluirComo disse o Bardo, é muito bom variar o tema (*não consegue*). E você tem a delicadeza necessária pra falar de amor. Muito fofo ^^ e sutil. Gosto disso.
Amay *-*
ResponderExcluirFluido, contínuo e sem muitas surpresas.
ResponderExcluirClaro que a descortinada foi uma surpresa, mas esse tipo de coisa não é novidade em 2012. (risos)
Em todo desenrolar, uma ótima descrição quase como se eu visse a ação e o movimento na tela do netbook.
Você destravou uma nova função, agora pode falar sobre preconceito e sódio.