terça-feira, 11 de junho de 2013

Do not resuscitate



Enterrem meu amor, na curva do rio ou na raiz da árvore, não me importa. Cubram-no com uma mortalha velha e ponham pregos em seu caixão, cimentem o túmulo. Meu amor morreu noite passada, não volta mais. Quero para ele um funeral de silêncio, sem luto ou lágrimas.

Não me diga que meu amor ainda respira, eu não posso ouvir. Não me interessa se ele agoniza aos meus pés, fecho os olhos, pronto, não o vejo mais. Meu amor pode chorar, arrepender-se de seus pecados diante dos deuses se assim quiser, e nada disso balança meu coração.

Não me interessa mais o que deseja meu amor, pois meu peito está seguro contra tais abusos. Ao redor de mim se ergue uma muralha de realidade, sobre a qual repousam gárgulas chamadas Razão e Decepção, prontas para atacar as mentiras e as promessas de doce e viciante felicidade que outrora saíram da boca de meu amor.

Não tentem colocá-lo de pé, fazer seu sangue voltar a correr. Não quero respiração boca-a-boca, massagem cardíaca, pílulas ou curativos. Não quero cuidados paliativos nem missa para meu amor.

Para esse sentimento decadente em meu peito quero apenas uma cova funda onde seja enterrado sob ordens de jamais ressuscitar e outra vez fazer minha alma desejar morrer.

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Curtinho, pensando sobre a expressão 'Do not resuscitate' (Não ressuscitar), que é a decisão legal de proibir que alguém preste socorro caso seu coração pare de bater, e inspirado pelos blogs da dona Ludmila Monteiro e dona Rhuana Caldas :p Espero que tenham gostado.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Prosa/Poesia: Curtíssima Mensagem Sobre a Saudade



A saudade transforma o resto de mim em jardim.
Tocar a grama é como afagar teus cachos e pelos.
Raízes enroscam minhas mãos como se fossem teus dedos.
O campo deixa teu cheiro no vento.
E os pássaros cantam o som do teu riso.
Fecho os olhos.
Permaneço deitada e imóvel,
Pois dezenas de joaninhas percorrem meu corpo.
Não quero esmaga-las mas
Temo que entrem pelos meus ouvidos, boca e narinas.
Causam-me cócegas e angústia.
As vezes penso que possa ser amor,
Talvez seja algo mais a ver  -
Com florescer.
Rhuana Caldas – Breve Ensaio Sobre a Saudade


- Sabia que a saudade floresceu em mim hoje? Sabia que fechei os olhos e ouvi tua voz, e de repente eu caminhava sobre a grama do teu cabelo e enroscava meus dedos nas suas raízes, e nada mais me importava, porque podia sentir teu cheiro? Teu cheiro, teu cheiro no meio das flores, no campo, no vento, não quero nunca mais perder o sabor que trouxe o teu cheiro pra minha boca, não quero nunca mais deixar de ouvir teu riso, teu riso é a música mais linda que já me tocou, beijou os ouvidos, ‘tá me ouvindo? Quero fazer minha voz te beijar como a sua me beijou, quero enroscar seu riso no meu, mas eu fico, eu fico aqui, parada, deixada para trás, coberta pelas patas e asas da minha angústia e do meu medo, queria abrir os olhos e correr por esse jardim e te ver, queria te ver, queria te ver, você vem? ‘tá me ouvindo? Você pode vir, pode me ver? Queria correr, queria te ver, te ouvir, sinto saudade no fundo das minhas raízes e penso que você devia estar aqui comigo, nesse lugar, nesse jardim, mas o medo tateia e passeia por mim, consegue me ouvir? Por que você não vem? Por que você não vem? Não ouviu que a saudade já está em flor, que hoje já é primavera? Vem, vem, me escuta, escuta o pássaro do meu riso encontrar o seu, escuta o sol nascendo e despertando a vida nesse jardim, escuta que eu já te escutei e não quero me enterrar no meu medo, como você se enterrou no seu... – click.

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Após imensa enrolação, texto do Desafio Interblogs, inspirado/resposta/relacionado ao aqui reproduzido poema Breve Ensaio Sobre a Saudade da talentosa Rhuana Caldas, do Memórias Meio Sóbrias (confiram o blog dela ;p) Acho que acabei enrolando no próprio texto. E roubando uma ideia antiga da Ludmila Monteiro 8D Well, é a vida. Críticas, elogios, sugestões, pensamentos e sensações?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Prosa/Poesia: O rio e o espelho


O tempo é como o rio
Onde banhei o cabelo
Da minha amada
Água limpa
Que não volta
Como não volta aquela antiga
madrugada.
Edu Lobo e Capinam

A canoa cortava o rio, acompanhada pelo silêncio morno da noite. Mesmo ao mover o remo contra a água, o canoeiro era cauteloso, evitando a todo custo fazer mais barulho do que era necessário. Sentada um pouco atrás do homem que remava, a mulher segurava o jarro junto a si e olhava para o céu coberto de estrelas para evitar olhar para a água.

Ela havia feito a jornada várias vezes antes, é claro. Mas o rio nunca era o mesmo. Da mesma forma que mudava o rio, mudavam o canoeiro, ela mesma – a carregadora do jarro – e a própria embarcação.

Mas era tão mais fácil notar a água. Fosse a água somente, já seria ela uma imensidão de significados, mas além da água do rio, havia o espelho que ela criava.

O espelho era o maior problema.

Ela assistiu as estrelas compenetrada de seu lugar na canoa, determinada a seguir as regras enquanto no céu houvesse estrelas, nuvens e imensidão. Só não olhe para a água e tudo fica bem.

Só não olhe.

A copa das árvores surgiu tão de repente que a sobressaltou. Seus olhos escorregaram para as margens e para os troncos escuros – as árvores tinham que ser fortes para sobreviver naquele lugar – e ela se deu conta de estavam se aproximando do destino. Só mais alguns minutos agora.

Então, se eram apenas alguns minutos... Talvez não fizesse mal, certo? Seus olhos escorregaram, devagar, quase contra sua vontade, das árvores para a margem e da margem para o rio. Era só um olhar, só um instante...

Só...

Um...

Instante...

Na água, o céu refletido se revelava aos poucos com as folhas das árvores rastejando para longe como coisa viva. No fundo escuro da noite, estrelas piscavam como se num pulso, um ritmo de respiração feito de luz à distância de mais quilômetros do que um homem poderia contar. Uma respiração, e duas estrelas pareciam maiores que antes, ou era impressão sua? Duas respirações, e as estrelas pareciam faróis agora, de tão perto que estavam chegando, crescendo, brilhando contra a copa das árvores... Três respirações.

Ela prendeu o próprio fôlego e assistiu enquanto a enorme criatura descendia da noite, nadando com membros poderosos no ar como se numa dança e encarando algo que parecia distante demais da realidade com enormes olhos brilhantes. Lentamente, sua cabeça se aproximou da copa das árvores e mergulhou por entre as folhas, enormes guelras se abrindo de cada lado e agitando os galhos ao respirar e, nesse segundo, toda a mata se agitou.

Ao que o corpo do animal gigantesco tocou as folhas, centenas de milhares de vagalumes se elevaram para longe das árvores numa agitação estonteante. Só que não eram vagalumes, mas minúsculas criaturas com corpos humanoides sob uma cabeça coberta de pelos negros cobrindo tudo exceto um par de presas que clicavam sem parar, em sincronia com as garras escuras em seus pés, que batiam umas nas outras enquanto voavam batendo as asas brilhantes tão rápido que mal se podia enxergar.

Assim que se viram longe das árvores, as criaturas lançaram-se em algo como uma dança frenética, que se tornava uma batalha selvagem apenas para de novo voltar a ser uma dança, até o ponto em que tudo evoluía para uma confusão brilhante e impossível de se distinguir ao redor da mata cujas folhas se agitavam com seus gritos de guerra e êxtase.

Alguns desinteressados da batalha ou do jogo se afastaram do centro da confusão, descendo para os pés das árvores e para a margem do rio, planando sobre a superfície da água e parecendo examinar a canoa curiosamente enquanto clicavam as presas tão rápido que ela quase podia ouvir...

- Suha.

O chamado veio junto com o encontro suave da canoa com a terra e a mulher ergueu a cabeça com um ofegar abafado. Ao seu redor, tudo era de novo o silêncio, exceto pelo sussurro da água que alcançava seus ouvidos. Muito perto. De pé na margem diante da canoa, o condutor da embarcação lhe oferecia a mão, uma pergunta muda nos olhos. Ela estendeu a própria mão e aceitou sua ajuda para desembarcar.

Eles caminharam juntos por entre as árvores, apenas alguns passos, mas continuando a manter o silêncio que lhes fizera companhia até então. A fonte os aguardava, jorrando continuamente entre duas pedras. Com cuidado e recebendo apenas o mínimo de ajuda de seu companheiro, a mulher se aproximou e ajoelhou, levando a boca do jarro que trazia à fonte de água.

Ela observou e ouviu enquanto a água o enchia aos poucos, batendo no fundo com um som frio e suave como a própria noite. Presenciar aquele pequeno ato era se lembrar de uma vila rio abaixo, em que havia uma casa pequena com fogo aceso e uma criança adormecida os esperando. Carregar a água limpa e fresca era como ter um relance dos anos que viriam, e do quanto a criança ainda cresceria.

Mas, no caminho de um ponto ao outro, ainda haveria o rio, e o espelho, e tempo para alguns instantes de testemunho das coisas que se escondiam no fundo de ambos.

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E então. Novidade das novidades, eu atrasei o texto. Culpem... Sei lá. O mundo. Eu mesma. Não sei. Esse só saiu na segunda tentativa e mesmo assim com muita luta. Ainda não sei bem se gosto ou não do final. O que vocês acham?

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mortes Anunciadas (O Jogo - Segunda Rodada)




Foi uma moça curiosa por histórias de fazer gelar o sangue quem primeiro me pediu uma história de assassinato. Eu a contei assim.


Havia na casa uma grande biblioteca, com livros de todo o tipo. Livros de histórias, de culinária, de viagens a lugares distantes, enciclopédias e dicionários. E havia na biblioteca livros de assassinato.

Quando o dono da casa por algum motivo se desentendia com alguém, logo lhes oferecia um livro de assassinato – sobre um homem que morrera envenenado pela esposa, sobre outro que fora enforcado pelo irmão, sobre o que fora empurrado no caminho de uma carruagem...

As desavenças costumavam durar muito pouco tempo.

O homem era casado, naturalmente, e tinha muito amor por sua jovem esposa, cuja paixão eram livros – que ele usara para conquista-la, em primeiro lugar.

Certo dia, estava o homem consertando alguma parte qualquer da casa quando acabaram seus pregos. Ainda carregando o martelo, ele subiu as escadas até a biblioteca, na intenção de perguntar à esposa – que certamente encontraria lá – onde havia guardado o material que precisava.

A jovem estava, de fato, sentada numa poltrona na biblioteca, completamente absorta num volume da coleção que tinha aberto nas mãos.

O dono da casa se aproximou e, por cima do ombro da esposa distraída, leu algumas palavras apenas do livro, identificando-o como o que contava a história da mulher que era morta a marteladas pelo marido.

Já sentindo as lágrimas escorrerem dos olhos, ele ergueu o martelo.

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Palavra: 'matar' (escolhida aleatoriamente do Livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges)
Tempo: 12 min (em 15 out 2012)

Por uma escolha democrática (tradução: votos das três pessoas online que comentaram no último conto), estou trazendo um dos textos prontos para juntar os comentários dele aos do anterior na hora de sortear uma nova palavra. Quem vai participar da segunda rodada? Vamos lá, galera!

sábado, 27 de outubro de 2012

Desejo e Arbítrio (O Jogo - Primeira Rodada)




Foi uma jovem de olhos perdidos quem me pediu, certa noite, uma história sobre reencontro. Mesmo hoje não sei quem ela desejava tão ardentemente rever – ou talvez encontrar pela primeira vez – sob a quietude de seus gestos. Mas foi essa a história que lhe contei.

Havia um rapaz e uma moça numa naquela vila num vale entre montanhas que tocavam o céu, e todos diziam que eles se amavam. Talvez fosse verdade, ou talvez fosse apenas a repetição constante o que convenceu o rapaz a declarar à jovem que por ela tinha sentimentos maiores do que poderia sonhar em descrever, mas o que importa é que, um dia, ele o fez.

“Você diz me amar,” a moça lhe respondeu. “Mas o que é esse amor?”

Confuso, o rapaz atropelou-se nas palavras, e a jovem sorriu. “Quando souber me dizer,” ela propôs. “Eu lhe darei uma resposta, então. Vamos primeiro viver antes de nos encontrar de novo.”

Ele concordou, e os dois viveram. O rapaz partiu em viagem para conhecer mais sobre o mundo e tentar entender aos outros e a si mesmo, e a moça, sem sair da vila, também buscou entender, através de histórias, de pessoas, de canções. De tudo aquilo que podia alcançar e conhecer.

Veio o dia em que o rapaz retornaria, por fim, e ele caminhou confiante de volta à vila em que nascera, certo de que entendia o sentimento que possuía agora, o sentimento que o levava a sorrir com o sorriso da moça.

Ele foi até sua casa, bateu em sua porta, ansiou por dizer seu nome e falar sobre todas as coisas que havia visto, e por saber também o que ela vira naquele meio tempo.

Encontrou a moça na cama, entre as cobertas como um anjo adormecido. Mas não haveria despertar ou riso para aquele anjo em particular. A jovem estava morta.

“A doença a levou.” Disseram os parentes com tristeza. “Sua alma subiu a montanha para as nuvens, para o céu e para as mãos dos deuses. Não há mais volta para ela.”

Mas não poderia ser. Não poderia ser assim, porque era o dia. O dia do reencontro, o momento pelo qual ambos haviam esperado por todo aquele tempo...

Aquele não podia ser o final. Aquela história não poderia ter terminado, ter sido interrompida tão rudemente.

Ainda era noite quando ele deixou a vila com o corpo da moça nos braços. Ninguém o viu seguir a trilha, subir a montanha na direção do céu.

Se a alma da moça estava com os deuses, ele só precisava pedir que a devolvessem. Somente, e os dois ficariam juntos, e trocariam suas histórias e sorrisos como haviam prometido.

Ele só precisava pedir a alma de volta, e tudo ficaria bem.

O rapaz caminhou e escalou por duas noites e um dia, sofrendo com o frio, fome e sede que pareciam intermináveis, mas nunca parando e nunca largando o preso pálido que trazia nos braços. Foi somente no amanhecer do segundo dia que ele alcançou o topo, o estranho precipício no meio das nuvens.

O jovem cambaleou pelo caminho até cair sobre os joelhos no fim da linha, à beira de um abismo sem fundo. O peso do corpo da moça já não o incomodava, assim como há muito não o incomodava dor, fome e sede. Seu corpo estava dormente com o frio e a exaustão. O único som em seus ouvidos era o uivo interminável do vento, como o uivo de uma coisa viva e enorme, furiosa e incontrolável...

Ele ergueu a cabeça para o alto, para o céu que era a única coisa ao seu redor. E seus olhos, que já mal podiam distinguir qualquer coisa, enxergaram naquele momento, uma forma surgir entre as nuvens. Uma criatura imensa e terrível, quase tão grande quanto o próprio mundo. Ela era apenas luz e forma, e braços e asas, mais do que se poderia contar ou entender. Ela era vento e fúria numa dança maravilhosa e aterrorizante, e uma gigantesca face de olhos cegos que, ainda assim, pareciam considera-lo e perguntar no silêncio...

Qual é o seu desejo?

Ele o falou.

Não há, entre os que contam a história, um consenso sobre o que houve depois. Só se sabe que o desejo foi concedido.

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Palavra: 'quando' (sorteada do comentário de Carol - 23 out 2012)
Tempo: 30 min (em 26 out 2012)

E o primeiro conto sorteado! Como podem ver, a palavra sorteada foi algo bem estranho... Eu me limitei mais ou menos a substantivos e verbos na hora de sortear as palavras, mas coloquei uma ou outra coisa estranha só pra subir o nível de desafio caso saíssem... Não esperava que alguma delas fosse realmente ser sorteada. O texto foi ligeiramente inspirado numa imagem que eu achei na internet aleatoriamente no dia que escrevi. E pode ou não ter sido influenciado por uma música também, embora eu mesma ainda não enxergue muito bem a relação. E alguém falou que lembra Shadow of Colossus (embora eu nunca tenha jogado, pra ser sincera).

De qualquer forma, cá está o conto, e eu apreciaria muito ouvir suas opiniões sobre ele, sobre o processo, e o resultado do sorteio! Eu pretendo publicar um texto pronto talvez no meio da semana e estou em dúvida se sorteio só os comentários desse ou do próximo para a próxima palavra, se faço dois sorteios ou se sorteio só uma palavra dos comentários de ambos... Aceito sugestões para resolver o problema. Até breve!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O pescador e o mar (O Jogo - Primeira Rodada)

(Mais informações sobre O Jogo no final do texto)



Na noite de ontem, junto à fogueira, me pediu um jovem marinheiro que eu contasse uma história. Não um conto qualquer, é claro, mas algo que fosse para os ouvidos como é a aguardente para o corpo que passa frio.
Uma história para aquecer os ouvidos de um marinheiro deve ser uma história do mar, pensei, e contei o seguinte caso.

Havia no mar do norte uma ilha de pedra, sobre a qual se erguia uma única casa, na qual vivia um único homem. Este era um pescador, como fora seu pai, e seu avô antes dele. Nenhum dos três chegara a pôr os pés fora da ilha durante toda sua vida, até onde ele sabia.
Ele acordava ao nascer do sol todos os dias e descia até a praia da pequena ilha, a fim de jogar sua rede ao mar e conseguir seu sustento – os peixes que trocava com os barcos dos mercantes que por ali costumavam passar, pelo que comer, beber ou vestir conforme lhe era necessário.
Durante o dia inteiro o pescador jogava sua rede, parando apenas ao avistar uma embarcação à distância, quando corria para acender seu pequeno farol e sinalizar para que se aproximassem. Mesmo que não aportassem para um bom negócio, ao menos poderiam dividir com ele um copo de bebida e algumas histórias de terras além da ilha.
Se o pescador não poderia ele mesmo navegar para outros lugares, você se pergunta? Mas como ele o faria sem possuir um barco?
Por que ele não tinha um barco, você pergunta?
À noite, o pescador sentava-se junto ao seu farol com uma garrafa de rum a lhe fazer companhia, e observava o mar. Embora houvesse sido criado ao lado dele durante toda a vida, ele não se julgava conhecedor das águas que o cercavam. De dia o mar que conhecia brilhava com o sol que batia na espuma das ondas, mas à noite sua face era outra, de águas cobertas por sombras.
Não, aquele pescador não conhecia o mar. E sem um barco, ele jamais o conheceria. E podendo pescar tão bem da margem, para que lhe serviria um barco?
Certa manhã, ao caminhar para a praia, o pescador ouviu risos por trás de algumas pedras, e se aproximou curioso para investigar, acabando por presenciar algo extraordinário.
Um pequeno grupo de focas saltava da água para a margem e graciosamente retiravam as peles uma a uma, deixando-as sobre as pedras para mergulhar nuas entre as ondas e, em corpos belos de mulher, celebrar o quão bom era nadar despidas no calor. Cada uma delas, em suas peles alvas cheias de curvas bem desenhadas, era de uma beleza com que o pescador jamais sonhara se deparar na vida.
Tão fascinado ficou ele com a imagem que teve uma ideia audaciosa. A passos leves, se aproximou das peles estendidas, decidido a roubá-las para que jamais aquelas visões fossem ser ocultas sob a forma de animais outra vez.
Mal suas mãos tocaram uma das peles, e gritos soaram da água. As focas se lançaram de imediato para a terra, agarrando suas peles e fugindo, todas logo retomando a forma de animais para encará-lo à distância.
Todas, exceto uma.
“Devolve-me a pele, pescador,” pediu a jovem foca, de forma angustiada. “pois não posso viver no mar sem ela!”
Fascinado com sua beleza, respondeu o pescador: “Se não pode viver no mar, por que não viver na terra? Venha comigo e te farei minha esposa!”
A foca o encarou intensamente, e havia uma sombra em seu olhar.
“Me pede o mesmo que pediram seu pai e o pai de seu pai às minhas irmãs mais velhas, pescador,” disse ela. “Eles as fizeram viver em tristeza por amor até o dia em que não mais suportaram e os afogaram durante a noite para pegarem de volta suas peles e retornarem ao mar. Você será como eles, pescador?”
“Suas irmãs mataram meu pai e meu avô?” exclamou o pescador, furioso. “Por que eu deveria então devolver essa pele a você, demônio?”
“Minhas irmãs amaram seu pai e avô, pescador, mas ao manterem-nas prisioneiras, eles tornaram amor em ódio,” retrucou a foca. “Se as amassem de verdade, eles teriam deixado minhas irmãs livres no mar a que pertenciam e que tanto amavam. E você, pescador? Qual será a sua escolha?”
O pescador ficou em silêncio por alguns instantes, então, antes de finalmente estender a pele para ela. A jovem foca estendeu as mãos para aceita-la de volta com o mais belo sorriso, e lhe falou:
“Se olhar para o mar, pescador, saiba que eu estarei lá. Só o que precisa fazer, é me procurar.”
Dizem que, no dia seguinte, ele começou a construir um barco.
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Palavra: 'espuma' (escolhida aleatoriamente do Livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges)
Tempo: 36 min (em 15 out 2012)

Olá a todos, e bem vindos ao Jogo! Aos interessados, essa loucura começou a algumas madrugadas atrás, numa combinação de insônia e tédio. Funciona da seguinte maneira: todos os textos do conjunto/série/jogo serão escritos a partir de uma única palavra. Os primeiros utilizaram palavras escolhidas aleatoriamente de livros variados, mas para os próximos, o sistema será diferente. As palavras sorteadas virão dos comentários de cada texto (a seleção será feita com um programa online e um pouco de matemática. Eu acho), então, quanto mais palavras interessantes, maiores as chances de eu produzir coisas interessantes (ou simplesmente dar TILT tentando :p). Quem vai querer jogar?

P.S.: Aceito sugestões para o nome do
Jogo. Também posso aceitar sugestões de livros para sortear mais palavras no futuro, desde que tenha acesso a eles u.u

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Sobre escrever sobre amor




Às vezes, ele queria escrever sobre amor.

Nos dias em que ela o dispensava da função de lavador ou guardador de pratos para passar horas na cozinha limpando e enxugando enquanto cantarolava xotes e forrós antigos que ecoavam dos azulejos até sua cadeira em frente ao computador.

Nas madrugadas em que o cheiro de café quente o tirava da cama para encontra-la sentada à mesa da mesma cozinha com um sorriso sonolento que lembrava o fato de que, na maior parte das manhãs, era quase impossível fazê-la sair debaixo das cobertas.

Nas noites em que ela se inclinava para olhar a tela do computador pelas suas costas, ria de suas conversas e e-mails com o resto da delicadeza que a invasão de privacidade levara. Também quando ele se virava para cutucar suas costelas em resposta, e ouvia a voz dela gritar e rir quase histérica, e chama-lo de ‘tratante miserável’.

Quando ele era ‘tratante’ e ‘miserável’ e quando era um irônico ‘querido’, ele queria escrever sobre amor.

Nos domingos em que se sentavam os dois no sofá e desenterravam um console de videogames ancião, e passavam horas gritando coisas um tanto obscenas demais para se dizer em frente a alguns jogos de 16-bits.

Quando ela estava trabalhando no computador e reclinava na cadeira de forma preguiçosa, erguendo os cabelos com as mãos apenas para deixa-los cair de novo como uma cascata sobre as costas.

Ele queria escrever sobre amor todas as vezes em que abriam uma garrafa de vinho. Queria escrever e escrever quando ela brincava com o pingente de um colar no pescoço fino. Queria caneta ou lápis, caderno ou guardanapo toda vez que que ela ria, para escrever sobre amor.

Quando de noite, deitada na cama, ela lhe dava um sorriso cansado, ele quase enlouquecia por um segundo, desejando escrever sobre amor.

E quando ele estava, no computador ou no papel, escrevendo sobre amor, e ela vinha muito quieta sentar ao seu lado, apoiar-se em seus ombros, enterrar o rosto em seus cabelos, e apenas murmurar seu nome, ele sabia que queria escrever sobre amor.

Mas num outro dia. Numa outra noite. Numa outra hora.

Havia muitas para se escrever sobre amor.
...


Pois é, eu também sou gente.