Na noite de ontem, junto à fogueira, me pediu um jovem marinheiro que eu contasse uma história. Não um conto qualquer, é claro, mas algo que fosse para os ouvidos como é a aguardente para o corpo que passa frio.
Uma história para aquecer os ouvidos de um marinheiro deve ser uma história do mar, pensei, e contei o seguinte caso.
Havia no mar do norte uma ilha de pedra, sobre a qual se erguia uma única casa, na qual vivia um único homem. Este era um pescador, como fora seu pai, e seu avô antes dele. Nenhum dos três chegara a pôr os pés fora da ilha durante toda sua vida, até onde ele sabia.
Ele acordava ao nascer do sol todos os dias e descia até a praia da pequena ilha, a fim de jogar sua rede ao mar e conseguir seu sustento – os peixes que trocava com os barcos dos mercantes que por ali costumavam passar, pelo que comer, beber ou vestir conforme lhe era necessário.
Durante o dia inteiro o pescador jogava sua rede, parando apenas ao avistar uma embarcação à distância, quando corria para acender seu pequeno farol e sinalizar para que se aproximassem. Mesmo que não aportassem para um bom negócio, ao menos poderiam dividir com ele um copo de bebida e algumas histórias de terras além da ilha.
Se o pescador não poderia ele mesmo navegar para outros lugares, você se pergunta? Mas como ele o faria sem possuir um barco?
Por que ele não tinha um barco, você pergunta?
À noite, o pescador sentava-se junto ao seu farol com uma garrafa de rum a lhe fazer companhia, e observava o mar. Embora houvesse sido criado ao lado dele durante toda a vida, ele não se julgava conhecedor das águas que o cercavam. De dia o mar que conhecia brilhava com o sol que batia na espuma das ondas, mas à noite sua face era outra, de águas cobertas por sombras.
Não, aquele pescador não conhecia o mar. E sem um barco, ele jamais o conheceria. E podendo pescar tão bem da margem, para que lhe serviria um barco?
Certa manhã, ao caminhar para a praia, o pescador ouviu risos por trás de algumas pedras, e se aproximou curioso para investigar, acabando por presenciar algo extraordinário.
Um pequeno grupo de focas saltava da água para a margem e graciosamente retiravam as peles uma a uma, deixando-as sobre as pedras para mergulhar nuas entre as ondas e, em corpos belos de mulher, celebrar o quão bom era nadar despidas no calor. Cada uma delas, em suas peles alvas cheias de curvas bem desenhadas, era de uma beleza com que o pescador jamais sonhara se deparar na vida.
Tão fascinado ficou ele com a imagem que teve uma ideia audaciosa. A passos leves, se aproximou das peles estendidas, decidido a roubá-las para que jamais aquelas visões fossem ser ocultas sob a forma de animais outra vez.
Mal suas mãos tocaram uma das peles, e gritos soaram da água. As focas se lançaram de imediato para a terra, agarrando suas peles e fugindo, todas logo retomando a forma de animais para encará-lo à distância.
Todas, exceto uma.
“Devolve-me a pele, pescador,” pediu a jovem foca, de forma angustiada. “pois não posso viver no mar sem ela!”
Fascinado com sua beleza, respondeu o pescador: “Se não pode viver no mar, por que não viver na terra? Venha comigo e te farei minha esposa!”
A foca o encarou intensamente, e havia uma sombra em seu olhar.
“Me pede o mesmo que pediram seu pai e o pai de seu pai às minhas irmãs mais velhas, pescador,” disse ela. “Eles as fizeram viver em tristeza por amor até o dia em que não mais suportaram e os afogaram durante a noite para pegarem de volta suas peles e retornarem ao mar. Você será como eles, pescador?”
“Suas irmãs mataram meu pai e meu avô?” exclamou o pescador, furioso. “Por que eu deveria então devolver essa pele a você, demônio?”
“Minhas irmãs amaram seu pai e avô, pescador, mas ao manterem-nas prisioneiras, eles tornaram amor em ódio,” retrucou a foca. “Se as amassem de verdade, eles teriam deixado minhas irmãs livres no mar a que pertenciam e que tanto amavam. E você, pescador? Qual será a sua escolha?”
O pescador ficou em silêncio por alguns instantes, então, antes de finalmente estender a pele para ela. A jovem foca estendeu as mãos para aceita-la de volta com o mais belo sorriso, e lhe falou:
“Se olhar para o mar, pescador, saiba que eu estarei lá. Só o que precisa fazer, é me procurar.”
Dizem que, no dia seguinte, ele começou a construir um barco.
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Palavra: 'espuma' (escolhida aleatoriamente do Livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges)
Tempo: 36 min (em 15 out 2012)
Olá a todos, e bem vindos ao Jogo! Aos interessados, essa loucura começou a algumas madrugadas atrás, numa combinação de insônia e tédio. Funciona da seguinte maneira: todos os textos do conjunto/série/jogo serão escritos a partir de uma única palavra. Os primeiros utilizaram palavras escolhidas aleatoriamente de livros variados, mas para os próximos, o sistema será diferente. As palavras sorteadas virão dos comentários de cada texto (a seleção será feita com um programa online e um pouco de matemática. Eu acho), então, quanto mais palavras interessantes, maiores as chances de eu produzir coisas interessantes (ou simplesmente dar TILT tentando :p). Quem vai querer jogar?
P.S.: Aceito sugestões para o nome do Jogo. Também posso aceitar sugestões de livros para sortear mais palavras no futuro, desde que tenha acesso a eles u.u
P.S.: Aceito sugestões para o nome do Jogo. Também posso aceitar sugestões de livros para sortear mais palavras no futuro, desde que tenha acesso a eles u.u






